The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Atenção ao pormenor

Supostamente, uma das características mais marcantes da arquitectura de Siza ou de Souto Moura seria a atenção ao pormenor, bem visível nas estações de metro do Porto, onde o padrão dos azulejos alinha pelas portas, pelas esquinas, pelas aberturas dos armários de manutenção (conforme se pode ver bem na foto acima). Tanto quanto é possível perceber, não há azulejos cortados ao meio em toda a rede de metro do Porto.

Esta mania pelo alinhamento de detalhes que outros arquitectos considerariam insignificantes poderia dar a entender uma certa afinidade com os designers gráficos, e em  particular com os tipógrafos, que se dedicam a alinhar coisas que a maioria das pessoas consideram insignificantes.

Mas nada disso: dando uma olhadela aos nomes das estações da linha amarela, não se pode dizer que a tipografia seja de todo uma preocupação. Na estação do Marquês, por exemplo, consegue-se a proeza não só de falhar o kerning de todas as letras como de nem sequer acertar com o alinhamento da baseline!

Poder-se-ia argumentar – e estou certo que muitos arquitectos o farão – que ninguém morre por causa de uma letra mal alinhada; a isso só me resta acrescentar que, a morrer alguém, o número de baixas será talvez comparável ao das pessoas que morrem devido a um azulejo mal alinhado. Se a arquitectura da Escola do Porto preza o pormenor, então deveria talvez prezar o pormenor. O metro do Porto é apenas um exemplo; a sinalética de Serralves é igualmente má e quase me arrisco a acreditar que, por uma estranha lei da física, cada vez que alguém tenta pendurar uma letra num edifício de Souto Moura ou de Siza, a coisa simplesmente não tem outro remédio senão dar para o torto.

Dei conta destes problemas quando, num Sábado à noite, fui obrigado a esperar mais de quinze minutos pelo metro seguinte na estação do Marquês, e fui descobrindo com algum fascínio todos os problemas de alinhamento que era possível encaixar no espaço de apenas sete letras. Enquanto me dedicava a isso, planeando voltar ali com uma máquina fotográfica ou pelo menos com um telemóvel que me permitisse registar aquela cagada, ouvi, vindo da outra ponta do banco de pedra, alguém comentar, com um sotaque brasileiro que aquele kerning estava mesmo muito mau.

Mais tarde, voltei mesmo lá com um telemóvel o que permitiu descobrir uma última asneira: aparentemente, ao longo de toda a linha amarela todos os “S” estão colocados de pernas para o ar. Ou isso, então a fonte está pura e simplesmente mal feita. Não sei, nem me interessa particularmente saber. Só gostava de, um dia destes, ter algum tipo de sinalética urbana da qual me pudesse orgulhar.

 

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Filed under: Arquitectura, Crítica, Cultura, Design, Tipografia

15 Responses

  1. anapais diz:

    Boa tarde,

    Não sei se é assim tão grave este exemplo.
    Eu não adoro quando encontro um kerning que poderia estar perfeito, mas preferia que não existissem péssimos kernings em muito maior quantidade, em que para além de existir pouco espaço entre caracteres e este estar completamente mal distribuído, a espessura da linha é um pouco maior, fazendo com que no todo, por vezes,a palavra seja ilegível.

    É nesses casos que deveríamos actuar principalmente e não nos outros que até se lê bem de perto ou de longe, mas que não são perfeitos.

    Acho que isso é mais uma atitude típica de designer que se preocupa mais com o seu ego do que se o que está a fazer está a funcionar para a maior parte das pessoas ou não. Se estes elementos funcionassem, mesmo que ainda não fosse a 100%, muitos acidentes, confusões poderiam ser evitadas.

    E porque não fala dos acessos para deficientes? Eu tive de subir ontem para o metro do Campo 24 de Agosto através de uma estrutura metálica com umas escadas e gostava de saber como é que pessoas em cadeiras de rosas conseguiriam fazê-lo também. Para não falar no acesso a um restaurante onde foi difícil 3 pessoas conseguirem ajudar uma pessoa numa cadeira de rodas a entrar.

    Como conseguem eles manter um estilo de vida normal na nossa cidade onde não existem rampas suaves, ou sequer rampas, bem como sinalização coerente.

    Em Budapeste, vi pessoas em cadeiras de rodas assumirem uma vida mais independente, a transportarem filhos pequenos no colo, a irem em grupos de amigos ao shopping, etc.
    E fiz um estudo sobre a sinalética e o planeamento urbano e, reparei que estão bem mais preparados.

    Ainda ontem, vi também um homem andar de Segway pela linha do metro em Matosinhos e, de súbito, veio-me à cabeça um pensamento algo irónico, em que no futuro, o único progresso na melhoria dos acessos, seria feito por aqueles que querem melhorar a acessibilidade para os que andam nesse veículo futurista mas não pelos incapacitados em si.

    Para finalizar, nem todos são bons a trabalhar o kerning, não é uma ciência exacta e, na faculdade pouco nos ensinam a trabalhar bem com kerning, por isso, não me surpreende este tipo de situações. Sobretudo quando numa empresa, eles estão a “cagar-se” para o nosso kerning e somos forçados a trabalhar rápido e com o que temos.

    Daí que sublinhe o que disse sobre o que seria melhor resolver, e que de facto pode causar mortes/acidentes.
    Não estamos nós a assumir sermos incapazes de tratar algo mau e, por isso, nos agarramos à “perfeição” para nos sentirmo designers úteis e eficazes?

    Desculpe o testamento!

    cumprimentos,

    ap

    • Já há uns tempos atrás me queixei em outros textos dos problemas de circulação, sinalização e localização das escadas rolantes do metro do porto e das acessibilidades em geral que são bastante más. Eu próprio já tive bastantes problemas de mobilidade que obrigaram a confrontar muito dolorosamente com os problemas do metro.

      É evidente que existem prioridades, mas acredito que deixar um problema facilmente resolúvel por resolver apenas porque há problemas piores pode ser apenas uma boa maneira de não resolver nenhum desses problemas.

      Não devia nem é preciso ter de escolher entre ter bons acessos e bom kerning.

    • Bem, pessoalmente não imagino alguém que ande de cadeira de rodas a movimentar-se diariamente de metro porque: o metro não tem espaço para isso, o tempo de entrada e saída de carruagens é demasiado curto para que se possa manobrar uma cadeira de rodas, o metro muitas vezes está praticamente lotado… não imagino mesmo… Acho até que se chegassem a fazer rampas de acesso ao metro e se começassem a incentivar pessoas fisicamente limitadas a irem de metro, acho que isso era o cúmulo… Sem querer ser irónico. Mas existem viaturas públicas especializadas para pessoas que andam de cadeira de rodas, tais como ambulâncias, taxis, etc. Há é pessoas que não sabem disso…

      • anapais diz:

        Rui, o que dizes é das coisas mais ignorantes que já li nos últimos tempos.
        Uma coisa é o que tu imaginas ser possível, outra é justificares o que imaginas através de situações que existem mas que podem ser facilmente corrigidas mas que, no teu caso, nem sequer fazem sentido. Não existe espaço? Existe mais espaço que em Budapeste e não sei se sabes mas lá, existe muito mais gente a usar o tram, a diferença é que não tens de esperar tanto tempo pelo transporte. Se calhar por aí podiamos corrigir muita coisa.

        E mais, está lotado e vamos meter de lado quem é incapacitado? Não achas que isso é um bocado ofensivo e discriminatório? És mais importante do que essas pessoas? O cúmulo seria pessoas incapacitadas usarem o metro? Eu nem acredito no que estou a ler. De facto com mentalidades como a tua neste país ninguém vai para a frente.
        Ambulâncias? Eu pensava que ambulâncias serviam de transporte de pessoas feridas para hospitais mas pelos vistos consideram pessoas incapacitadas como doentes que necessitam de ser levadas por tal transporte…

        Só te digo uma coisa, espero que não fiques numa cadeira-de-rodas para experimentares ser posto de lado por pessoas que pensam como tu. Eu não conheço ninguém em tal posição mas de facto acho que deve ser doloroso.
        Já dizia alguém que “não há machado que corte a raíz ao pensamento” e, podes perder a capacidade de te mover, mas a tua mente permanece igual e, com isso, não é justo seres tratado de forma diferente quando és tão importante quanto as outras pessoas e podes continuar a trabalhar e a levar uma vida normal.

        cumprimentos*

        ana pais

      • rui diz:

        Oi anapais! Eu sabia que alguém ia dar essa resposta! E ainda bem, porque ninguém tem de saber tudo e o meu comentário pode até parecer abusivo ou mesmo discriminatório. Mas o facto é que existem transportes públicos para todo o tipo de incapacitados físicos. Existem instituições do estado e empresas privadas que o fazem por muito pouco dinheiro (praticamente o mesmo que pagariamos por andar de camioneta ou de comboio ou de metro). “Ambulâncias? Eu pensava que ambulâncias serviam de transporte de pessoas feridas para hospitais…” Existem carrinhas (ou ambulâncias como se podem chamar) próprias inclusive para elevar as pessoas enquanto sentadas nas cadeiras de rodas para dentro da carrinha. E as pessoas nem precisam de sair da cadeira, nem a cadeira tem de ser desmontada! Sei disso, porque cheguei a desenvolver a imagem corporativa de uma empresa de transportes desse género (bem conhecida actualmente nessa área). Só que há pessoas que não sabem disso… 🙂
        Já viste alguém numa cadeira de rodas dentro de um autocarro? Nem eu!
        Esses transportes existem! Podes ter a certeza disso! E era o cúmulo se não existissem! Imagina o que eles teriam de passar diariamente se não existissem!! Se até uma pessoa comum se chega a ver muitas vezes “enlatada” dentro de um autocarro ou metro imagina o que seria deles!! São carrinhas / taxi que não servem para levar pessoas ao hospital, mas sim e apenas para pessoas com deficiências motoras. Procura na net e encontras imensas empresas e instituições com esse propósito.

      • anapais diz:

        eu sei do que falas, já vi e continuo a achar um pouco discriminatório e pouco frutuoso em termos de lucro.

        Eu acho que temos a capacidade de melhorar os acessos não só ao metro, mas nas estradas em si, poderia dar a essas pessoas uma vida normal, a ideia é trata-las como pessoas normais e deixar que consigam pelo menos ir ao supermercado. Os custos desses transportes não dariam para melhorar o acesso ao metro, por exemplo? Poupava-se tempo e recursos.
        Eu não sou expert por isso, cá fico, a pensar que nem tudo teria de ser assim.
        Desculpa lá se fui demasiado directa mas a forma como disseste aquilo deixou-me realmente estupefacta.
        e vamos agora embora antes que o ressabiator perceba que o kerning está a passar ao lado 😀 :p

  2. anapais diz:

    Não me refiro apenas a uma escolha mas sim a uma atitude perante coisas piores em que, já que se acha que não se consegue fazer nada quanto a elas, refugiamo-nos em coisas mais pequenas para nos sentirmos bem com o que (não) fazemos.

    Mas entendo perfeitamente o que quer dizer, não é por existir algo pior que devemos deixar de nos focar no que nos interessa.

    Mas quando falei, estava a apelar a uma atitude massiva e não a algo mais individualista tipo isso, porque, na minha opinião, numa situação em que nos dão a chance de melhorar algo, acho que ter em conta o que está pior, em detrimento de aperfeiçoarmos o que está relativamente bem, demonstra um pensamento em design mais direccionado para as necessidades do povo e não as do nosso ego.

    De qualquer maneira, gostei bastante do artigo * 🙂

  3. Já tinha reparado em alguns erros em mapas do metro. Mas pior, acho que o sistema podia ser muito mais simples. Aquelas zonas todas confundem-se muito. E confesso que a primeira vez que andei de metro foi uma confusão para mim e tive de pedir que me explicassem como funciona aquilo.
    Já no aeroporto Sá Carneiro reparei que imensos turistas desistem sair do aeroporto de metro e em vez disso acabam muitas vezes por ir de taxi… É que se nós portugueses temos dificuldade em perceber a diferença entre Z1 e ZS1… imagino os estrangeiros. Por acaso até conheço uma pessoa que trabalha lá e acha que sou muito esquisito quando lhe digo isso. Não sei se é de mim, mas…

  4. Beatriz diz:

    A sinalética do metrô de São Paulo costumava ser boa. Projeto do escritório Cauduro Martino. Hoje em dia está descaracterizada.

  5. […] Janeiro deste ano escrevi um artigo dando conta de vários problemas tipográficos na rede de metro do Porto, um assunto que me levaria […]

  6. […] as carruagens. Agora, felizmente, já se acrescentaram mais umas placas – que não alinham bem pelo padrão dos azulejos, mas que já devem ter prevenido umas tantas viagens involuntárias. Calculo que se diga que a […]

  7. Guilherme Appolinário diz:

    Passei um ano no Porto a pensar que o S ao contrário havia de ser minha cabeça a pensar coisas de maneira inversa. Obrigado por colocar-me de volta no lugar.

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