The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Fernando Azevedo

Andava atrás do livro, um catálogo de um ciclo de ficção científica da Cinemateca, desde o fim dos anos oitenta, quando o costumava consultar numa biblioteca pública. Passava horas a ler os artigos, fascinado pelo tom coloquial de Benard da Costa, pelas imagens a preto-e-branco onde os actores posavam, mais ou menos hirtos, com os olhos brilhantes apontados para cima, no meio de sombras dramáticas, discos voadores, arranha-céus, monstros variados. Na altura, ainda não sabia que a maioria daquelas imagens não eram sequer fotogramas mas stills,fotografias publicitárias tiradas durante a rodagem. Às vezes, nem eram cenas do filme, o que só sublinhava o tom sobrenatural daquilo tudo – pareciam imagens tiradas de um sonho do filme, de uma realidade alternativa.

O livro foi editado numa época charneira, na transição da ficção científica de um género intelectual para um género menor, mais comercial, menos respeitado. Tinha crescido com o optimismo tecnológico do pós-guerra e tinha alcançado a sua maturidade nas décadas politizadas de sessenta e sessenta, dedicando-se a visões pessimistas do futuro: sociedades totalitárias, o mundo depois da bomba, percepções alteradas e psicadélicas, etc. Mas, na década de oitenta aquilo a que se chamava a “literatura de antecipação”, um nome que dava a entender alguma impaciência, perdeu o fôlego. A Guerra Fria estava a acabar. O Capitalismo e o mercado ganhavam. Francis Fukuyama propôs o Fim da História. Era difícil imaginar um futuro melhor do que este presente.

Mas na altura em que o livro apareceu, quase a meio da década de oitenta, Dune tinha acabado de sair, Cronenberg preparava-se para filmar a mosca, o primeiro filme da Guerra das Estrelas ainda não tinha dez anos, 2001 tinha feito quinze, Blade Runner dois. Philip K. Dick tinha morrido há apenas três anos, Neuromancer tinha acabado de sair. O primeiro Apple Macintosh também. A ficção científica ainda parecia uma coisa central, e isso notava-se naquele livro, com um porte tão majestoso como o de uma edição ilustrada de Gustave Doré.

Desde então, procurei-o em alfarrabistas e acabei por o encontrar à venda numa livraria da Califórnia, graças à internet – outra coisa que apareceu entretanto. Mandei-o vir com algum receio que desiludisse – a última vez que o tinha visto ainda nem sabia o que era uma fonte, mas tenho sempre alguma fé na eficácia do design, sobretudo quando afecta quem não sabe da sua existência. Se me tinha marcado tanto, é porque não podia ser mau.

Quando o tirei da caixa vi logo que não era apenas bom – era melhor.

Estava tudo no sítio: a sobrecapa de Max Ernst, sem texto nenhum, excepto o título em letra discreta na lombada; à frente, apenas um sol amarelo sobre uma sugestão de paisagem, a dar um ambiente de mistério; o próprio volume e peso do livro; as páginas de abertura gráfica; as imagens.

Procurando na ficha técnica, encontrei um nome familiar: Fernando Azevedo, um dos seis designers  que apareciam no livro Falando no Ofício (ver também aqui), editado para comemorar o cinquentenário da Sociedade Tipográfica, em 1986, um pouco depois do catálogo da cinemateca. Este livro iria fixar Azevedo como um dos nomes do que se poderia chamar a “geração heróica” do design português, juntamente com Sebastião Rodrigues, Thomaz de Mello, Octávio Clérigo, Lima de Freitas e Vítor Palla.

De entre os trabalhos mostrados, os seus não eram os mais chamativos; competentes, mas sem o carisma dos de Rodrigues ou de Mello. Neste aspecto, Falando do Ofício tem o problema de muitas das antologias de design: favorece a imagem memorável e excêntrica, a capa de livro ou o poster, dificultando a apreciação de um bom exemplo de direcção de arte ou de paginação. Dos trabalhos de Fernando de Azevedo, o único que reconheci foi a capa de outro catálogo da cinemateca, desta vez sobre John Ford, eficaz e discreta, sem nada que a destacasse ou que sugerisse a qualidade do livro que cobria, bastante semelhante à do catálogo de ficção científica — também não me chateava nada comprá-lo, se o encontrasse por aí.

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Filed under: Crítica, Cultura, Design, História, Publicações

4 Responses

  1. Humberto diz:

    Boas,

    gostaria apenas de o felicitar pelo seu Post que, para além de dar grande prazer a ler devido à linguagem pessoal e desprovida de preconceitos que foi redigido, fez-me água na boca para mergulhar nessa obra, a qual desconheço por completo.

    Humberto

  2. Incrível, só agora descubro este seu post. Tinha já referido de passagem este catálogo (que tenho desde 1988) num post de 2007 sobre Max Ernst, Surrealismo e FC (http://pedromarquesdg.wordpress.com/2007/08/12/max-ernst-still-does-it/), e há um par de meses publiquei na revista Bang da Saída de Emergência um texto apenas sobre ele: http://pedromarquesdg.wordpress.com/2011/07/12/era-uma-vez-mil-novecentos-e-oitenta-e-quatro/. (Outro grande trabalho do Fernando Azevedo é o catálogo da Cinemateca do ciclo Buñuel, um livro que tive mas vendi já no ebay).
    Posso tentar saber se haverá ainda algum exemplar disponível na SdE, se estiver interessado.

    • Já tinha lido os textos no Montag e estive atento na Fnac até encontrar a Bang. É um excelente artigo para ficar a perceber o contexto em que o catálogo foi produzido. Fico curioso para espreitar o catálogo do Buñuel.

  3. Um amigo disse-me há dias que avistou 2 exemplares numa tenda ocasional de venda de livro usados ali ao Campo Pequeno por 95 euros. Ainda há 2 anos, soube de quem o comprou por 20, pelo que é óbvio que está a valorizar-se.

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