The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Uma revista

Durante as últimas semanas, tenho perguntado às pessoas se conhecem a revista DirectArts. Perguntei a designers, alunos e professores no Porto e em Lisboa, gente interessada em revistas, exposições e escrita sobre design, cerca de quinze pessoas em ocasiões distintas. Ninguém a conhecia.

Não me surpreendeu. Há cerca de ano e meio, quando encontrei o primeiro número na Fnac, tinham-no posto na secção da Arte, muito provavelmente por causa do nome. A capa não era particularmente apelativa, com as suas grandes letras de bloco com um ligeiro bisel a sugerir 3D, encabeçando uma imagem onde modelos simulavam com ironia forçada uma cena pseudo-Maoista. Os destaques eram entusiasmados mas indecisos: “Fotógrafo alemão com paixão por Portugal”; “Redesenhar a história”; “…como se não houvesse amanhã”. Tudo aquilo, mais a tipografia pouco inspirada dos títulos, ter-me-ia levado a confundi-la com uma publicação sobre artes, se não tivesse lido o nome de Dino dos Santos. Aí, a capa começou a fazer sentido: letras com uns toques 3D, a fotografia publicitária irónica, os títulos arrebatados – tinha na mão uma revista portuguesa sobre design, ilustração, publicidade e art direction (DirectArts, pois).

No interior, a sensação confirmou-se: desde perfis de designers e ilustradores até artigos com listas mais ou menos bem humoradas do que fazer ou não fazer este ano, passando pelas inevitáveis dicas de Photoshop, culminando num ou noutro artigo descontraído sobre história do design em Portugal ou sobre direitos de autor. O figurino não era novo, apenas uma versão actualizada da Page ou da Alice que, apesar de me irritar bastante, ainda foi a melhor aplicação do modelo: algo dirigido de um modo frouxo ao criativo, designer, copywriter, director de arte, sem conseguir satisfazer qualquer um deles.

Há uns textos atrás, comparei as revistas sobre design portuguesas a quiosques, e a DirectArts é sem dúvida um daqueles quiosques onde se vende de tudo, desde o Diário de Notícias até isqueiros, passando pelo Euromilhões. Parece-se com todas as revistas sobre design, marketing, publicidade com dicas de Photoshop que já foram feitas em Portugal, sem se conseguir distinguir de nenhuma delas.

Calculo que tenha sido feita com amor e carinho – só assim se faz uma revista, qualquer tipo de revista, em Portugal –, mas isso não chega.  Comprei os três primeiros números e vou folheando religiosamente os seguintes, esperando que melhore.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Publicações, Publicidade

3 Responses

  1. Ofereceram-me essa revista no Portofolio Night há mais de um ano, não desgostei mas também não senti vontade de a comprar depois…

  2. Telma diz:

    Conheço a revista porque um aluno me trouxe o primeiro numero e achei-a interessante. Inclusive na altura escrevi-lhes comentando que uma revista de design de comunicação merecia uma capa muito melhor.

    Tenho folheado as ultimas e noto o que diz, artigos de Photoshop e portfolios. Talvez…pouco planeamento inicial, em relação ao que queriam realmente abordar.

  3. […] em jornais, revistas e blogues. Uma boa revista de design – tal como um bom restaurante ou um bom quiosque – faz escolhas, que lhe limitam o alcance mas que lhe aprofundam o interesse. Agradará a uns, […]

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