The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Typographica, Paulo Ferreira e a Ordem

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Tenho andado a trabalhar na tese, que já está quase paginada e em fase de revisões. Não tenho tido muito tempo e tornou-se comum andar pela rua com um maço de impressões na mão a ler e a corrigir. Apesar de tudo, algumas notas mais ou menos rápidas, às quais espero poder voltar com mais vagar.

Comprei duas revistas Typographica de Herbert Spencer, que me desiludiram um pouco, uma da segunda série e outra da primeira – esta entusiasmou-me um pouco mais, com um formato maior e com mais variedade gráfica. Estava à espera de mais experiências com papéis e impressões exóticas, mais cor directa, como me habituei a ver nos Penrose Annual editados por Spencer, bastante mais baratos, volumosos e sumarentos. Provavelmente, não são tão valorizados como as Typographica por serem um formato que Spencer apenas herdou, ou porque são menos raros – não faço ideia. No entanto, ele passou uma década a editar estes volumes e vale a pena dar-lhes uma olhadela.

Para quem quiser um cheirinho da Typographica, outra opção relativamente barata, embora ainda mais contida em termos de cores e materiais, pode ser a antologia The Liberated Page [1], que Spencer publicou em 1987. Mais uma vez, acabo por preferir este livro à própria revista.

Cada vez gosto mais do trabalho de Spencer e da maneira como baralhava as hierarquias habituais de uma publicação. Em The Liberated Page, por exemplo, texto e imagens tipográficas confundiam-se sobre as páginas, sendo preciso um primeiro momento de atenção para distinguir entre uma composição dadaísta e o artigo que as acompanha. É  uma estratégia arriscada, muito criticada na época, que elimina a distância simbólica entre o escritor e o seu assunto, representada no livro clássico através de uma separação bem visível entre texto e imagem (através de margens brancas, imagens com um contorno marcado ou com sombreado). Porém, esta ideia de uma história viva, com a qual se podia brincar à vontade também estimulava a apropriação: toda uma geração do design inglês encontrou a sua identidade pilhando alegremente a história tornada acessível pelos livros de Spencer.

Também arranjei finalmente a Vida e Arte do Povo Português com design e ilustrações de Paulo Ferreira e fotografias de Mário Novais, que já conhecia de nome e de ter folheado o exemplar que José Bártolo apresentou no ciclo de conferências Impossuível, realizado no espaço Navio Vazio, da Braço de Ferro. É um dos livros mais sumptuosos editado pelo S.P.N. de António Ferro, que escreveu a introdução: capa em relevo a imitar renda, texto composto em motivos elegantes, mais ou menos geométricos, terminando em cul-de-lampe, etc. Infelizmente, não tenho possibilidade de o fotografar decentemente, mas fica aqui um apontamento tirado com a webcam.

Nos assuntos correntes, a ideia de fazer uma Ordem do Design volta a dar sinal de vida. A AND e a APD uniram os seus esforços para criá-la até 2012. Já escrevi uma vez ou duas sobre o assunto no passado e continuo a ser um dos designers que, de acordo com a notícia do Público, acreditam que é prematuro. Por um lado, ainda tenho dificuldade a perceber como uma Ordem vai proteger os interesses do público (a sua finalidade legal), sobretudo quando a maioria dos designers acredita que vai servir para proteger os seus interesses profissionais. Não acredito que o design (ou a arquitectura, que já tem a sua ordem) sejam actividades que precisem do mesmo género de regulação que a saúde, a economia, a lei ou a engenharia. Pode-se cair facilmente no absurdo de fixar legalmente uma questão de gosto ou pelo menos de uma classe profissional ser a única a ditar esse gosto. Ainda assim, se a Arquitectura conseguiu a sua Ordem foi porque conseguiu reclamar a posse de um discurso público sobre um conjunto de objectos e situações que ultrapassa o que os arquitectos formados fazem – a arquitectura popular e vernacular, por exemplo – através de inquéritos, levantamentos e estudos teóricos. No caso do design, este trabalho está cada vez mais longe de ser feito e a teorização apressada e inconsequente que Bolonha promove vai impedir que se produzam a nível académico estudos de fundo que o sustentem. Se os novos doutoramentos se reduzem cada vez mais aos antigos mestrados, e os novos mestrados a meros papers, quem quiser investigar mais do que isso tem que o fazer com o seu próprio dinheiro, nos tempos livres e nas férias. Ou seja, ao procurar limitar o exercício do design aos profissionais formados nas escolas, uma possível Ordem está a basear a sua autoridade numa academia cada vez esvaziada, fragmentada e sem rumo.

(Lá se foram as notas mais ou menos rápidas).


[1] Escolhi este link pela imagem. É possível encontrar exemplares bastante mais baratos à venda na Amazon.

 

Filed under: Crítica, Cultura, Design

19 Responses

  1. rui diz:

    Boas! Pessoalmente sou a favor da criação de uma ordem do design. Penso que o “Gosto” não será uma questão de interesse para uma ordem. É só vermos a Ordem dos Arquitectos. Continuam a proliferar gostos, modas e conceitos vários. O grande objectivo de uma ordem é a protecção dos profissionais e dos seus trabalhos através da aplicação de leis. Essas leis irão proteger os trabalhos realizados pelos Designers, ao imporem certas condições no seu processo de execução e ao imporem limites ou fronteiras entre o Design e as outras áreas profissionais com as quais o design lida diariamente e com as quais muitas vezes nos confundimos.
    Vou dar um exemplo. Há cerca de um ano surgiu uma lei imposta pela Ordem dos Arquitectos que diz que qualquer trabalho a ser aplicado num local público exterior terá de passar pelas mãos de arquitectos que, através da Câmara Municipal do respectivo concelho, irão ou não aprovar esse mesmo trabalho. A lei é tão vaga e tão pouco fundamentada que isso passa a obrigar a que uma instalação de design ou mesmo um simples cartaz terão de ser aprovados por um arquitecto para poderem ser colocados nas ruas. Essa lei intrigou tanto designers de equipamento como designers gráficos e obrigou a que as Associações de design de Portugal tivessem de intervir, de forma a defender os direitos dos designers portugueses, o valor e a importância das suas funções na sociedade. Afinal, o que terá um arquitecto assim de tão especial que se imponha às práticas normais do design? Que formação será a arquitectura que é considerada “superior” à de um designer gráfico nesta sociedade? São questões que nos outros países da Europa nunca foram levantadas dado que as Ordens do Design já existem há bastante tempo. Mas em Portugal as dúvidas ainda persistem. E a intervenção das Associações não serviu de nada, dado que na lei as Associações nada podem fazer contra uma Ordem. E o Designer desde então é considerado um zero à esquerda do arquitecto e, sem formação adequada, o arquitecto continua a ser o “boss” do designer.
    São coisas que não fazem qualquer sentido e que seriam evitadas caso existisse uma Ordem do Design.

    • Na verdade, o grande objectivo de uma Ordem, tal como vem inscrito na lei, é a protecção do interesse público e não a protecção de uma profissão. Pelo espírito da lei, a protecção profissional é um efeito secundário da protecção do interesse público: argumenta-se que a melhor maneira de defender esse interesse é defender uma profissão em particular (médicos, engenheiros, economistas). Naturalmente, nem sempre é assim e as ordens resvalam rapidamente para o mero corporativismo. Ou seja, defendem os profissionais contra o interesse do público e não o contrário.

      Uma maneira bastante simples de demonstrar mais uma vez que os arquitectos fizeram o seu trabalho de casa e pelo menos conhecem a legislação é o nome que deram ao seu manifesto/abaixo-assinado: “O direito à arquitectura”, no qual argumentavam que o público tem um direito à arquitectura e que os arquitectos seriam os melhores profissionais para administrar esse direito.

      Mas tal como sugeri no texto, o facto dos arquitectos argumentarem melhor a sua posição não significa que tenham razão. A arquitectura como um direito público pode reduzir-se facilmente à imposição de um gosto inscrito na lei. O gosto (mesmo que institucionalizado e ensinado nas escolas) acaba por ser a única coisa que distingue a arquitectura da mera engenharia civil, tal como é o gosto que distingue um designer de um amador que conheça as ferramentas. Convenções culturais mais do que necessidades.

      O simples facto de se acreditar que uma Ordem serve apenas para proteger os seus membros demonstra que o design não está preparado para ter uma ordem.

      • rui diz:

        Não estou plenamente de acordo. O arquitecto não trabalha apenas com o gosto. Ele determina as áreas das divisões de um edifício segundo “leis” que permitem o bem-estar e evitam os acidentes e certas disfunções arquitectónicas que por vezes se vêem por aí fora (obras de quem não sabe ou não tem formação em arquitectura).

        Mas vou tentar mostrar porque é que uma Ordem fazia falta no Design. Ainda hoje aconteceram 2 coisas que me deixaram com um tremendo sentido de frustração. Primeiro veio um cliente à minha empresa para pedir uma maqueta de uma montra que eu desenhei. Depois de eu lha entregar, sabes o que é que ele disse? “Cá está ela! Agora vou à câmara de Gaia ver se os arquitectos de lá aprovam isto.”

        Depois eu tinha ficado de ir ter com um dono de um café, que é meu cliente, para lhe apresentar uma maqueta de uma lona que eu desenhei. Apresentei-lhe 2 propostas, como é habitual, ele escolheu uma delas e sabes o que é que ele me disse? “Agora ainda falta ir ao pavilhão de desportos para lhes entregar isto, que eles vão à câmara mostrar aos arquitectos a ver se aprovam”

        Ou seja… eu pensava que não tinha patrão nenhum… Mas ao fim e ao cabo até tenho! E é um arquitecto qualquer que está a trabalhar na câmara de Gaia!

        Pessoalmente, acho um insulto à minha profissão. Foram escolher logo um arquitecto, que nem no Photoshop sabe mexer e que nem sequer deve saber o que são a Mónaco e a Helvética (provavelmente deve pensar que são nomes de cidades)… Por isso é que deve haver uma Ordem do Design!

        Agora quanto ao facto de haver pessoas a trabalhar como designers sem a formação necessária, isso (mais uma vez) é prova do estado do país em que vivemos! Existem milhares de designers formados à procura de emprego e este encontra-se completamente esgotado por arquitectos frustrados, pintores, professores e escultores sem formação em design que não conseguem colocação na sua área legítima… Este país está-se a tornar uma confusão! Está tudo virado de cabeça para baixo!

      • As aspas à volta das “leis” bastante significativas. Efectivamente, questões como o bem-estar ou a prevenção de acidentes de acidentes são códigos culturais e portanto mais questões de gosto do que leis da física. Mesmo a questão da preparação de edifícias com dificuldades motores, isso é mais feito apesar dos arquitectos do que por eles.

        Mais uma vez, excluindo a questão de gosto, estilo, moda, história, etc. arquitectura e engenharia tornam-se equivalentes.

        Quanto ao monopólio sobre a aprovação de projectos e o exercício de um determinada actividade, é efectivamente para isso que acabam por servir as Ordens e como é evidente isso gera emprego. No entanto, esse monopólio concedido pelo Estado a um grupo de profissionais é dado com a condição de de um recurso público essencial estar a ser assegurado e protegido (saúde, economia, opinião pública, estruturas). Embora a ordem dos arquitectos seja vantajosa e prestigiante para os arquitectos, não consigo ver a arquitectura como um direito ao nível dos que já referi.

        No entanto, ao contrário da arquitectura ou dos design de produto e de equipamento, qualquer

  2. zécas diz:

    Mas confunde-se designer com operador de software? Isso anda por aí muita confusão. Como se um arquitecto fosse um mero operador de Autocad. Porque teimam em fazer dos designers o mesmo? Que pensamento redutor é esse?
    Essa liberdade de todos hoje em dia poderem mexer no software A ou B dá-lhe também o direito de se auto-intitularem designers? Só porque designer soa bem e parece tão glamoroso como a publicidade era nos anos 50 e 60? Peguei num bisturi duas vezes, será que sou cirurgião?
    O mercado é melhor servido quando:
    1º – o serviço é feito por profissionais qualificados e certificados para tal
    2º – existe verdadeira concorrência – isto implica acabar com designers a custo zero e ter olho mais atentos a muitas adjudicações directas e concursos matreiros. Ora isto, meus caros, incomoda muita gente. Falemos de muitas empresas de renome que têm estagiários sem pagar, o que lhes permite obviamente ter alguma vantagem concorrencial. Falemos de muitas empresas que têm amigos na câmara H ou no instituto Z e que lhes são adjudicados trabalhos directamente sem qualquer concurso e por quantias astronómicas e sem qualquer qualidade no resultado final. Falemos de inúmeras marcas que lançam resmas de concursos para Criativos, esse espécime maravilhoso, sem qualquer respeito pelos direitos intelectuais e muitas vezes sem qualquer tipo de prémio.

    Só por isso, só para incomodar esse status quo que nos aprisiona sempre nos mesmos nomes a ganhar trabalos, concursos, prémios, vale pena ter uma Ordem.

    • Uma ordem não vai resolver, no caso do design, nenhum dos problemas apontados:

      – o facto de uma profissão precisar de protecção não implica necessariamente uma ordem, caso contrário todas as profissões teriam uma ordem.
      – precisamente pela lei da concorrência, é impossível impedir o design exercido a custo zero.
      – existem bastantes compadrios e clientelismos nos concursos de arquitectura e a ordem dos arquitectos não os consegue resolver.

      A ordem do design se algum dia existir, vai ser uma desilusão: querem que seja uma espécie de sindicato (apesar de incluir patrões, funcionários e free-lancers); querem que seja um cartel que fixa preços mínimos para o design (apesar de isso ser ilegal); querem que elimine a insistência nas mesmas figuras para fazer os melhores trabalhos (apesar de serem em grande medida essas figuras que dão legitimidade pública ao design); querem que represente os interesses de designers gráficos, de moda, de equipamento, de produto (apesar de muitos destes últimos exercerem design gráfico como modo de sobrevivência).

      • zécas diz:

        Então o que vai resolver? Sugere alguma alternativa?

        O design é demasiado importante para ser deixado aos designers, sobretudo porque a maior parte deles se está marimbando para as realidades da sua profissão.

      • rui diz:

        Lol Zecas…
        Os designers (legítimos) são os que mais se preocupam com a área do design.

        Quanto ao ponto de vista do Mário eu eté começo a concordar com com o que ele diz, embora continue a achar que uma Ordem do Design só poderia trazer vantagens para a nossa área.

        Algumas coisas que deviam deixar de existir:
        -Trabalho gratuito(escravidão), tal como os concursos de design sem prémio.
        -As exposições de design sem qualquer possibilidade de os designers intervenientes conseguirem qualquer lucro (ao contrário de um expositor de outra área, tal como pintura e escultura por exemplo)
        – Pessoas a trabalhar como designers sem qualquer formação na área (o mínimo deveria ser mesmo a licenciatura, passando os cursos técnico-profissionais de 12ª ano para a categoria de “técnicos”)
        E muitas outras poderia referir, mas era texto que nunca mais acabava. Tudo isso serviria o público, pois qualquer trabalho que tenha melhores condições leva a melhores resultados e o público sairá sempre mais satisfeito e nunca sairá enganado. No caso de trabalhadores sem formação, por exemplo, o público, na maior parte das vezes, acaba por levar “gato por lebre” e acaba por pagar o mesmo por esse trabalho.

  3. Ligia Paz diz:

    Parece-me que para os designers defenderem os seus interesses profissionais o mais indicado seria um sindicato. Eu sei que é um conceito que está um bocado fora de moda, mas pode ser que com a crise se volte a pensar que os sindicatos podem ser construtivos e úteis, não apenas para os colectivos profissionais mas para a generalidade da sociedade.

    Li recentemente no El País que em Espanha, onde há uma Ordem de arquitectos, muitos deles não se sentem representados por essa Ordem. Destes, um grupo de jovens arquitectos de Madrid resolveram criar recentemente um sindicato para defenderem os seus direitos e interesses – identificando nomeadamente que parte dos seus problemas surgia de um problema geracional (de classe, acrescento eu): os arquitectos mais velhos, donos dos ateliers, exploram consecutivamente as fornadas de jovens licenciados com baixos salários, ausência de pagamento de horas extraordinárias, e um largo etc, agravados pela forte crise no mercado imobiliário espanhol.

    • zécas diz:

      Se os designers não se inscrevem nas associaçãos iam inscrever num sindicato porque carga de água? Aliás, se se fôr informar vai chegar à conclusão que os designers até se podem inscrever em alguns dos sindicatos existentes mas, porque não o fazem?
      É pelo comodismo certamente.

      • Há uma boa resposta num dos comentários acima: porque os sindicatos não estão na moda e pelos vistos as ordens estão.

      • rui diz:

        Porque as associações de design existentes pouco ou nada podem fazer contra as leis actuais. E, ao contrário das Associações, as Ordens podem exercer leis e até mesmo criar leis!

        Os sindicatos pouco são procurados por designers porque os sindicatos existentes ainda não reconhecem a profissão convenientemente. Só há 1 ou 2 anos é que a profissão “design” entrou nas listas de profissões do estado e dos sindicatos…

  4. zécas diz:

    Estão? Isto agora é uma coisa de estar na moda?

    Criar um sindicato apenas para designers que se integre nas duas centrais sindicais certamente já foi pensado e certamente não faz sentido a nenhuma das duas pois já o teriam criado se vissem nisso alguma mais valia para as suas lutas. Além do mais não vejo os designers como proletariado oprimido, quanto muito é um proletariado de ocasião pois facilmente podem tornar-se em capitalistas(afinal o nosso meios de produção é o cérebro e facilmente se compra o hardware necessário para tornar ideias em projectos).
    Os designers não se integram facilmente nessa luta de classes a preto e branco, o que significa não devam lutar pelos seus direitos. E também pelos direitos daqueles que servem claro está.

    O designer, como profissão liberal que é, apenas teria lógica encaixar nas associações profissionais ou nas associações de utilidade pública (câmaras ou ordens profissionais).
    Usando o caso dos arquitectos a evolução foi sindicato>associação>ordem.
    Exemplos estrangeiros são o caso do Brasil, que já por várias vezes vi falarem em criar uma ordem, e também na Inglaterra onde se falou de uma instituição a certificar oficialmente os designers, creio que a Chartered Society.

    Pelo que sei é o governo a reconhecer essa utilidade pública, sendo norma criar-se uma comissão instaladora dessa nova entidade a partir das associações que existam.

    Agora, se muitos dizem que a solução é a ordem, se muitos acham que deve continuar nas associações a responsabilidade (e lembro que estas apenas têm dever de representar os seus associados), se ainda outros vêm agora falar em sindicato, onde ficamos nós? Cada macaco no seu galho e continua tudo na mesma?

    Além do mais não vejo ninguém ter iniciativas além de promover a sua corporaçãozita. Por exemplo que tem feito a louvada EXD pelos designers portugueses se entrega tudo ao Sagmeister e por outro lado, aos mesmos 5 ou 6 nomes de sempre? E quem diz a EXD diz outras, exemplos não faltam de muita parra e pouca uva. Na realidade o umbigo e a carteira ainda valem mais do que fazer algo pela classe profissional, se é que esta existe realmente.

    • Sim, como tu próprio dizes logo a seguir (embora por outras palavras) é uma coisa de estar na moda.

      Pouquíssimos designers são realmente profissionais liberais, a maioria são (ou deveriam ser) trabalhadores contratados ou donos de empresas. O facto de alguém ter de passar recibos verdes não significa que seja um profissional liberal. Por definição, os burgueses são os donos das empresas que detêm os meios de produção, os trabalhadores são os proletários que não têm outro remédio senão trabalhar para os donos das empresas. No caso do design, os meios de produção incluem os conhecimentos, os clientes, etc.

      Os designers não se sindicalizam porque têm medo de se assumir como aquilo que realmente são: proletários modernos, com alguma esperança de passar a (ou por) capitalistas. Neste momento, ninguém gosta de se assumir como proletário (embora o barrete sirva), nem como sindicalista (embora o barrete aconchegasse a cabecinha). Porquê? Porque apesar de todas as provas em contrário o design é uma profissão liberal. Nenhum proletário que se preze vestiria calcinhas justas e sapatilhas all-star com Wayfarers coloridos.

  5. rui diz:

    Só queria acrescentar mais uma coisa.
    Aquilo que conseguimos (designers), com muita luta, e que realmente valeu a pena, foi termos o nome da profissão registado nas finanças.

    Até há poucos anos atrás, nós nem sequer eramos reconhecidos na finanças. Quem se quisesse colectar em nome individual ou colectivo teria de se colectar como “outros serviços”. Mas agora já nos podemos colectar devidamente com “design” escrito na área profissional.

    Embora esta profissão já seja ensinada e exercida há décadas, ainda não tínhamos sequer o nome da profissão registado e reconhecido pelo estado!! Uma Ordem poderá levar-nos muito mais longe. Um dia conseguiremos um melhor reconhecimento da nossa profissão, tal como acontece nos outros países.

  6. luis diz:

    Meu Deus…
    Isto é que é debate 😉
    Posso juntar lenha á conversa?
    Vocês estão a falar de se criar um Ordem mas essa noticia está errada! Se forem ao site da APD a proposta deles é criar uma Associação Profissional e não uma Ordem porque poucos dos associados têm curso superior e portanto ficariam de fora da Ordem que criassem 😉
    O Rui tem um problema com a autoridade porque aos arquitectos fazem a mesma coisa. O arquitecto da Camara pode chumbar o projecto de um colega seu com argumentos válidos ou não uma vez que o projecto pode não cumprir os requisitos camarários que são a melhor aproximação kafkiana que existe e como depende de quem esteja nesse dia num dia está bem e no dia seguinte já não está. Eu vivo com isso todos os dias na Camara de Lisboa e ainda não morri 😉
    O Mário é um “baril”. É tudo pelo gosto!
    O arquitecto é pelo gosto!
    O designer é pelo gosto!
    O Pato Donald é pelo gosto!
    A Padeira de Aljubarrota é pelo gosto!
    É uma fartura 😉
    Estou de acordo que pendurar-se numa Ordem nunca fez bem a ninguém e a prova é que a maioria dos edificios são anti-pessoas com ordem ou sem Ordem porque a formação dos arquitectos está-se nas tintas para os utilizadores… e por isso são precisos os designers que trabalham à escala humana. Mas só quando sabem o que estão a fazer porque a maior parte das vezes ou não sabem ou não têm voto na matéria!
    Outro dia estava num seminário com doutorandos onde estava a discursar um professor da Universidade de Delft e um designer perguntava em bom inglês perfeitamente articulado:
    -E que faço eu quando um cliente me pedir um trabalho que seja moralmente censurável?
    O professor olhou para o designer com uma expressão de aquiescência e sugeriu que “agisse segundo a sua consciência” ao que eu me apressei a acrescentar:
    -Se precisa do dinheiro para comer faça, senão outro fará. Senão? Faça um orçamento tão alto que o cliente se assuste. Assim não terá que dizer que não e pode ser que o cliente volte outro dia com um projecto menos compremetedor.
    Isto para dizer que a Ordem é exclusiva. Todas as pessoas que não cumpram esses requisitos são liminarmente recusadas ou postas em “alerta laranja” mas esse não é o caso das instituições nacionais porque precisam de ter um número de associados para poderem afirmar a sua representatividade e então transformam-se no que um colega meu espanhol chamava de “uma casa de frutas” onde ninguém faz o que queria mas também não se passa nada.
    Ou pensam que uma tal organização não chumbaria a grande maioria dos cursos médios e superiores que têm a palavra design lá pelo meio e que de design nada?
    Os arquitectos foram espertos, fizeram o mesmo que os médicos e os engenheiros e os advogados e os contabilistas e todos os outros das ordens. Como o Mário diz, chegaram ao governo e disseram:
    -meus amigos, temos aqui uma situação de perigo para a saúde pública. Isto é uma actividade que se não forem salvaguardadas certas condições as pessoas estão em perigo e nós somos os únicos que temos competência para as assegurar, topam?!
    O governo, qualquer que seja, o que não quer é confusões, disse logo:
    -‘bora aí!
    Conhecem algum designer que tenha feito o mesmo?
    Conhecem algum ramo do design que possa dizer o mesmo?
    gostei do blog
    abraços
    Luis

    • zécas diz:

      todos os ramos do design podem dizer um mesmo. A titulo de exemplo se os sistema para mudar de posto de rádio num carro não estiver bem pensado o condutor terá que olhar para o lado, por exemplo, para mudar de posto, e tira os olhos da estrada por segundos pondo em risco a sua vida e a de outros. Felizmente os designers não operam ninguém mas podem contribuir em muito para salvar vidas e melhor as vidas das pessoas, ou não foi esse até o pensamento do William Morris?
      São às dezenas exemplos semelhantes, embora obviamente na área do gráfico seja mais difícil usar o argumento de salvar vidas mas certamente melhora e facilita a vida a muita gente.

      Como segundo ponto, a notícia da AND+APD fala na criação de uma associação profissional pública, que corresponde em linguagem de leigo á formação de uma Ordem ou Câmara. A APD até esclarece isso num artigo do seu site.

      • luis diz:

        Obrigado pela resposta 😉
        Já estava a desesperar e a pensar que o blog do Mário Moura era pouco visitado (claro que nunca se me ocorreu que este não fosse um assunto obrigatório para tooooooooooodos os designers).
        Eu expliquei-me mal e peço desculpas.
        O que eu queria dizer é interesse público e não saúde pública e foi com cinismo.
        É claro que considero o design não só importante mas imprescindível o que não pode é ser de forma irresponsável (profissionalmente falando) ou inconsequente (corporativamente falando).
        É fundamental para a sobrevivência do Design que os designers tomem o pulso dos seus destinos e definam os seus campos de intervenção politica e científica senão outras àreas de fronteira como a arquitectura e a engenharia acabaram por absorver essas competências da mesma forma que as artes já o fizeram. E aí nickles!

        Peço desculpa mas a questão da Ordem e da Associação profissional não é uma questão de linguagem. Uma das diferenças é precisamente de uma Ordem ter que ser formada por profissionais com formação superior.
        abraços

    • “O Rui tem um problema com a autoridade porque aos arquitectos fazem a mesma coisa.”

      E quem faz aos arquitectos fazem a mesmo coisa? Um arquitecto. É o arquitecto que vai analisar o projecto da obra. Porque o arquitecto tem formação, conhecimento e competências para isso, estou de acordo!

      Mas então porque não colocar um designer na câmara com conhecimentos, formação e competências a analisar os projectos de design?

      É essa a minha questão. O facto de os projectos terem de ser analisados na Câmara até acho bem, mas que o sejam por um designer, quando se trata de design. Imagina o que é um projecto de grande outdoor ser chumbado porque o verde fica descontextualizado numa determinada zona urbanística! Isso tem cabimento? Não será o designer a decidir isso?

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