The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Pepsi Challenge da história

Há uns anos, numa feira de farrapeiros no Mercado Ferreira Borges, comprei um pequeno monte de livros estrangeiros por qualquer coisa como oito euros, talvez menos. Um policial da Penguin, da fase Tschichold, um livro de John Cheever com uma capa recortada a imitar as grades – entretanto rasgadas – de uma prisão, Octopussy de Ian Fleming com uma daquelas capas fotográficas muito em voga nos anos setenta onde, através de um arranjo casual de chouriços, mapas, pratos e armas –como a natureza morta que acompanha uma receita de cozinha –, se dava a entender uma ideia de violência profissional, quotidiana, talvez até burguesa.

Eram livros bonitos, mas aquele que me deixou mais entusiasmado foi um pequeno guia de Inglaterra editado pela Vista Books. A capa era bem feita mas discreta. O interior era surpreendente: um conjunto de ensaios descontraídos sobre a vida inglesa, ilustrados dinamicamente por fotografias, ilustrações, gravuras, que podiam reduzir-se a pequenas notas decorativas ou ocupar uma dupla página, tudo impresso a duas cores, verde e preto, sobrepondo-se ocasionalmente em duotones, em simples destaques ou em transparências sobre o texto. As páginas de abertura, a começar desde o verso da capa, eram um autêntico ensaio gráfico, que se prolongava pelo livro adentro.

Dos livros que comprei nesse dia, foi o único ao qual voltei repetidas vezes, tirando-o da estante para o folhear, desejando tempo para o poder apreciar como deve ser.

Há cerca de um mês, comprei num alfarrabista mais um anuário Penrose, uma publicação inglesa destinada a impressores. São calhamaços sumptuosos, impressos com todo o género de técnicas e papéis, incluindo amostras reais de primeiras páginas de jornais, de cadernos de livros, de gravuras, etc. Cada caderno era impresso por gráficas espalhadas pela Inglaterra e encadernado centralmente. Este, o de 1964, foi editado por Herbert Spencer.

Comprei-o por causa de um artigo de Germano Facetti, designer da Penguin, defendendo o “livro integrado”, uma expressão entretanto caída em desuso, e que designava simplesmente livros onde as imagens e o texto se relacionavam directamente, não estando separados em secções distintas. Hoje em dia este género de livros são comuns, mas o artigo de Facetti dava a entender que houve épocas não muito distantes em que foram objectos exóticos que precisavam de ser defendidos. Um dos exemplos que dava era a colecção Petite Plànete, uma série de guias sobre diferentes países concebida editorialmente e graficamente por Chris Marker[1], um cineasta experimental francês que, segundo Facetti, tinha opiniões muito definidas sobre o que deveria ser um livro:

“Fully accepting the importance of film and photography in our age, each volume of Plànete was thought out, written, and designed as a documentary film, as an essay on the physical reality of a country seen through the eyes of those with more than average vision.”

A descrição lembrou-me o livrinho da Vista Books, que eu sabia ser a tradução inglesa de um original francês. Uma ida à estante confirmou-o: tratava-se de um dos guias da colecção de Marker, produzido pouco depois da sua saída da direcção.

Deu-me alguma satisfação confirmar que aquele livro encontrado por acaso e escolhido pelo seu design interior apelativo não era algo esquecido pela história. Era um livro importante concebido por uma pessoa de nota, que mesmo perdido num farrapeiro ainda conseguia, anonimamente, entusiasmar. Se há alguma prova do modo como alguns designers conseguem deixar a sua marca, esta é uma delas.

Não simpatizo muito com uma história do design baseada em grandes nomes, onde estes aparecem por vezes como única justificação da importância de um trabalho. Já me queixei em outras ocasiões de designers que vão sendo comentados aqui e ali mais pelos cargos que ocupam do que pelo seu design, que é na melhor das hipóteses mediano. Numa área como o design português, onde há muito pouca crítica pública, cai-se muitas vezes na falácia de confundir o sucesso económico ou institucional com qualidade gráfica – o melhor design é muitas vezes determinado pelo seu preço ou pelos pergaminhos do seu autor (se dá aulas, se dirige uma instituição, se os seus clientes são conhecidos). A melhor maneira de o pôr finalmente à prova seria sem dúvida o Pepsi Challenge da história, que Chris Marker passou com nota máxima.


[1] Facetti entrava como actor naquele que é provavelmente o mais conhecido filme de Marker, La Jetée, um filme de ficção científica montado inteiramente a partir de imagens estáticas.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, História, Publicações, , ,

5 Responses

  1. […] tinha falado aqui da colecção de guias turísticos Petit Planète, que Chris Marker criou nos anos cinquenta com a […]

  2. […] um bom exemplo de livro integrado, tal como foi definido por Moholy-Nagy ou Germano Facetti, com ensaios puramente visuais e textos acompanhados por sequências visuais extensas, aproveitando […]

  3. […] da edição suíça aparece esta insígnia: O design destes livros é um excelente exemplo do «livro integrado» em voga na época, onde texto e imagens funcionavam em contraponto num objecto que podia ser lido […]

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