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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A autonomia tradicional das artes e outras contradições

(“Its Not Always Easy to Tell What’s Real and What’s Fabricated”)

Habitualmente a “silly season” é dedicada a assuntos pouco importantes, a que a maioria das pessoas não liga nenhuma (excepto quando se trata de dar cabo  deles, claro): florestas, património ou o financiamento das artes são bons exemplos, e ao último deles tem sido dedicado um debate raro que, pelos vistos, só aparece quando o dinheiro desaparece, o que diminui consideravelmente o seu alcance.

Ao longo deste debate e de uma forma mais ou menos articulada, foi-se argumentando e contra-argumentando para quem vai o dinheiro das artes e quem o deve dar. Esta última parte é importante, porque, para alguns, determina para quem vai a lealdade do artista. Para esses, o artista nunca deveria ser pago directamente pelo seu trabalho, invocando que só deste modo pode manter a sua autonomia. Não lhe pagando directamente, fica desde já claro que o dinheiro vai parar a quem faz de intermediário – galerias, museus, etc.

No entanto, se o artista é autónomo em relação ao sítio de onde o dinheiro vem, já não o é em relação aos intermediários, que têm bastante poder para determinar o que o artista deve ou não fazer ou, mais subtilmente, quem pode ou não ser artista, excluindo quem quiserem. É uma questão de gosto, dizem, ou então são as regras da arte. Muitos destes intermediários defendem uma arte que responde apenas às suas próprias leis, uma arte pela arte; de fora ficam habitualmente a arte política, a arte pública ou coisas como o design e a arquitectura, que são negociadas directamente com um cliente ou com um público.

No entanto, é possível ver aqui uma possível contradição [1]: se a arte fosse realmente autónoma, um artista poderia decidir que essa autonomia lhe permite dedicar-se à politica, à economia ou até ao design. A autonomia da arte é apenas um modo de fixar os seus limites disciplinares e institucionais.

Estes assuntos parecem pouco importantes, conversas que se tem enquanto se toma chá com o dedo mindinho no ar, mas determinam quem recebe ou não dinheiro e portanto afectam as vidas do conjunto de pessoas que escolheram dedicar a sua vida às artes, fazendo-as ou administrando-as.

Neste contexto, a autonomia da arte é apenas uma ferramenta negocial. Faz com que a lealdade dos artistas vá para os seus intermediários e não directamente para o Estado ou para mecenas privados, tornando-se – Ui! – “propaganda”. É claro que os intermediários são perfeitamente livres para filtrarem os artistas de acordo com os interesses de quem paga – a “Autonomia” significa apenas “Não regateio”, uma boa posição estratégica para começar a regatear.

[1] Naturalmente, é apenas uma contradição produtiva, embora mais para uns que para outros: autonomia da arte e autonomia dos artistas são coisas diferentes e há quem seja a favor da primeira e não da segunda.

Filed under: Arte, Crítica, Cultura, Design, Economia

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