The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Mera formalidade

Li, numa coluna de opinião do New York Times, escrita por Roger Cohen, que a Democracia está a perder o seu lustro. Por um lado, as guerras travadas no Médio Oriente em nome da democracia foram-na tornando num pretexto – senão mesmo num sinónimo – para as demonstrações de força do ocidente. Por outro, o crescimento económico da China foi abalando a velha ideia liberal que a liberdade politica ajuda ao negócio. A própria economia foi-se tornando numa maneira de determinar decisões políticas, sem que se veja sequer a utilidade de as pôr a voto. Os governos foram-se tornando em intermediários entre os dinheiros públicos e as entidades privadas que os administram.

De resto, tornou-se comum os governos separarem aquilo que dizem aos seus eleitores daquilo que fazem depois de eleitos. Já nem se trata das velha ideia das “promessas por cumprir”, mas de algo que já nem sequer é visto como mentir: uma estratégia óbvia que só um idiota não segue. Em outra coluna do New York Times, Paul Krugman explica a razão pela qual os Republicanos assentam a sua plataforma eleitoral em estratégias económicas absurdas:

The answer isn’t a secret. The late Irving Kristol, one of the intellectual godfathers of modern conservatism, once wrote frankly about why he threw his support behind tax cuts that would worsen the budget deficit: his task, as he saw it, was to create a Republican majority, “so political effectiveness was the priority, not the accounting deficiencies of government.” In short, say whatever it takes to gain power. That’s a philosophy that now, more than ever, holds sway in the movement Kristol helped shape.

Resumindo, o acto eleitoral foi-se tornando apenas numa formalidade, num ritual a cumprir de modo a alcançar o poder. Depois, pode-se fazer o que se entender.

O problema é que esta diferença estudada entre o discurso eleitoral e o discurso de governo vai erodindo a credibilidade do próprio processo democrático perante os eleitores que o vão abandonando tacitamente.

Se isto fosse uma coisa que só dissesse respeito à política profissional, nem seria muito grave. Mas a política também serve de exemplo ao modo como as decisões são tomadas no dia-a-dia. Assim a democracia vai-se esvaindo das coisas mais simples. Todas as vezes que tenho participado em actos eleitorais de todos os tipos, tenho assistido a isso: a aprovação de uma resolução específica é usada para aprovar assuntos com os quais não tem nada a ver e que a contradizem; a eleição de uma comissão para estudar um problema é usada para aprovar automaticamente as soluções propostas por essa comissão; os prazos para tomar uma decisão são encurtados de modo a forçar uma votação; decisões aprovadas por maioria são ignoradas ou aplicada selectivamente; e por aí adiante.

Idealmente, a democracia era uma maneira de um grupo tomar decisões, assumindo colectivamente a sua responsabilidade. Neste momento, só a segunda parte se vai mantendo: a responsabilidade continua a ser do grupo, mas as decisões já são tomadas apenas por alguns em situações onde o boletim de voto ou a simples mão no ar já parecem tão antiquadas como um chapéu com três bicos.

Tal como Cohen argumenta no seu texto, as fronteiras entre democracia e autoritarismo foram-se tornando cada vez mais opacas. Se a democracia não fizer sentido no dia-a-dia, não fará certamente sentido como um sistema de governo – afinal, a grande força e a grande fraqueza da democracia é que nos dá os governantes que merecemos.

Filed under: Política

4 Responses

  1. A fraqueza e a força da democracia é mesmo isso. Chegamos a um ponto tal que a democracia ora nos permite a liberdade, ora nos permite impedir a liberdade de o governo poder fazer o que entende para que saiamos de uma crise como esta. Depois só resta fazer o impensável. Aumentar impostos, juros, IVA. Será esse o nosso novo orçamento.

    Em tempos jogava um jogo que era o SimCity, não sei se conheces. Eu quando via que estava a perder dinheiro consultava os meus consultores e conselheiros para saber o que se estava a passar. Eu via na cidade o desemprego a aumentar, a falência das melhores empresas a aumentar, aumento de pobreza… A minha reacção era simples e imediata: eu baixava as verbas todas dos bombeiros, do policiamento, dos hospitais, das escolas, das estradas… e o resultado era o esperado: aumento da receita. Mas também, sistemas de saúde, escolares e de policiamento em decadência e estradas a deteriorarem-se. Resultado: aumento de protestos e revoltas por parte dos vários departamentos e em principal por parte da população.

    Aos poucos, a população ia abandonando a cidade, até que eu deixava de ter receita suficiente que sustentasse a cidade toda.

    Solução: Mas a crise chega, o que eu faço agora é simples: Corto todas as taxações. A população deixa de pagar um único centavo ao estado e eu peço empréstimo à banca para manter os gastos da cidade. O número populacional aumenta num tal “boom” que mais tarde volto a aplicar as taxas normais e passo a ganhar 5 vezes mais do que antes da crise.

    Um caso a pensar.

  2. Nuno Jacinto diz:

    “… a grande força e a grande fraqueza da democracia é que nos dá os governantes que merecemos” Esta é de facto a frase chave.

    Há pouco tempo, em relação à “crise Carlos Queiroz”, ouvi várias vezes as expressões “sentido de missão” e “dever patriótico”.
    Futebol… E onde está o sentido de missão na politica?

    O Obama tentou. Ainda não tinha sido eleito já o acusavam de ser socialista como se fosse o anti-cristo (vendo bem as coisas…)

    Enquanto os políticos (oposições e governos)se deixarem governar pelos seus egos sem se sentirem responsáveis pelo futuro (como é prova o triste espectáculo da nossa AR)… nada mudará.

  3. Situr Anamur diz:

    O homem é um ser político, e a política é demasiado importante para ser deixada aos políticos. Não nos podemos demitir das nossas responsabilidades e do nosso papel activo na sociedade. Se a democracia faz um fade out a culpa é do nosso comodismo com tiques voyeuristas, do nosso sebastianismo sado-masoquista, de darmos mais importância aos golos e aos penáltis do que a ser cidadãos. Certamente é fácil ser fã de um clube, chamar nomes ao árbitro, ficar feliz pelos milhões que os Ronaldos ganham do que pensar em como contribuír para uma sociedade melhor.

  4. Lígia Paz diz:

    Há diversas perspectivas da democracia que não foram aqui (nem no Cohen) abordadas. Por exemplo, para uma mulher ocidental, a Democracia nunca esteve tão bem. Notamos mudanças significativas recentes, ainda que muito falte para se chegar a uma igualdade efectiva (salarial, por exemplo). Estas conquistas democráticas não foram resultado imediato das lutas dos anos 60 (basta pensar que nos anos 80 uma mulher francesa não podia ainda entrar no Parlamento vestindo calças), mas de processos longos e esgotantes.

    Assim como no caso das mulheres, creio que talvez os homossexuais também não se queixem de uma quebra na democracia. Aliás, para os que nunca puderam dar sangue em Portugal porque assim foram proibidos (e ainda o são por alguns médicos, ao que consta), a democracia é uma coisa que, na sua plenitude, ainda está para vir. Um work in progress!

    Creio que não será errado considerar que este tipo de conquistas e de lutas que decorrem na sociedade ocidental abertamente são um exemplo democrático para muitos países, onde simplesmente é proibido defender tais “direitos”.

    Penso também que o problema principal não é do sistema político em si, mas justamente dessa mistura entre o político e o económico. Não vivemos em democracia; vivemos no capitalismo: este último é que determina o tipo de esquema/sistema/representação política. Como tal, aspectos como o consumismo desenfreado interferem directamente no comportamento dos cidadãos (feitos consumidores); e os poderosos tentáculos de um sistema económico assente numa rede de multinacionais restringem fortemente o âmbito de acção dos governos (nacionais e locais). Assim, discordo absolutamente do Cohen, quando diz que na Rússia não há uma ideologia; claro que há. Chama-se capitalismo. O problema dele, e talvez de tantos outros dessa maldita “Terceira Via”, é que ficaram presos nessa ideia neo-liberal e parecem ter-se esquecido por completo que há, na realidade, outras possibilidades para além dessa. O Krugman, pelo menos, advoga uma (Keynes); e mais à esquerda, também há propostas de alternativas. Ou seja, à esquerda existe, em maior ou menor grau, propostas de inverter o esquema de mercado-sociedade para sociedade-mercado. Só não vê quem não lê.

    Para os saudosistas de um “período áureo” da democracia, gostaria que me dissessem exactamente quando é que este decorreu. Nos anos 50 do MacCarthy? Nos anos 80 do Reagan e da Thatcher? Ou na era Clinton, com a machadada final em diversos controlos estatais dos mercados? Talvez os governos tenham andado mais “democráticos” quando as populações andavam mais em cima deles… e quando os ciclos económicos eram propícios a essas liberdades.

    Parece-me que o Cohen, como aliás muitos outros autores, para além de se esquecer desta perpectiva das “minorias” (género, etnia, etc), também está a confundir os problemas próprios do “fim do Império” (EUA e Europa) com os da “Democracia” em si. Creio que se perguntarem a um brasileiro, por exemplo, dirão que a Democracia nunca esteve tão bem. Talvez mesmo em países como a Rússia e a China digam o mesmo – mal ou bem, o desenvolvimento da classe média nesses países é sem dúvida sintoma de distribuição de riqueza. São factos estudados: crescimento elevado do PIB, conjugado com algum tipo de capitalismo controlado pelo Estado, propicia na sua fase inicial uma distribuição de riqueza. Podemos considerar a distribuição de riqueza e a classe média como sintomas de uma democracia? Bem…. dentro do esquema do capitalismo, talvez!

    Não posso deixar de relembrar que na Grécia, berço dessa tal “democracia”, o direito de voto era exclusivo aos homens livres: a população de escravos e as mulheres eram vistos como sub-humanos e estavam-lhes negados diversos direitos (entre os quais, o de votar). E chamava-se democracia na mesma…..

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