The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Os Dois Quiosques e os Dois Designs

Todas as pessoas que gostam de revistas num pais periférico têm um quiosque de referência, onde podem comprar coisas que não há em mais lado nenhum. Em Lisboa, há um na entrada de um centro comercial nos Restauradores. Comprei lá uma ou outra Believer, um número da Fire & Knives e a última Dot Dot Dot. No Porto, há um numa rua paralela às Belas Artes onde compro revistas desde há mais de quinze anos, quase vinte, quando ainda era aluno. Ao longo da minha vida, passei por uma enfiada destes quiosques onde podia cobiçar, antes mesmo de ter dinheiro para as comprar, revistas internacionais como a (Á Suivre), a Metal Hurlant, a Pilote ou a Eye. Havia outros quiosques, claro, mas nesses só apanhava os jornais do costume, a TV Guia, gelados ou senhas de autocarro.

Existem dois modos de fazer as coisas em Portugal, de que os dois tipos de quiosques são bons exemplos: de um lado, há quem acredite que para ser bem sucedido é preciso cumprir o figurino, vendendo exactamente o mesmo que a concorrência; do outro, há quem se decida a vender o que mais ninguém tem. Nestes casos, até um quiosque se torna um ponto de referência, justificando uma visita regular ou uma viagem longa em transportes – pelo menos, temos alguma coisa para ler na volta.

Mas se em Portugal ainda há quiosques interessantes, não se pode dizer o mesmo do design português. No ensino, por exemplo, ainda se insiste na ideia de formar designers gráficos com o mínimo de especialização possível, formando essencialmente estagiários que só se vão especializar já em pleno mercado de trabalho. Os mestrados de Bolonha, que supostamente iriam resolver o problema, têm temas cada vez mais vagos, certamente como estratégia para caçar mais alunos e, com isso, mais propinas. As poucas revistas de design que foram aparecendo oscilam hesitantemente entre o design (que amontoa o gráfico, de produto e de equipamento) e o marketing, misturando umas dicazitas de Photoshop ou modelação 3D. Tudo e mais alguma coisa, enfim.

Para quando uma revista que se possa comprar num daqueles quiosques que só vendem coisas interessantes?

Anúncios

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Ensino, Publicações

12 Responses

  1. Também penso que em Portugal podia haver uma revista só de design. Existem algumas empresas de design nacionais de grande qualidade. São empresas de design gráfico, multimédia, webdesign e equipamento. E até no 3D, matéria “recente” no nosso país, já existem os chamados prós, com sites completamente interactivos e feitos em 3D, normalmente com um selo do FWA ou outro equivalente (o suficiente para convencer “inter-designautas” de todo o mundo de que em Portugal também existe qualidade).

    Ora por isso, motivos para a criação de uma revista só de (e para) designers portuguesa não faltam. Mas, para ser mesmo boa teria de seguir os contornos das revistas internacionais. E assim conseguíamos fazer concorrência a essas revistas mesmo no nosso país. Porque a concorrência existirá sempre. E se um dia eu me lembrar de comprar uma revista de design e só tiver 20 “aéreos” na carteira provavelmente escolherei uma revista internacional em detrimento de uma revista portuguesa, a não ser que esta última seja equivalente ou superior à primeira.

    Uma boa forma de a internacionalizar seria efectivamente a sua exportação para locais globais de charneira (Londres, Paris, Roma, Nova Iorque…) e a implementação da mesma num site que fosse inovador e que reflectisse a própria imagem da revista, com apanhados gerais dos temas destacados na revista todos os meses.

    Faz falta uma revista dessas em Portugal, também porque a única forma que temos de nos irmos actualizando nas matérias do design português é aparecendo nas grandes exposições empresariais e recebendo newsletters semanais ou mensais das várias empresas de design, designers freelancers e artistas, etc.

  2. Acho que se refere à Tema, que é, de facto, uma ilha ali no centro de Lisboa no que toca a revistas. A única no país que conheço com uma estante apenas de revistas de design e ilustração, e que separa essas das revistas de “dicas” ou tutorials informáticos: apesar da sua qualidade, a Computer Arts nunca se mistura ali com a Eye ou a Grafik. De cada vez que lá passo pergunto-me como ainda está aberta e quanto tempo faltará até fechar…

  3. Situr Anamur diz:

    Uma revista de design em Portugal seria mais uma revista cor de rosa tal como as Marketeers e Breifings e etc que por aí andam porque o português está mais à vontade a discutir o que fez ou disse o sr X e o sr Y do que discutir ideias.
    Basta ver o belo exemplo que é o Imagens de Marca na SICN que só entrevista sempre os mesmos cabeçudos e zés pereiras e raramente fala sobre o que é realmente branding.

  4. j diz:

    há, aqui neste cantinho Europeu, apenas um quiosque.
    Controla toda a opinião/visão publica, anuncia o top dos políticos mais sexy do verão, omite conscientemente factos e defende ao máximo a sua jorna (paga pela parcialidade política e governamental e/ou publicitária ).

  5. Nuno Jacinto diz:

    Concordo com o Situr Anamur. Infelizmente para termos mais revistas Maria da área criativa como as que mencionou onde acrescento a Meios & Publicidade, mais vale estar quieto. Ainda se tentou fazer algo de interessante com a (penso que já defunta) ALICE, mas depressa caiu em mais do mesmo.
    Depois cai-se, no muito estranho erro, de dizer que publicaçoes como a Dif o ou a Parq, sao revistas representativas do que se faz em Portugal. Se assim estamos todos condenados

  6. […] uns textos atrás, comparei as revistas sobre design portuguesas a quiosques, e a DirectArts é sem dúvida um daqueles quiosques onde se vende de tudo, desde o Diário de […]

  7. […] uns textos atrás, comparei as revistas sobre design portuguesas a quiosques, e a DirectArts é sem dúvida um daqueles quiosques onde se vende de tudo, desde o Diário de […]

  8. Carlos Soares diz:

    só para acrescentar umas notas de rodapé.

    O quiosque de lisboa é a TEMA e é curioso que só se refira a loja dos restauradores e nunca a outra loja que eles têm no Colombo =)
    (como curiosidade, se entrarmos mais a fundo nas galerias dos restauradores encontramos uma excelente loja de HiFi, dirigida pelo produtor do Pedro Costa… pequeno este país, não?

    Quanto às publicações, não me parece que existam muitas com distribuição e afirmação global (ie, as únicas viáveis economicamente) de um país periférico como o nosso… Por mim tudo bem, desde que apareçam outras coisas mais pequenas que não precisam de enverdar pelos modelos (provavelmente obsoletos) das revistas de referência, como a eye (sempre que vou comprar um número penso que mais vale comprar um livro de perto de 30 euros e desisto! =).

    Gostaria aliás de perceber quantos números venderá a Eye num país como Portugal. Fora algumas universidades e alguns gabinetes e ateliês que a assinam… chegará a 30, 50, mais exemplares?

  9. João Drumond diz:

    Boa noite

    Fui seu aluno pela primeira vez o ano passado na disciplina de tipografia e estou a escrever da Holanda onde estou a fazer Erasmus neste semestre.
    O motivo pelo qual estou a responder a este post foi o facto de, na segunda-feira passada, ter ido explorar a biblioteca da minha escola para fazer pesquisa sobre estudos de legibilidade e desenho de tipografia aplicada a diferentes meios de comunicação, para a nossa disciplina nuclear de tipografia. O professor prometeu-nos que íamos encontrar, para material de estudo, boas publicações e revistas e, de facto, o arquivo era muito bom, começando pelas Emigre. Mas o que realmente me chamou a atenção, para além do arquivo, foi o facto de uma colega minha finlandesa ter dito a certa altura “oh, that’s the magazine from my school”, apontando para a prateleira das publicações mais recentes, lado a lado com a eye.

    A verdade é que fiquei admirado com a qualidade da publicação e falo a nível de design, porque, muito embora tenha quase a certeza que a qualidade dos artigos acompanha a do visual, não entendo finlandês para o comprovar. Entretanto, a Pauliina esteve a explicar-me o processo de produção da revista e disse-me que existe um gabinete na escola responsável pela publicação e que integra uma nova equipa de alunos a cada nova edição, o que faz com que, como me disse, existam altos e baixos na qualidade, assim como por vezes existem também cortes no orçamento que fazem com que a revista seja só impressa a uma cor. Percorri todas as Arttu! (o nome da revista) que existiam na biblioteca da Willem de Kooning para tirar as minhas conclusões. Nem a mudança de alunos responsáveis pelas edições nem os cortes orçamentais faziam com que a revista perdesse a solidez que fui constatando ao longo das publicações.

    este é o link para um número da Arttu!, retirado de um portfólio de um aluno:
    http://www.mikkovarakas.com/index.php?/arttu-/

    Pergunto-me se o facto de algumas escolas estrangeiras darem a oportunidade aos alunos de participarem em projectos como este e aplicarem os seus conhecimentos a algo concreto e materializável como uma publicação académica, não ser um factor importante para um enriquecimento do panorama pós-académico no que diz respeito a publicações consistentes e especializadas.

    Gostava de ver um projecto da minha faculdade na prateleira dos destaques da Willem de Kooning, mas tenho a certeza que, se de facto isso viesse a acontecer, teria sido conseguido com muito mais suor e sofrimento do que qualquer número da Arttu! da escola finlandesa. De qualquer forma vou tentar divulgar o projecto quando chegar a Portugal e discutir o assunto com os meus colegas.

    • Nas Belas Artes do Porto já houve uns tantos projectos que começaram por ser trabalhos feitos por alunos para cadeiras: as revistas Voca e Pangrama foram dois desses projectos. No quarto ano, costuma haver alguns projectos do género. Existe também a revista Up Arte que, tanto quanto sei, é publicada por alunos que se proponham a editá-la (não sei como é feito o processo de selecção; o melhor é perguntar à Associação de Estudantes). Já vai no quarto número. Também já foi editada a revista Mono (até agora um número), pelo gabinete editorial da Faculdade.

      É bom tanto para alunos como professores publicarem, sempre que possível.

  10. […] E, já agora, só para barrar melhor a manteiga. Share this:FacebookTwitterGostar disto:GostoBe the first to like this […]

  11. Antigamente ia à Tema nos Restauradores (mais completa —acho eu — do que a do Colombo) mas agora fico-me pela livraria Barata na av. Roma, que de um modo geral, me parece ter mais ou menos tudo o que a outra tem. Também existe o recente MAG Kiosk na Lx Factory, que contactei à procura de duas publicações que não encontro em lado nenhum (Good magazine e Oh comely!) e disseram-me que também não as tinham nem os fornecedores tinham. Por isso, tenho um bocado a sensação de que vendem todos o mesmo, independentemente de haverem mais ou menos quiosques.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: