The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A rentrée

Mais uma vez, começa o ano lectivo. Desta vez, sem grandes expectativas, tanto nas escolas como fora delas. A nível internacional, o entusiasmo pelas publicações independentes e pela crítica esmorece, migrando para o design social e um regresso à ideia do design como negócio.

O design é uma coisa de modas, com uma capacidade de concentração reduzida e sempre à procura de um novo brinquedo. Há uns dez anos, andava atrás do Flash e do Director. Elogiava-se a interdisciplinaridade. Os designers punham música e faziam instalações. Embaraçavam-se em público. Havia livros, revistas e conferências dedicados a isso. Agora, mesmo a memória disto tudo começou a ser embaraçosa.

Pouco depois, começava o boom da publicação independente, com a Dot Dot Dot, a McSweeney’s, a Roma Publications, mais tarde a F.R. David. A coisa ainda vai durando, mas a Dot Dot Dot e a F.R. David estão a editar os seus últimos números; a McSweeney’s editou um catálogo retrospectivo. A sensação que fica é de fim de festa.

Do lado da crítica de design, outra moda dos anos zero-zero, desenvolvida nos blogues e nas tais publicações independentes, a coisa também esmorece. Da catrefada original, poucos blogues sobrevivem; alguns, como o Design Observer, meras paródias da sua energia original. A institucionalização da crítica através de mestrados e doutoramentos levaria à sua diluição.

Do lado do ensino, o interesse é agora o design social, uma maneira elegante de impedir que as tendências práticas do ensino actual interfiram com o design enquanto negócio, mantendo alunos e professores concentrados em trabalhos sem fins lucrativos, se possível além-mar. Também não chateia que as escolas que se dedicam ao design social se ponham assim a jeito para receberem donativos de alguns milionários que queiram aliviar a consciência, pagando isso com metade da fortuna. A privatização da assistência social financia a privatização do ensino – dois coelhos numa cajadada.

O design português, na sua grande maioria, participou destas tendências da maneira do costume: mandando-as vir pelo correio, para completar a colecção. Ao nível das instituições – falo das escolas –, perdeu o comboio dos Novos Media, das publicações independentes e da crítica – que se reduziram aos esforços de meia dúzia de cromos. Perderá em breve novos comboios, dos quais ainda nem se sabe o nome ou o horário.

Das poucas tendências da última década que se traduziram aqui numa resposta sistemática, organizada e bem sucedida foi a criação de fontes, onde Portugal, talvez por distração, ganhou nome.

Poderíamos talvez acrescentar a Experimenta ao rol das coisas que deram certo internacionalmente – um pausa para o leitor português coçar a cabeça e pensar que enlouqueci. As bienais de design são como os governos: não há nenhuma que seja respeitada no sítio e na época em que é feita; todas elas gastam rios de dinheiro sabe-se lá em quê. No entanto, algumas das melhores exposições e eventos de design que fui vendo nos últimos anos devem-se à Experimenta e, a nível internacional, tem tido boa cobertura e boas críticas. Perdoem-me se acredito que um monte de dinheiro gasto em design é preferível ao monte gasto em Futebol, submarinos ou arte contemporânea.

Tudo isto para concluir que foi uma década fraca, sustentada sobretudo pelo esforço individual, quase sempre sem apoio das instituições ou escolas, em geral mais preocupadas com a engrenagem colorida, ineficaz e inútil de Bolonha – ou com a possibilidade dos políticos estarem mesmo a falar de design quando usam a palavra “design”.

Quanto à rentrée (já me esquecia): bem-vindos de volta ao circo.

Filed under: Crítica, Cultura, Design

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