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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Teatro e Design

Esta semana, quando lhe perguntaram o que pensava da anunciada fusão dos teatros nacionais, João Aidos, o Director Geral das Artes, levantou dúvidas quanto à eficácia administrativa e económica da medida, sugerindo duas maneiras alternativas de poupar dinheiro: nas contratualizações e na imagem gráfica.

Não passa de uma frase solta, que acaba por não adiantar grande coisa, mas quando é proferida pelo responsável da atribuição dos apoios pontuais à cultura merece talvez alguma atenção. Muitos dos dinheiros da Direcção Geral das Artes acabam por beneficiar o design, mesmo que indirectamente – subsidiando eventos que contratam designers, por exemplo. Alguns, como os estágios Inov-Art, subsidiam directamente designers em começo de actividade. Ou seja: tendo em conta o seu cargo e a importância que tem para o design português, não basta dizer que se pode poupar dinheiro na imagem gráfica; é preciso explicar mais claramente como.

Aidos pode querer dizer – e seria difícil não concordar com ele – que se gasta demasiado dinheiro com design gráfico em Portugal sem que daí saiam resultados positivos. O caso do Centenário da República é apenas um exemplo possível entre muitos. Design e despesismo partilham muito mais que as três primeiras letras.

No entanto, tal não pode ser dito do Teatro Nacional S. João, que tem tido nos últimos anos uma imagem gráfica exemplar, produzida pelo estúdio Drop de João Faria. Tanto quanto sei, o designer já não trabalha para o TNSJ, mas, se ainda trabalhasse, seria boa ideia dispensá-lo apenas com base em cortes económicos?

Por um lado, pode-se argumentar que o design gráfico não é a coisa mais importante num teatro, apenas um serviço contratado. O importante é manter o próprio teatro a funcionar, mesmo sacrificando para isso a sua imagem gráfica. Por outro lado, se o design de um teatro é bem sucedido, não se pode dizer que seja um mero acessório. No caso do TNSJ, tem sido dos mais consistentes e interessantes tanto no Porto como a nível nacional. De resto, muito do design experimental mais interessante tem sido produzido para companhias de teatro. A relação entre teatro e design é antiga e proveitosa para cada uma das disciplinas.

Porém, o design gráfico ainda não é uma tradição, apenas uma formalidade. Usa-se porque toda a gente o usa, mas não se percebe muito bem porque existe de todo. Idealmente, ninguém gastaria dinheiro com ele. É visto como um luxo ou, na melhor das hipóteses, como um intermediário para lidar com as idas à gráfica.

Mas nenhuma instituição funciona completamente isolada da sociedade, das suas convenções sociais, estéticas e técnicas, das quais o design faz parte, tal como a arquitectura ou a comunicação pública. Numa sociedade como a nossa, não é possível a uma instituição sobreviver sem alguma espécie de imagem gráfica. E, se é inevitável ter uma imagem gráfica, qual a atitude mais responsável: tratá-la como algo dispensável ou como algo essencial, tendo em conta que é forçoso tê-lo? Já que é preciso ter uma imagem gráfica, porque não ter a melhor imagem gráfica possível?

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Economia

One Response

  1. Infelizmente caro Mário, o design ainda é visto como um acessório, e não um meio com um fim e neste contexto da tão apregoada “crise”, os cortes vão directamente para este campo. Ironicamente, em contraste, antítese ou outro paradoxo qualquer, o produto do design gráfico é muitas vezes o isco que esperamos que o peixe morda. E um bom isco é sempre melhor, quando lançado na maré correcta. Isto não é novidade. E a cultura, aliada tão próxima do design é mais uma que sofre com isto. É triste. Não há dúvida nenhuma que o design representa um papel importante na persuasão das pessoas a “consumir” todo o tipo de produtos, inclusivamente o alimento cultural. Friso que, com um briefing adequado, o bom design não tem necessariamente de ser caro (ou extraordinariamente e injustificadamente dispendioso). Já tive a oportunidade de ver e projectar peças que funcionaram muito bem, com orçamentos que chegavam a ser irrisórios. Quando os recursos são poucos, essa situação apenas deve ser encarada como um constrangimento/oportunidade do projecto, como todos têm. O importante não é cortar os custos, mas sim NÃO cortar as oportunidades. Enfim…

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