The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Dobrado a meio é igual

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Tendo terminado a parte escrita da minha tese, comecei a tratar da paginação e fui-me apercebendo de um conjunto de bloqueios – ou melhor, de preconceitos: não é fácil aceitar o formato A4, por exemplo. É demasiado óbvio, demasiado comum. Serve para fotocópias e para impressoras, mas mal chega a ser usado em publicações “a sério”. É um dos lugares comuns que os designers costumam evitar, daquelas escolhas preguiçosas que tomam apenas por defeito: como usar Times New Roman, Helvetica ou qualquer uma das fontes popularizadas pelos sistemas operativos mais vulgares, Arial, Courier, etc.

Mas o formato A4 já foi uma escolha interessante – excitante, até. Nos anos 60 e 70, era uma maneira de afirmar um espírito moderno, internacional e científico, por oposição aos formatos mais tradicionais de papel, uma ideia que já vinha pelo menos desde a Nova Tipografia (no livro com o mesmo nome, Tschichold defendia o A4, embora mais tarde tivesse mudado de ideias, tal como fez com muitas outras coisas).

Era um formato que dava a entender normalização e mecanização. Era o único que dobrado a meio mantinha a sua proporção, o que facilitava a vida nas ampliações e reduções, mas também evitava desperdícios de papel. Fazia parte do sistema métrico: uma folha A0 mede exactamente um metro quadrado (se a gramagem do papel é 80, um A0 pesa exactamente 80 gramas). Tinha sido proposto pela primeira vez como uma unidade de normalização em 1786 por Georg Lichtenberg escritor[1] e cientista alemão que, por coincidência, também descobriu o princípio que daria origem – muito tempo depois – às fotocopiadoras. Seria adoptado pelo Instituto Alemão para a Normalização (DIN) e mais tarde mundialmente através da Organização Internacional para a Estandardização (ISO). Só não é usado nos Estados Unidos e Canadá.

Tudo isto agradava aos modernistas, em especial aos Suíços e Alemães, que fizeram muito bom trabalho neste formato. Para perder o medo ao A4, dediquei-me a admirar os anuários Penrose produzidos por Herbert Spencer, onde a sua versatilidade é bastante visível. Na minha tese, acabei por usar uma variação do esquema de paginação do anuário de 1964.

Ganhei assim um novo respeito pelo A4, o que me levou também a – quase – reavaliar outros formatos que se tornaram pirosos com o tempo. Houve uma altura em que a encadernação em espiral – a opção por defeito por defeito – já foi uma escolha interessante e moderna, usada pelos melhores designers nos melhores trabalhos e posteriormente desonrada pela sua associação às casas de fotocópia e à encadernação académica chunga. Por um lado, corta a paginação a meio como uma cerca de arame farpado e emperra quando é folheada, por outro, e se for bem feita, permite segurar publicações de dimensões relativamente grandes com apenas uma mão e torna o livro num conjunto de fichas de consulta, facilmente consultáveis, tornando-o ideal para manuais de instruções. O do meu Zx Spectrum era assim. Não acho provável que a encadernação em espiral volte a estar na moda, mas tenho alguma nostalgia da época em que estava.


[1] A Estampa editou os seus Aforismos.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, História, Publicações

6 Responses

  1. ana pais diz:

    Boa tarde,

    Acho que o preconceito criado pelas pessoas perante formatos de papel é um pouco ridículo até porque o papel pouco tem para se tornar banal.
    O uso que lhe dão é que o pode tornar banal e assim, confudir um pouco quem a ele recorre.
    Acho que um bom design eleva qualquer pedacito de papel a um nível de qualidade. É o design que determina se um livro com encadernação em espiral é bom ou não. E não vamos esperar que entre em moda, porque isso das modas também nos faz deixar de usar algumas coisas. Falo por mim. 🙂

    Escrevendo spiral books encontra-se muita coisa má e algumas boas, graças ao design até nos esquecemos do tal “arame farpado” que até pode ser visto como um elemento bonito de design que foi deixado muitas vezes de lado pelos inconvenientes que trazia na encadernação: cortar imagem ao meio sendo um deles…

    http://www.behance.net/gallery/Jaeger-SS08-Lookbook/395751

    encontrei esse ao acaso. e não me parece mauzito de todo. E até adiciona um certo ar de navegação web pelos marcadores-tabs. Nada que uma boa gramagem e papel, e qualidade do design não trate.

    cumprimentos,

    ap

  2. Parece-me que quer o formato quer o tipo de encadernação são eles próprios elementos potenciantes da mensagem e “tom de voz” do trabalho.

    Se quisermos comunicar algo num tom grunge ou casual faz sentido usar espiral ou mesmo atar com cordel mas já não faz tanto sentido fazer uma encadernação por cadernos, com lombada colada com um acabamento perfeitinho…

  3. rui diz:

    Muito pouco tenho a acrescentar ao que foi aqui comentado. Realmente é o que é impresso na folha que dá qualidade a um trabalho e não o formato da folha em si. Embora o que seja impresso tenha de ser visto como um prolongamento da própria folha e tenha de se enquadrar no seu formato.

    Já vi trabalhos excelentes feitos em A4 e até em A5.

  4. Neta diz:

    Julgo só que o formato Letter se aplica a toda a América do Norte, México inclusive.

  5. […] Há uns tempos já tinha escrito: ”Ganhei assim um novo respeito pelo A4, o que me levou também a – quase – reavaliar outros formatos que se tornaram pirosos com o tempo. Houve uma altura em que a encadernação em espiral – a opção por defeito por defeito – já foi uma escolha interessante e moderna, usada pelos melhores designers nos melhores trabalhos e posteriormente desonrada pela sua associação às casas de fotocópia e à encadernação académica chunga. Por um lado, corta a paginação a meio como uma cerca de arame farpado e emperra quando é folheada, por outro, e se for bem feita, permite segurar publicações de dimensões relativamente grandes com apenas uma mão e torna o livro num conjunto de fichas de consulta, facilmente consultáveis, tornando-o ideal para manuais de instruções. O do meu Zx Spectrum era assim. Não acho provável que a encadernação em espiral volte a estar na moda, mas tenho alguma nostalgia da época em que estava.” […]

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