The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Ser minimalista em Portugal…

(via)

Quando no último texto usei o Metro do Porto como exemplo para demonstrar como a preocupação com o pormenor da arquitectura da Escola do Porto se dissolve rapidamente quando entra em contacto com a tipografia, alguns leitores chamaram-me a atenção que existem problemas mais importantes no metro do que o kerning, nomeadamente as acessibilidades a pessoas com problemas motores.

Já tinha respondido brevemente a esta objecção nos comentários ao texto anterior, mas acredito que merece um pouco mais de tempo, tendo em conta que esta linha de argumentação – uma preocupação com uma questão estética deve ser adiada enquanto houver coisas mais importantes para tratar – surge recorrentemente nas discussões sobre o papel da cultura e do design em Portugal.

Em primeiro lugar, escolher entre um kerning bem feito e fazer acessibilidades para deficientes é uma falsa escolha. Ter letras bem alinhadas não impede que se façam boas acessibilidades. São duas tarefas com responsabilidades distintas que devem ser feitas com todo o cuidado possível mas são independentes entre si. Pode-se argumentar que a preocupação com o alinhamento de letras numa parede é menos importante que as necessidades de acesso a deficientes mas, independentemente da qualidade dos acessos, vai haver sempre letras nas paredes de uma estação assinalando o seu nome. Se estas letras são necessárias, então porque não colocá-las da melhor maneira possível?

Infelizmente, esta linha de argumentação não se limita ao design, mas estende-se à cultura em geral. Rui Rio por exemplo defendeu há uns tempos que não deveria haver dinheiro para a cultura enquanto houvessem pessoas sem sítio onde dormir. Mais uma vez, uma falsa oposição. Numa cidade da dimensão do Porto, é inevitável a existência de algum género de actividade cultural profissional. Se é inevitável haver cultura numa sociedade urbana, porque não fazê-lo da melhor maneira possível? Se Rio não tivesse gasto tanto dinheiro em corridas de automóvel, ranchos folclóricos ou a subsidiar indirectamente as peças de La Féria, tudo actividades culturais, embora de qualidade duvidosa, a sua posição talvez até pudesse parecer coerente.

Os argumentos à Rui Rio só servem para uma coisa: apequenar a posição do interlocutor, dando a entender que aquilo que defende impede que se resolva uma primeira necessidade. Na prática, funcionam apenas como uma má desculpa: se uma actividade é tida como superficial (ou comercial, dispendiosa, etc.), fazê-la mal significa que nos estamos a preocupar com coisas mais elevadas. O mau design, o teatro de segunda, a exposição de arte com um mau catálogo, vão passando assim por sinais de superioridade moral.

Há até quem confunda este género de falácias com a velha ideia modernista do “less is more” que, no entanto, não se aplicava à quantidade de pensamento dedicado a tomar uma decisão formal, mas apenas ao minimalismo decorativo – quanto menos ornamentos, melhor. Resumindo, se considerarmos o brio como um ornamento desnecessário, Portugal será sem dúvida bem mais modernista que a Suíça e a Alemanha juntas.

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Filed under: Crítica, Cultura, Design

10 Responses

  1. anapais diz:

    Pareceu-me forçada a orientação deste artigo para acabar a falar sobre minimalismo, não tendo nem sequer entendido porque razão haveria de interligar esse tema ao tema referente aos acessos para incapacitados.

    Lendo o primeiro parágrafo, fiquei até na esperança de que viesse a aprofundar o tema e desse a sua opinião mostrando um mínimo de cuidado com referências e estudos sobre como poderíamos mudar a situação ou, pelo menos, sobre como contribuir para essa mudança ainda que ela não fosse feita agora.

    É óbvio que fazer uma coisa não impede de fazermos a outra, mas quando existem limitações e essas necessitam a contribuição do designer, eu pessoalmente optaria por colaborar com um designer que soubesse medir entre quais são as necessidades maiores de um projecto e as necessidades de preencher o seu ego.

    Como designer sinto uma forte inclinação para ter os meus projectos perfeitos – porque nos ensinaram, porque os artigos sobre os melhores designers assim o falam, etc – mas na verdade, é das pequenas imperfeições e mudanças que as maiores mudanças ocorrem, digo eu.

    Não podemos esperar que as coisas se alterem na hora, mas também não é justo desistir só porque existem limitações.
    Não vou estar obcecada com o kerning do logo para um cliente quando na imagem global, temos outros problemas a resolver para que no fim, o objectivo de dar ao cliente uma identidade que funcione para ele, esteja cumprido. Se tivermos a possibilidade de aperfeiçoar, apoio totalmente. A minha crítica é dirigida apenas aos que não conseguem livrar-se desse tipo de TOC, e julguem tudo à sua volta com base nisso.

    Se todos tomarmos a atitude que refere, então poucos serão os designers que irão realmente fazer algo pela sociedade.
    Eu não gosto que os professores continuem a modelar os designers como se fossem artistas quando eles próprios sofrem de problemas de auto-estima em que precisam de reconhecimento e, de terem o seu trabalho perfeito em termos de “design”, para sentirem que realmente são bons.

    Eu gostava que um dia, os designers fossem bons enquanto grupo, e olhassem para as necessidades da sociedade de uma forma menos egoísta e pseudo-artística.

    Hoje em dia, até da vontade de rir, a cambada de designers que saem da fbaup a pensar que não vão ser comerciais, vão ser experimentais e, diferentes de toda a gente.

    Já desde a formação, nos ensinam que um determinado estilo é o correcto e o mais apropriado, já desde então destacam os alunos que têm um certo “ar de design” ignorando os que têm ideias e trabalhos mais centrados na sociedade. Pelo menos, foi o que senti!

    Espero que em breve possa fazer um artigo mais profundo sobre isto e espero também não ter ferido susceptibilidades.

    cumprimentos

    ana pais

    • Não se trata de susceptibilidades, apenas de responder a uma linha de argumentação que tenho visto ser usada recorrentemente nas discussões sobre design e sobre cultura em Portugal, não apenas nos comentários ao texto anterior mas em discussões sobre arte, literatura, teatro, etc. Já o tinha feito em textos anteriores e tenho a certeza que voltarei a fazê-lo no futuro. Peço que não leves esta resposta como uma resposta pessoal ou que acredites que levei o teu comentário de modo pessoal. Apenas discordo de parte dele e disse as razões por que o fiz.

      De resto não se trata de defender um design experimental em detrimento de um design comercial. Nesse respeito, tenho visto qualquer um dos grupos descartar as preocupações com a tipografia, embora usando diferentes desculpas. No primeiro caso, alegando que um design experimental é experimental porque não se preocupa com esse género de coisas; no segundo caso, porque os clientes se estão nas tintas para isso e de qualquer modo não há tempo. Qualquer um dos pontos de vista é comodista.

  2. anapais diz:

    “No primeiro caso, alegando que um design experimental é experimental porque não se preocupa com esse género de coisas; no segundo caso, porque os clientes se estão nas tintas para isso e de qualquer modo não há tempo. Qualquer um dos pontos de vista é comodista.”

    Concordo plenamente.

  3. Se é certo que a trabalho de Rui Rio no planeamento das estruturas criativas foi perto de miserável também não podemos dizer que os seus antecessores fizeram melhor. Criaram-se infra-estruturas mas não se criaram estruturas humanas de excelência. A maior parte das pessoas que geriram e ainda gerem os meios que a Capital Europeia da Cultura trouxe ao Porto não conseguem conceber projectos sustentáveis ou socialmente pertinentes. Nessa gestão há excepções. Houve e há alguns projectos com pernas para andar (como o Digitópia na Casa da Música por exemplo) mas são muito raros. Podemos dizer isto em relação à autarquia, aos privados, aos de financiamento misto e aos orgãos estatais. Não é um problema próprio do Porto, é um problema nacional. Pelo que me parece prepara-se para acontecer o mesmo em Guimarães. Em Lisboa as coisas vão de mal a pior mas mesmo comparando com a capital de Portugal, o Porto tinha o trabalho facilitado ou não tivesse capital humano altamente qualificado pela Universidade e pelas outras instituições de formação profissional e não fosse uma cidade mais bem mais pequena, mapeável e focada.

  4. Jose Rui diz:

    Olá Mário! Eu entendo o que dizes e é verdade em praticamente todas as áreas. Um clássico é cada vez que ajuda uma instituição de protecção animal (ou no meu caso por exemplo desenvolver actividades em favor das árvores), aparecem sempre os santarrões a falar de tantas criancinhas com fome — aquelas que eles próprios nunca ajudaram na vida.
    O que concordo no post é que o mau design custa ou pode custar tanto ou mais que o bom design. O kerning do metro custou tanto como custaria fazer bem.
    O que não concordo é com o exemplo do Rui Rio, nem entendo que seja o mesmo. O Rui Rio fez as escolhas dele e assinalou o óbvio, que é que não há dinheiro para tudo. E nesse caso, tem de se ordenar as prioridades — e admito que o design fique pelo caminho muitas vezes por essa razão.
    Produção cultural vai existir sempre, mas a grande produção cultural, eventualmente institucional, privada ou pública, só surge em sociedades que têm capacidade financeira para a auto indulgência. Que não é o caso.

    • anapais diz:

      Ouço imensas vezes esse tipo de pessoas e acho que tens toda a razão sobre essa questão.
      Quanto ao que falei, formei-me na fbaup e, desde lá, senti que modelavam os designers para serem sempre eficientes sem sequer nos mostrarem que o mercado seria diferente e, dessa forma, continuamos a ver artigos publicados em torno do tema, sem abordarem sequer as condições em que trabalhamos, como se tivessemos de ser umas máquinazinhas que só produzem.

      Basta analisares o que te é pedido quando entras no mercado, quando na faculdade não tiveste uma única aula em condições sobre software de design, por ex.
      E tendo com base isso, porque não nos modelam para em grupo sermos capazes de por o ego de lado, tal como fazes a favor das árvores, outros grupos trabalharem para incapacitados e por aí fora? Se existissem grupos dedicados a algo e fossem bons no que fazem, teríamos trabalhos de grande qualidade, mas como o mercado exige designers transdisciplinares que sabem tudo e mais alguma coisa mas que no fundo, não conseguiram especializar-se em algo, que culpa têm? O sistema está errado desde início.
      Daí que volto a sublinhar a necessidade de pessoas como o professor possam pelo menos ajudar a instaurar este tipo de pensamento.
      Nunca disse que todos os designers têm de estar preocupados com causas sociais, mas sim que existam pelo menos alguns que o façam e bem, e sejam preparados desde a formação.
      Ensinam-te que o design deve distanciar-se da arte, mas hoje em dia não vejo nada disso.

      *** mais uma ressabiada 🙂

  5. realvst diz:

    Olá novamente! Quando um designer ou arquitecto se concentram no ínfimo pormenor e falham no seu conjunto isso é que é o mais grave. Comparar o minuciosismo dos azulejos (arquitectura) ao minuciosismo do kerning (design) é mais do que válido.

    Eu costumo ser um desses designer preocupados com a aparência final de um projecto. Observo ao pormenor textos, cores, alinhamentos, etc. Mas isso não acontece sempre. Normalmente depende do tempo que tenho disponível e do valor comercial do projecto. Por exemplo, se me pedem para fazer um folheto por apenas 5€ não vou dar o mesmo tratamento gráfico que daria a um flyer de 300€.

    O preço de um trabalho deve-se reflectir no próprio trabalho final, para que não hajam dúvidas quanto a esse mesmo preço. Até porque seria injusto para o cliente que me pagasse os 300€ vir a saber que um dia cobrei apenas 5€ por um trabalho com a mesma qualidade.

    No que diz respeito à Metro, uma empresa que provavelmente (não o sei, mas imagino que sim) pagará bons salários aos seus designers, acho que o rigor deveria ser levado à letra. E em todos os aspectos.

    • anapais diz:

      Completamente! O problema é querer que os designers sejam sempre eficientes sem saber em que circunstâncias trabalharam! Isso é que não faz sentido nenhum (e daí que tenha até abordado a questão de termos outras prioridades ou, nem sequer termos as condições para podermos dedicar-nos a aperfeiçoar o nosso trabalho) mas continua a acontecer e até mais vezes dentro da própria comunidade de design pelos próprios colegas que apontam o dedo.

    • Mais depressa imagino uma prestação de serviços a uma agência repleta de estagiários não-remunerados e falsos recibos verdes…

  6. […] tipográficos na rede de metro do Porto, um assunto que me levaria a escrever mais dois textos (este e este) e ainda um terceiro, já sobre o metro de Lisboa. A questão principal era uma […]

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