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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Velharias, Crítica e História

Em épocas de crise, o passado vem ao de cima. Vendem-se as coisas velhas que se tem lá por casa na esperança de que venha daí algum dinheiro. Nos alfarrabistas, é cada vez mais fácil encontrar coisas impossíveis.

Felizmente, o mercado das antiguidades do design português ainda não está tão codificado como o das primeiras edições de autores clássicos ou das revistas literárias modernistas. Um exemplar da Contemporânea é mais cobiçado pela sua ligação a Almada ou a Pessoa do que pelo design de José Pacheko. Ainda assim, é relativamente fácil encontrar os números menos raros – comprei um online – e, para quem tenha dinheiro, pode-se encontrar de vez em quando uma colecção mais ou menos completa. Um alfarrabista de Lisboa deixou-me espreitar uma colecção completa, vendida para o Brasil, dentro de uma caixa de cartão estampada com padrões, mandada fazer expressamente pelo cliente. Para venda, tinha um grosso e grande volume da Presença, com o logótipo bordado volumosamente em linha azul escura sobre o tecido branco da encadernação. Dentro, grandes caracteres impressos irregularmente sobre papel grosseiro como o de uma mercearia. Será que é mesmo preciso pagar a prestação da casa?

Na feira de alfarrabistas ao lado da Bertrand, encontram-se quase sempre objectos interessantes. Na última, tudo o que comprei tinha design de Sebastião Rodrigues: dois almanaques, um livro da Editorial Minerva, As Embaixadas, e uma colecção dos textos de intervenção modernista de António Ferro, que acaba por dar uma imagem delirante e vagamente geriátrica deste movimento em Portugal ao incluir uma parte inteira dedicada a recensões de estâncias termais. Mais tarde, em outro alfarrabista, encontrei a minha capa favorita de António Garcia, Clea de Lawrence Durrell, numa edição que, esquecendo o amarelo manchado do papel, estava nova, ainda por abrir.

Vendo isto tudo, vou-me apercebendo que me interessa mais o passado que o presente. Não tenho visto grandes objectos recentes, nada que me tenha fascinado. Também aqui a crise se faz sentir. Os clientes ficam cautelosos. Sem vontade de arriscar. Também aqui o passado regressa: os designers fazem e refazem os seus portfolios à espera de melhores dias. Não são tempos fáceis para a crítica, qualquer espécie de crítica, e vai-se tornando comum mandar calar a bem ou a mal quem não concorda, não encaixa ou simplesmente se queixa. Também aqui a história se vai tornando um território mais seguro que a crítica.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, História

3 Responses

  1. Isso é que foi um tiro de sorte!

    Nunca apanhei Sebastião em lado nenhum para grande pena minha e vou muitas vezes a essa feira =X

  2. Sebastião Rodrigues (tal como João Abel Manta e outros) e a referida Almanaque marcam presença assídua ultimamente na dita feira de alfarrabistas ao fim-de-semana. A preços irrisórios (entre os 4€ e os 5€), o que claramente deixa a sensação de que quem está a vender não sabe o que está a vender… talvez um simples sintoma da inexistência de uma Crítica e História do Design Português.

  3. A Letra Livre ao Calhariz tem bastantes Almanaques, comprei lá um cuja capa foi reproduzida na monografia da Gulbenkian (essa sim, difícil já de encontrar). E há um alfarrabista de BD ali acima da Rua de Ceuta no Porto que tem sempre uns hardbacks com sobrecapas do SR.
    Sim, de acordo: o passado é cada vez mais fascinante. Pegando naquela famosa imagem do McLuhan no “Massage”, é como se o retrovisor fosse ficando cada vez maior e permitindo uma visão cada vez mais nítida, e o pára-brisas fosse diminuindo e ficando cada vez mais baço.

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