The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Quem vê caras.

Entre os cartazes de cinema deste ano parece haver uma tendência: fotografias a cores de planos muito aproximados de caras. Não são imagens intimistas. São caras de gigantes, onde cada poro é visível. Prometem-nos uma familiaridade demasiado próxima – uma distância social inaceitável e tensa.

Poder-se-ia dizer que são apropriações de Thomas Ruff, mas o fotógrafo alemão não faz retratos destes, ficando-se pelas imagens genéricas, medianas, anónimas – as suas caras dizem-nos muito pouco. Neste caso, estas caras dizem-nos alguma coisa: são-nos mais ou menos familiares; são actores que podemos reconhecer, mesmo que o seu nome nos escape, usados contra a sua imagem habitual em filmes mais ou menos biográficos, um deles um falso documentário sobre o próprio actor, Joaquin Phoenix, e o seu suposto esgotamento, durante o qual foi abandonando a higiene pessoal e as suas aptidões sociais; o outro, a biografia do fundador do Facebook, contrastando a sua ambição e a sua incapacidade de manter relações pessoais com o facto de ter inventado uma rede social.

São filmes biográficos a que assistimos de um modo um tanto ou quanto longínquo aqui em Portugal. Estas não são personagens da nossa vida pública; não corremos o risco de as encontrarmos na rua. Não conhecemos alguém que andou com elas nas escolas. Não aparecem nos nossos programas da manhã ou nos nossos reality shows. No entanto, estes filmes e estes posters tornam-nas próximas, reafirmam a sua pertinência – mais no caso da Rede Social que no do falso documentário. A grande cara do poster poderia ser a de um Big Brother adolescente, uma analogia reforçada pelos slogans que se lhe sobrepõem, e que nos dizem o que pensar sobre ela, que estamos a olhar para alguém ao mesmo tempo anti-social e muito bem sucedido. No fundo, o chavão do milionário que sacrifica tudo pelo seu dinheiro. No entanto, a ideia é aqui usada com ironia: o negócio não é o petróleo ou a comunicação massificada dos jornais mas a sociabilidade e intimidade tornadas num recurso informático. O negócio é uma erosão estudada da intimidade de toda a gente.

Estes cartazes escapam-se à retórica habitual do cartaz de filme americano, um formato extremamente negociado, reduzindo-se habitualmente a uma fórmula quase contratual: o actor A mais o actor B num filme de acção, traduzindo-se em duas cabeças flutuando por cima de uma curta cena indicando o ambiente do filme (um filme de terror, de acção ou um policial). Se o filme for uma comédia, os intervenientes são reduzidos a silhuetas sobre um fundo branco, como personagens num cartoon.

No caso destes dois posters, há uma primeira diferença em relação à norma: nada de montagens esfumadas de cabeças e apontamentos de acção; nada de fichas técnicas numa letra espremida para caber tudo. Aquilo que os distingue é, em primeiro lugar, o carácter directo, aparentemente não trabalhado das imagens, mas sobretudo o texto que se lhes sobrepõe: se estas caras ocupam a totalidade do cartaz; o texto sobrepõe-se à totalidade das caras. Olhando a cara somos obrigados a olhar o texto. O texto funciona como um filtro condicionando a nossa leitura daquela cara.

Update: Os dois cartazes são feitos pela mesma firma Kellerhouse, Inc., que também tem mais um ou dois cartazes com grandes planos: The Girlfriend Experience e The Informant (embora com efeito distinto dos anteriores). Obrigado ao Paulo Pereira pela dica.

Anúncios

Filed under: Cartaz, Crítica, Cultura, Design

9 Responses

  1. rui diz:

    Muito bom post!
    Do ponto de vista social, os cartazes fazem-me lembrar aqueles filmes de comédia de adolescentes, os tais filmes de que não costumo gostar particularmente. No entanto, têm também uma mistura de dramatismo, dando uma imagem de filmes de adolescentes dramáticos, ou trágicos. Surpreendem por essa postura de frieza. Quando estávamos habituados a ver “cromos” de comédia, vemos no seu lugar “cromos” completamente desconhecidos (os actores não são muito conhecidos), e portanto anónimos.

    Também vejo cartazes meio “low cost”, muito pouco trabalhados. Ou pelo menos dão essa ideia. Ao lado dos cartazes de RED, Resident Evil, Tron e afins, surgem estes cartazes completamente descontextualizados. Talvez consigam algo com esse contraste, talvez consigam com isso a diversidade que por vezes é necessária ao público de cinema. Porque se há quem goste de comédias, ficção científica e romance, também poderá haver quem goste de fazer zaping para outros géneros de filmes menos comuns.

  2. ghostalking diz:

    É feio apontar o dedo, mas cá vai http://www.kellerhouse.com/#/?item=24

    Quanto ao trabalho e erudição destas coisas, é evidente que é muito mais rápido e económico fazer um cartaz tradicional com as cabeças voadoras!

    Andando em círculos voltamos à Paula Scher e à Criterion http://pentagram.com/en/new/2006/06/new-work-the-criterion-collect.php

  3. “No entanto, a ideia é aqui usada com ironia: o negócio não é o petróleo ou a comunicação massificada dos jornais mas a sociabilidade e intimidade tornadas num recurso informático. O negócio é uma erosão estudada da intimidade de toda a gente.”
    Não terá sido certamente pelo poster que o Rede Social se mostra tão forte para nós. É porque é próximo. Não geograficamente, mas tudo o resto nos é próximo. É uma história a acontecer, um documentário sobre o presente e o passado recente de algo em que nos envolvemos.

    Outra coisa…
    Amigos amigos… negócios à parte.
    Pelo filme entende-se que o negócio, do Facebook, até há cerca de dois anos, assim como na arte e em todos os produtos financeiros, é ou era baseado em especulação. Não tinha liquidez, nem de publicidade. Quando os detentores de fundos de aplicações financeiras investiram no Facebook, sabiam que daria para explorar o site de outras formas. Hoje o negócio está a começar a ter liquidez. O que o Facebook valia em Bolsa, nada tinha que ver com o que conseguia facturar. Duvido que, mesmo hoje em dia, se revele lucrativo para a maior parte dos investidores, em qualquer tipo de negócio/transacção que não seja “bolsista”.

    Por curiosidade, perguntei-me se a produção do filme foi uma vingança de quem foi intelectualmente pilhado pelo tipo que fez o Facebook. Não me admirava.
    1ab

    • O amigo que o processou foi consultor do argumento.

    • Penso que o facebook tem algum lucro (bastante até). Basta fazeres um pedido de colocação de publicidade no site (tal como já fiz), para saber disso mesmo. 300 euros por uma imagem pequena com o botão a dizer “I Like” não é pouco! Fazendo as contas a todas as imagens com o dito cujo “I Like” que surgem pelo facebook fora, seja de empresas, cafés, lojas, bares, ou discotecas, etc… E somando isso a todas as publicidades de todo o mundo feitas dessa forma e a 300 euros cada!!

      O facebook é uma boa fonte de investimento. Daí que interesse a muita gente que o facebook cresça mais e mais no número de usuários. Quantos mais houver, mais I Likes são clicados e maior é o retorno de quem investe nesse género de publicidade.

  4. Márcio Folha diz:

    Também reparei nesta tendência, e acrescento um de que gostei bastante. O da versão americana do filme “Funny Games” que não é tanto um head shot mas antes uma expressão de terror, que acaba por ser o tema do filme. Nota para todo o arranjo do cartaz. De resto, aconselho o filme – o original, este não vi.

    Aqui fica > http://www.impawards.com/2008/posters/funny_games.jpg

  5. Situr Anamur diz:

    Você pode pagar menos de 1€ por dia e ter resultados com a publicidade no facebook. Suponho que foi intrujado a pagar 300

    • rui diz:

      Tirei isto do facebook:

      “Campaign:My Adverts (new campaign)
      Bid type:CPC
      Bid: £0.24 GBP per click
      Daily budget: £35.00 GBP per day
      Duration:This advert campaign will run indefinitely”

      Ou seja, £0,24 por cada click efectuado + £35.00 por dia. O click efectua-se sobre um botão que diz “I Like”.

      Também tens a hipótese de pagar £350 por mês em vez de £35.00 por dia, que fica mais barato caso queiras que o anúncio fique no facebook durante um mês inteiro.

      Poderás saber mais consultando esta página: http://www.facebook.com/help/?page=873#!/help/?page=409

  6. O botão “Like” é gratuito. A publicidade, no próprio facebook é que que não.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Comentários Recentes

Lia Ferreira em Por um lado
Jose Mateus em Censura em Serralves
L. em Lisboa Cidade Triste e Al…
Mário Moura em Livro
João Sobral em Livro

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: