The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Do Desemprego enquanto Forma de Arte

Enquanto falava com os alunos que organizaram a exposição We Are Ready for Our Close Up reparei num estranho paradoxo da vida pública portuguesa. O evento teve apoios, mecenas e público; foi um sucesso. Na altura, queixei-me do tema, a empregabilidade. Argumentei que arranjar dinheiro para montar uma exposição daquelas era indício que  o comissariado já era um emprego perfeitamente razoável como alternativa a um emprego a fazer “design como deve ser”. Resumindo, não era preciso fazer daquela exposição uma página de classificados – ela já era um anúncio de emprego porque anunciava um tipo novo de emprego.

Mas, como os próprios alunos me lembraram – e é este o paradoxo –, seria mais difícil arranjar apoios se o tema não fosse o emprego. O tema grave e actual funcionava como uma garantia de que não seria uma exposição de arte e design como as outras.

O problema torna-se de imediato evidente: se basta colocar a palavra emprego à frente de qualquer coisa para arranjar dinheiro, é natural que comecem a aparecer exposições, livros, publicações e concursos sobre o assunto. Claro está, na maioria dos casos, o tema é apenas um pretexto para arranjar fundos, sem adiantar absolutamente mais nada.

Outro dia, reparei nuns alunos a lerem o regulamento de um concurso de fotografia cujo tema é o emprego, por exemplo, mas calculo que comecem a aparecer bolsas para estudos sobre empregabilidade – não é muito difícil imaginar teses com nomes tão sugestivos como “Arte Pública e Empregabilidade no Feminino”, “Emprego e legibilidade: desenvolvimento de um fonte que promova a empregabilidade” ou “O Corpo à procura de emprego: género e marginalidade na sociedade portuguesa”.

No mercado dos chavões, a “empregabilidade” já substituiu a “inovação” – um termo que desde o começo nunca foi mais do que uma ironia desastrada. O novo chavão terá tantos resultados como o anterior, servindo apenas para tornar a ideia de promover o emprego tão ou mais importante do que promover realmente o emprego.

É inevitável que quem não tenha emprego pense nisso constantemente, mas já me parece estranho que se comece a dar dinheiro a gente desde que ande a pensar em arranjar emprego ou a fazer arte e literatura com esse tema. É uma espécie de subsídio de desemprego temático, que torna a falta de emprego numa espécie de indústria cultural. Não tenho nada contra os verdadeiros subsídios de desemprego, e acredito que a cultura deve ter um papel activo na sociedade, mas acredito que se deve resistir à imposição de “programas de desenvolvimento” às artes.

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Filed under: Crítica, Cultura, Design, Economia

7 Responses

  1. márcia diz:

    O tema da exposição não é empregabilidade. É, de facto, mostrar trabalhos de finalistas da FBAUP. A empregabilidade é um objectivo do projecto, tal como a visibilidade de alunos finalistas no contexto de exposição, ou a regeneração do espaço urbano através de um projecto curatorial. Creio que foi apresentada com muito mais força como crítica à postura irresponsável da FBAUP em relação à apresentação daquilo que se faz lá dentro do que evento potenciador de emprego.

    Na verdade, ainda falava disto com o João Marrucho no outro dia, o Close-up deve impor no mercado a necessidade de eventos deste género. Devo dizer ainda que, não sendo um sucesso ao nível de integrar os alunos no mercado, houve quem vendesse peças, convidados para expor e que ainda fizeram colaborações com outros ateliers. Volto a dizer, este objectivo, o da integração no mercado, não foi de todo um sucesso.

    A exposição não foi vendida ao patrocinador como fomentadora de empregabilidade. Foi apresentada enquanto projecto, com os devidos objectivos, no qual a empregabilidade estava incluída. Ainda para mais, se a tivessemos vendido como fomentador da empregabilidade do “design como deve ser”, não estaríamos agora a organizar uma exposição no espaço do patrocinador. Acreditaram no projecto – e na capacidade da associação – ao ponto de o quererem lá.

    Acho que é implícito que, ao fazermos o Close-Up este ano novamente, já o estamos a assumir profissionalmente e não como um hobby. Mesmo no ano passado isso não aconteceu. Um projecto que é desenvolvido ao longo de nove meses não pode ser encarado dessa forma. Mas penso também que poderíamos ter feito referência mais afincada à questão do Close-Up como emprego próprio. Parece-me pertinente, mas não indispensável, até pela capacidade e sucesso que a exposição demonstrou. Provavelmente, se não acreditassemos que poderíamos fazer disto o nosso emprego, não nos teríamos esforçado tanto para a concretizar.

    Ainda, em relação a “a “empregabilidade” já substituiu a “inovação””: a “inovação” é provavelmente responsável por isto – http://www.publico.pt/Sociedade/portugal-esta-a-deixar-cair-a-geracao-mais-qualificada_1467864 – e precisamente por isto, acho que a empregabilidade não é chavão algum. Ninguém sobrevive sem ganhar algum dinheiro, e não querendo passar uma mensagem moralista, criar um evento que permite integrar pessoas no mercado de trabalho não me parece bacoco, nem despropositado, muito menos paradoxal.

    • O problema não é promover o emprego ou integrar pessoas no mercado de trabalho; o problema é fazer disso um tema recorrente, um chavão, dedicando-lhe fundos e apoios e aplicando-o a todo o tipo de contextos. Fazer um evento qualquer que promova implicitamente o emprego é bom; só conseguir apoios se o fizer explicitamente já me parece mau.

      Não acredito particularmente nas vantagens da empregabilidade na medida em que promove uma espécie de preconceito quanto ao que é ou não é um emprego.

      • márcia diz:

        Mas o projecto não conseguiu apoios assentando-se na empregabilidade. O patrocinador não apoiou o projecto por isso – apoiou-o por razões mais políticas do que pelo altruísmo da “empregabilidade” – nem vendemos o projecto nesse sentido. Aliás, em qualquer proposta que fizemos de apoio/patrocínio não assumimos a empregabilidade como tema/chavão, mas como um dos objectivos, que acho que é estupidamente pertinente dentro do contexto. Como disse, a crítica explícita do projecto à FBAUP vendeu-o muito mais do que a empregabilidade.

        Na conferência do Pedro Almeida no Close-Up sobre a empregabilidade, ele referiu o papel da St Martin’s na inserção dos alunos no mercado. É uma prática que já acontece há vários anos e uma das apostas fortes para isso é o seu final show, que é um evento de proporções enormes na cidade, que só se pode entrar com uma pulseirinha e são convidados ateliers, empresas, galerias para virem conhecer o trabalho do sangue-novo. O mercado reconhece o potencial destes novos artistas e designers e integra-os. Não é um chavão como a “inovação” de há uns anos, nem o Close-Up assenta nesse tipo de argumentação. Há uma necessidade de integrar as pessoas no mercado de trabalho. O Close-Up é um exemplo de integração, também pelo projecto em si.

      • márcia diz:

        Quero só acrescentar o facto de virmos a fazer uma exposição no espaço do patrocinador é em si sinónimo da crença do patrocinador (e nossa também) na associação como comissários.

  2. maria diz:

    Não há emprego, já está mais que visto.
    Só há trabalho (e quando há) e aqui que todos tentem fazer o melhor.

  3. maria diz:

    hummmm..é um chavão

  4. Luís M. Inácio diz:

    É um artigo interessante, e confesso que não sei como capturar a ideia de um chavão, sendo que um chavão é um necessário (e previsível) efeito comunicativo.

    A ideia de chavão aparece mediante como uma síntese comunicativa de um ruído comunicativo. Por outras palavras, ao existir um ruído comunicativo num determinado canal este é ‘simplificado’ para que seja melhor transmitido a terceiros. No meu ponto de vista, isto surge como um cariz económico/eficiente de comunicação.
    Sendo assim, ‘vende’ enquanto o ruído continuar.

    Quanto à problemática da empregabilidade, eu defendo que a questão é mais abrangente do que apenas a empregabilidade na área de licenciatura. Porque enquanto os estudantes saem motivados de uma licenciatura, esta motivação tende a desaparecer ao encontrar dificuldades inerentes ao ‘mundo real’. Esta controvérsia é problemática em várias áreas, mas neste caso, na área do design enquanto actividade económica, defendo que o design tem de saber vender(-se) e de fazer lucro para si próprio, e deixar-se de tretas em relação a supostas questões morais.

    Abraço

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