The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Gralhas

Um dos efeitos secundários de trabalhar numa tese é a certeza incómoda que, por mais que se reveja um texto, há sempre qualquer coisa que não ficou bem: um duplo espaço, a insistência do Word em corrigir para pior certas palavras (“critica” em vez de “crítica”), alguns casos mais ambíguos de concordância entre sujeito e verbo, etc. Li e reli a tese mais de quatro vezes e sei que ainda tem gralhas, invisíveis aos meus olhos, mas prontas a saltar à vista da primeira pessoa que a ler.

Outro efeito secundário, neste caso mais pessoal, foi a admiração que fui ganhando pelo trabalho do designer inglês Herbert Spencer. Conheci-o através da reedição do seu Pioneers of Modern Typography, com prefácio de Rick Poynor, que comprei principalmente porque era barato: a capa era feia, as reproduções toscas, o texto pedagógico mas datado – uma curiosidade histórica apenas. Nada que fizesse prever o entusiasmo que agora tenho pelo seu trabalho.

Mais tarde comprei por impulso o livro que Rick Poynor escreveu sobre a revista Typographica que Spencer editou entre 1949 e 1967. Confesso que mal o cheguei a folhear. A revista parecia interessante, um bom exemplo do modernismo europeu tardio. Poynor citava-a como o modelo para a revista que ele próprio editou, a Eye, e tinham de facto semelhanças formais evidentes, comparáveis às de um Volkswagen Carocha com a sua reedição actual, ou talvez de um Smart com os micro-carros europeus do pós-guerra – ou seja, entre o modernismo como novidade e o modernismo como referência mais ou menos nostálgica.

Já me tinha resignado a só a pegar no livro de Poynor quando tivesse a tese despachada, e o meu interesse por Spencer podia ter ficado por aí, não fosse ter lido, enquanto investigava, uma crítica bastante violenta à primeira edição de Pioneers. Li-a no segundo número da Dot Dot Dot, embora tenha sido publicada originalmente em 1970, na revista Studio International. Anthony Froshaug, o seu autor, acusava Spencer de não indicar as margens originais dos imagens que mostrava, tendo a insolência de as invadir com os seus comentários. Desvalorizava também os exemplos de tipografia modernista mostrados no livro, notando que “não é verdade que a colocação arbitrária de letras, sem estarem dispostas em linhas, tenha a ver com o correcto exercício da composição tipográfica, que consiste no arranjo de caracteres de corpo constante […] em palavras, expressões e frases, divididas de acordo com o modo do seu tempo – usando a pontuação e a sintaxe então aceites.” Reservava, ainda assim, um elogio para um dos Pioneiros de Spencer, Jan Tschichold: “Um homem que respeita o texto, a forma das letras, as margens, o conteúdo e a palavra: um mestre.”

Resumindo: Spencer não mostrava o respeito devido pelo trabalho dos mestres, misturando os seus comentários e o seu próprio design com o deles.

Mas se a Froshaug a coisa parecia um sacrilégio, para outros era uma oportunidade: demonstrava que o trabalho dos mestres podia ser apropriado, tornado actual, novo e sexy. Não por acaso, Peter Saville começou a sua carreira usando como portfolio um exemplar de Pioneers roubado na biblioteca da escola, dizendo aos seus clientes que queria fazer trabalhos como aqueles.

Contudo, era difícil acreditar que estas reacções radicalmente distintas eram sustentadas pelo livrinho modesto, feio e um pouco tosco que comprei em 2004. Se calhar era uma questão de gostos diferentes em épocas diferentes; se calhar os livros de design ainda eram tão fracos em 1970 que mesmo aquela coisita tinha conseguido levantar aquelas ondas todas. Eventualmente, e graças à net, descobri que a primeira edição de Pioneers não tinha nada a ver com a actual: não era pequena e quadrada, mas um A4 quase perfeito, encadernado com tecido amarelo, forrado com uma sobrecapa azul; o livro era impresso, não a duas cores, mas numa variedade de cores directas sobre todo o tipo de papéis. Só pelas imagens, era possível sentir a energia táctil daquilo tudo.

Naturalmente, não pensei noutra coisa senão arranjar um para mim. Imaginei que fosse caro, um objecto impossível de encontrar. Meia dúzia de buscas na net foram-me deprimindo: no mínimo 150 euros, no máximo 1500. Consolei-me coleccionando os trabalhos mais baratos de Spencer: The Liberated Page, uma recolha de textos publicados na Typographica, da qual fui comprando um ou outro número, em geral caro, mas ainda assim mais barato que uma primeira edição dos Pioneers. Fui descobrindo os Penrose Annual que editou durante dez anos e os seus livros ainda mais difíceis de encontrar, em particular The Visible Word, uma investigação académica sobre problemas de legibilidade publicada pelo Royal College em 1968. Pelas imagens que fui apanhando parecia ser mais outro livro amplamente cobiçável – o mais barato que encontrei custava perto de 200 euros, um pouco estragado e sem a sobrecapa verde.

Suspiro.

Mas um dia tive sorte, num Sábado à noite enquanto matava tempo para sair, fazendo buscas no Abebooks por mero tédio, apareceu-me uma primeira edição americana do Pioneers em bom estado, com sobrecapa, por trinta e tal euros. Não havia fotografia, mas não descansei enquanto não me confirmaram o envio na terça seguinte.

A impaciência às vezes compensa: a encomenda demorou eternidades a vir, e entretanto dupliquei as buscas ao ponto da obsessão compulsiva. Procurei livros de Spencer (encontrando dúzias do filósofo homónimo), procurei livros da Lund Humphries e da Hastings House, as editoras para quem trabalhou e acabei por encontrar um livro editado em 1968 chamado “The Visible World” – não “Word” –, pela Hastings House. Segundo a descrição, estava em bom estado, com uma boa sobrecapa. Custava cinquenta e poucos euros. Não podia ter a certeza absoluta, mas apostei que era uma gralha do alfarrabista. Se fosse o Visible Word, era uma boa compra. Foi num mês difícil, mas mandei-o vir.

Uma das coisas que me chateia quando compro livros antigos pela net, é que não envolve muita sorte, jeito ou ciência: basta ter uma ligação à net, dinheiro e um motor de busca. Este incidente fez-me mudar de ideias: uma gralha tinha escondido uma pequena raridade dos olhos do mundo.

Desde então, ainda descobri aquilo que vinha assinalado como sendo uma “Typographia” mas revelou ser mais uma Typographica vendida ao preço da chuva, mas enquanto não recebi pelo correio os Pioneers e o Visible Word, fiquei sempre a pensar que o erro podia ser meu, embora a descrição batesse certo em qualquer um dos casos. Esperei mais ou menos um mês, mas acabaram por chegar os dois no mesmo dia e eram perfeitos. O Pioneers era tudo o que eu estava à espera e o Visible Word, além do bom aspecto, está a ser uma leitura bem interessante – não deixa de ser curioso que, graças a uma gralha, tenha encontrado um bom tratado sobre legibilidade.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, História, Publicações

4 Responses

  1. Hugo Lobo diz:

    Se trabalhar em Word, um duplo espaço pode ser detectável se fizer uma pesquisa com dois espaços (menu edit->find->find…).

  2. miriam diz:

    😦 li a minha mais de 10x, sem exagero… e ainda hoje, quando lhe pego, encontro gralhas! :s é terrível…

  3. […] e arquitectura do século XX – uma afirmação polémica em certos ciclos, que lhe haveria de custar duras críticas. Pela minha parte concordo com esta linhagem descontínua entre tipógrafos e designers, conforme […]

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