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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Continente-Mapa

Há pouco tempo encontrei este mapa, que tenta dar uma ideia da escala continente africano comparando-o por sobreposição a uma série de países como os Estados Unidos, a China, a Índia, toda a Europa de Leste e uma quantidade avulsa de pequenos estados europeus, incluindo Portugal, que parecem ter sido usados só para encher. Olhando-o, é difícil não nos lembrarmos de um outro, feito por Henrique Galvão em 1934, em circunstâncias bem distintas. Já falámos dele aqui, a propósito do modo como a infografia não é algo neutro, mas argumentativo, e que um mapa pode funcionar como um logótipo, na medida em que pode ser usado para representar uma certa identidade nacional.

Há a tendência para generalizar a identidade africana, reduzindo-a a um conjunto de estereótipos: este mapa parece corrigir isso, demonstrando que a África é um continente tão variado e com tanto potencial como todos os outros. Tal como o mapa de Galvão, poderia ter a legenda: “A África não é um continente pequeno.”

A inversão é bastante representativa da mudança de atitudes em relação a África que se processou desde o final do século XIX: de uma projecção da Europa, onde grandes fatias do continente africano estavam repartidas directamente pelas potências europeias a uma espécie de protectorado da intervenção política e humanitária. Se o mapa de Galvão assumia que alguns pedaços de África eram, mais do que colónias, extensões do território português, este novo mapa pretende apenas “sensibilizar”.

Curiosamente, fá-lo usando precisamente os mesmos mecanismos da retórica colonialista que reduziam África a um conjunto de operações realizadas à distância sobre um mapa. O ultimato inglês, por exemplo, resultou do conflito entre a pretensão portuguesa de unir Angola a Moçambique com o projecto inglês de fazer uma mega-colónia do Cairo à Cidade do Cabo. De facto, toda a história de África nas últimas centenas de anos liga a sua identidade a mapas, talvez mais do que qualquer outro continente. É uma identidade gráfica num sentido muito literal: decidida como um conjunto de linhas sobre um papel para ser imposta depois à realidade.

Apesar das suas boas intenções, esta última imagem continua a fixar a África como um Continente-Mapa, cuja legenda é o resto do mundo.

Filed under: Crítica, Cultura, Design

One Response

  1. rui diz:

    Adorei a imagem e o seu simbolismo.
    Infelizmente, basta irmos a esta página http://maps.google.pt/maps?ct=reset para que se confirme a inveracidade do que defendem… Só os EUA e a China são suficientes para ocupar toda a África, sendo que a China ocupa mais de metade do continente africano.

    Depois há ainda aquela ideia de que África é um país, quando não o é. E na verdade os países que a compõem são até países de tamanho médio. Comparar o tamanho de um continente com o de um país… Porque não comparar com a Rússia? A África nem metade ocupava. Mas se comparassem A África com a Europa, isso sim, talvez funcionasse.

    No fundo, a ilustração é um bocado irreal. Tenta passar uma coisa que não é verdade.

    Mas em termos gráficos, consegue-o muito bem. Acho um excelente trabalho.

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