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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Clichés, Cinismo (Perdão, civismo)

Se o design inglês fosse a capa de um livro, a capa de um disco ou um mapa de metro, o design suíço seria um poster e um catálogo; se o design americano fosse uma revista ou um logótipo, o design português seria um selo ou um rótulo de vinho colado a qualquer coisa de cortiça.

A excelência não assenta em excepções, mas na escolha dos melhores lugares comuns, dos clichés pelos quais gostaríamos que nos conhecessem. Claro que quem diz clichés diz imagem de marca, e já era altura de alguém arranjar uma identidade melhor para o design português, que não estivesse pendurada dos temas do costume: turismo, vinhos, cortiça, etc.

Mesmo que se continue a projectar esta imagem para fora, porque não se resolve investir cá dentro em bons livros, boas exposições, boa arquitectura, tornando-os em temas de eleição para o design? Infelizmente, cada uma destas áreas tem os seu maus hábitos de design, os seus clichés, na maioria das vezes desastrosos. São também áreas com os seus interesses instalados onde não é comum aparecer sangue novo – ou pelo menos interessante.

Mas há outros temas disponíveis: fala-se muito de design ético ou social, por exemplo, mas seria talvez boa ideia (num país como o nosso) virar as nossas energias para o civismo que é aqui – tristemente – um mero sinónimo de não atirar papéis para o chão, o mesmo que educação, no sentido de polidez ou de cavalheirismo. No fundo, formas de impressionar os outros, de lhes mostrar quem somos. Essencialmente, o civismo é aqui uma questão de forma: de parecer, mais do que ser.

Li em qualquer lado que o termo “Cívico” vem da Corona Cívica, uma grinalda oferecida pelos antigos Romanos a quem salvasse a vida de um concidadão. Salvando o outro, pondo a sua segurança acima da sua, salvava-se também a cidade. A mesma palavra pode ser usada para fins muitos distintos, portanto.

O jornalista Michael Lewis, da revista Vanity Fair, foi à Grécia tentar perceber as causas da sua crise económica. Uma das coisas que o chocou foi a total falta de vida cívica:

The Greek state was not just corrupt but also corrupting. Once you saw how it worked you could understand a phenomenon which otherwise made no sense at all: the difficulty Greek people have saying a kind word about one another. Individual Greeks are delightful: funny, warm, smart, and good company. I left two dozen interviews saying to myself, ‘What great people!’ They do not share the sentiment about one another: the hardest thing to do in Greece is to get one Greek to compliment another behind his back. No success of any kind is regarded without suspicion. Everyone is pretty sure everyone is cheating on his taxes, or bribing politicians, or taking bribes, or lying about the value of his real estate. And this total absence of faith in one another is self-reinforcing. The epidemic of lying and cheating and stealing makes any sort of civic life impossible; the collapse of civic life only encourages more lying, cheating, and stealing. Lacking faith in one another, they fall back on themselves and their families.

The structure of the Greek economy is collectivist, but the country, in spirit, is the opposite of a collective. Its real structure is every man for himself. Into this system investors had poured hundreds of billions of dollars. And the credit boom had pushed the country over the edge, into total moral collapse.

O que diria ele de Portugal?

Antes de pensar em indústrias, cortiças, negócios – no que quer que seja – é preciso conseguir criar aqui um sentido de civismo. Essa responsabilidade é pessoal, de cada um, mas deve haver coisas que se podem fazer para a sustentar e melhorar. As escolas poderiam ter um papel, mas qual? São um sítio desmotivado e derrotado. As universidades, idem. Mesmo que cumprissem o seu papel, limitar-se-iam a atirar alunos para um mercado de trabalho que contraria todas as noções de vida cívica que possam ter aprendido. Se não for o ensino a corrompê-los, será o “mundo real”. Resta-lhes, no fim, a escolha de se tornarem agressores ou agredidos, vítimas ou malfeitores. Ao fim de algum tempo, se mantêm alguma réstia de civismo, também ele já é uma versão militarizada e agressiva, uma arma de arremesso para lançar à cara dos outros. Não se fala no cinema porque os outros falam; não se atira papéis para o chão porque os outros atiram; pagam-se impostos porque mais ninguém paga – já não se trata de civismo, apenas de misantropia.

Como evitar isto tudo? E será que o design pode fazer alguma diferença?

Filed under: Design

5 Responses

  1. Mário,

    Grande artigo para engrenar os neurónios!

  2. Falando em design inglês,parece-me um pouco pior do que o portuguès. ou melhor, o design que encontro aqui por estas bandas é mesmo mau. Estou no momento a fazer férias numa casa aqui em Chester e o que tenho reparado é que o design feito para as massas é do pior que vi. Ainda hoje quase que confundi um cartaz informativo de um parque de estacionamento com um cartaz publicitário. Letras em caixa baixa e a branco sobre um verde super claro. Não se destacavam as letras, nem o cartaz conseguia chamar a atenção necessária. Depois o interior dos shopings entra em consonância com essa sinalética. E depois as montras dos cafés, servejarias, salões de chá, são todas similares: aquele estílo de antigo inglês decorado com ornamentos que nos fazem lembrar uma monarquia milenar.

    Comecei a pensar que Portugal até investe bastante em design, embora muito possa parecer o contrário.

    Quanto à cortiça e ao vinho, é o que mais exportamos actualmente. O vinho do Porto (Oporto Wine, como se chama aqui para estes lados) é uma das razões que mantêm o nosso país mais ou menos conhecido cá fora. Daí que tenha de haver um forte investimento publicitário nessa matéria. Mas estou de acordo que deviamos produzir mais do que vinho, azeite, cortiça. Porque não investir em electrónica, por exemplo? O fraco investimento português leva à fraca exportação, fazendo com que o design se mantenha na monotonia de um ou dois géneros de expressão gráfica. Para o design português melhorar, há que haver mais produção e mais exportação.

  3. Maria diz:

    Paramos de pensar e produzir, a troco de notas de euro.
    Já quase nos esquecemos de “como se faz”.
    Das poucas exportações que há, muitas já não são nossas.

    Ai se nos fecham a torneira de vez..

    • Tens razão… Infelizmente. Um exemplo disso é que muitas das marcas de vinho produzido em Portugal são pertença de empresas estrangeiras, maioritariamente francesas e inglesas. A Ramos Pinto, cuja sede se encontra instalada no cais de Gaia pertence ao grupo francês Champagne, uma das maiores empresas de vinho em todo o mundo.

      Isso só quer dizer uma coisa. Portugal tem muita riqueza só é pena que não se saiba aproveitá-la e que acabemos sempre por entregar o que temos de melhor aos outros.

  4. Situr Anamur diz:

    Em vez de perguntarmos “porque não se faz X?” deviamos arregaçar as mangas e descobrir a forma de fazer X. Falta espírito de empreendedorismo e isso nota-se na própria educação que faz a lavagem cerebral para as pessoas serem uma pessa na engrenagem fabril em vez de pessoas que fazem a diferença e que acreditam nas próprias ideias. Aí, o mundo anglo-saxónico dá-nos uma grande tareia!

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