The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Fazer bom kerning pelos vistos é pecado

Na semana passada dediquei dois textos à tipografia das estações de metro do Porto usando-a como mote para demonstrar que um design de má qualidade cumpre, para algumas pessoas, a função de mostrar que nos preocupamos com coisas mais importantes. Continuamos a fazer design e a gastar dinheiro com ele, mas vamos desculpando a sua falta de qualidade porque há coisas mais importantes em que pensar. Por não ser essencial, o design torna-se assim negligenciável.

Ganhando consciência que o mau design é aqui um símbolo de moralidade, ganha-se também consciência que o design não tem grandes hipóteses num pais como Portugal – ou, em última análise, que um país como Portugal não tem grandes hipóteses. Haverá sempre uma actividade mais nobre ou um objectivo mais elevado que nos há-de impedir de fazer as tarefas mais simples com o mínimo de brio.

Mas, no fim de contas, um trabalho mal feito há-de ser sempre um trabalho mal feito, qualquer que seja a desculpa.

Se falo disto mais uma vez é porque me escandaliza sempre que exista gente que se escandaliza com o facto de eu me escandalizar com o facto de haver má sinalética no metro do Porto – um dos comentadores até disse que tinha vontade de me bater por partilhar esta opinião em público (não aprovei o comentário).

Mais uma vez, tentando explicar uma coisa que me parece simples: o metro do Porto é tido como um exemplo de rigor e pormenor na arquitectura mas, tal como já referi em outros textos, tem um conjunto mal resolvido de problemas de circulação e acessibilidade. Tem também problemas no modo como a sua sinalética foi concebida e mantida.

O kerning pode parecer um problema menor no meio disto tudo. Mas um designer ou um arquitecto ou um funcionário público – não faço ideia – foi pago para produzir esta sinalética, escolhendo as letras e colocando-as na parede. Tudo o que posso saber a partir do resultado final é que podia ter feito um trabalho muito melhor.

Há cerca de dez mil designers gráficos a exercerem em Portugal e muitos mais lá fora. Uma boa percentagem deles faria sem grandes problemas um trabalho melhor, com um kerning perfeito, pelo mesmo preço. O metro do Porto continuaria a ter todos os outros problemas, muito maiores, muito mais estúpidos (sem dúvida nenhuma), mas deixaria de ter este. Esses outros problemas ficariam por sua vez um pouco menores – muito pouco é certo –, simplesmente porque deixariam de ser usados como desculpa – e portanto como causa – para o desmazelo com que o design é feito aqui em Portugal.

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Filed under: Crítica, Cultura, Design

17 Responses

  1. agosto diz:

    é triste, mas realmente acho que não há espaço para o design em Portugal

  2. Nuno Mesquita diz:

    olha amizade, achas que dá para para me enviares por mail o comentário que não publicaste?

  3. anapais diz:

    Acho que este artigo é mais directo do que os outros no sentido em que toca numa questão bst pertinente, que é a questão das oportunidades.

    Isso sim, se de facto existe mau kerning ou em geral, mau design, nem sempre é porque alguém olhou para problemas maiores, podem ser simplesmente maus.

    Mas, o problema também pode passar por não ser um trabalho muito bem pago.. Se bem que não demoraria muito a tratar o texto, pelo menos aquele que mostrou.

    De qualquer forma, as oportunidades e os orçamentos andam muito mal distribuídos e eu, pessoalmente, não vou deixar que me explorem. E se for preciso descer o nível do que faço perante um baixo orçamento, assim o farei. Não há cá misturas.

    Penso que há uma diferença entre trabalharmos para nos sustentarmos e trabalharmos por paixão.

    “um dos comentadores até disse que tinha vontade de me bater por partilhar esta opinião em público” credo 😦 há gente mesmo parva.

    Continue a dar a sua opinião e não se preocupe com os trolls que gostam de meter abaixo tudo o que os outros dizem.

    *

  4. João S. diz:

    Olá Mário,
    Sou eu o “Troll”, outra vez!

    Parece ter havido um grande mal entendido, e faltando ao prometido vou ter de me explicar.

    Primeiro queria dizer-te que sou incapaz de matar uma mosca (qualidade tb comum em pessoas que prometem porrada a desconhecidos por estas vias). E se metaforicamente te prometi porrada foi porque um dia me revi naquilo que escrevias e resolvi acompanhar o “the ressabiator”. Agora não estava a espera que dedicasses o teu “tempo de antena” a fazer comparações entre a escola do Porto e tipografia. Sendo tu um tipo que regularmente escreve sobre design, estamos todos gratos que não escrevas sobre arquitectura regularmente.

    Passando ao que interessa se é que isto interessa a alguém:

    Não, não é pecado fazer bom kerning, e o fundamental do meu comentário anterior passou-te ao lado, assim como a importância do alinhamento de revestimentos cerâmicos! Não vou explicar agora como e quais as implicações, dos alinhamentos no design e na tipografia diferem em larga escala, na Arquitectura, tendo implicações superiores as suas qualidades estéticas.

    Uma questão hierarquia:

    Tens toda a razão, com um kerning perfeito o metro do Porto continuaria a ter todos os outros problemas mas deixaria de ter este (entendendo que é um problema, a falta de perfeição), isto é uma grande verdade!
    Assim seria realmente de esperar ouvir o seguinte da boca de um utente: “Ahhhh se ao menos o espaçamento entre caracteres no nome da estação estivesse milimetricamente aplicado eu até me esquecia que não consigo entrar na carruagem com a minha cadeira de rodas sem ferir o meu orgulho” talvez, nunca vamos saber não é Mário!
    De minha parte considero que enquanto não houver “comida na mesa” apreciar bom kerning é um luxo mesquinha e pequeno burguês.

    A mim não me escandaliza que existam pessoas que se escandalizam sempre que exista gente que se escandaliza com o facto de tu te escandalizares do facto de eu me escandalizar por haver pessoas que se escandalizam por tu te escandalizares ao ver má sinalética no metro do Porto, porque na verdade mais escandalizado fico por conviver com escândalos mais escandalosos do que estes escandalozinhos com que ninguém se escandaliza!

    Agora, a importância de se cumprir!

    Dizia o mestre Agostinho
    “Mestre de filosofia com mais saber e engenho meu gato mia.” A.S.

    Podíamos explorar ao máximo esta coisa da importância do design e a sua influência em outras problemáticas de relevo, e provavelmente concluíamos que se a mensagem for fraca não há kerning nem baseline nem pantone que nos valha quando a questão é apenas de sinalética dou a mão á palmatória e se não se consegue ler então admito um problema, (não me parece o caso no entanto…).

    Já agora quem é que no seu bom juízo considera brio um ornamento, ainda por cima desnecessário?

    Tive o cuidado de não escrever de modo demasiado ofensivo na esperança que desta me publiques, já que tens um blogue tão concorrido e eu gosto é de aparecer!

    Quando a tua anterior linha de argumentação não se aplica ao design então não se aplica ao kerning e assim a coisa muda de figura.

    O acordo:

    O Rui Rio é uma besta e até aposto que tu também serias capaz de o esbofetear se necessidade fizesse o monge.
    Apesar das nossas opiniões distintas eu não guardo rancor e espero ainda haver espaço para uma amizade, esquece aquilo que eu disse sobre não voltar a ler o teu blogue, eu sei o quão importante isso é para ti, haver pessoas com opiniões diferentes isto é!

    Escolhi este excerto de um dos teu 18 parágrafos sobre kerning para por em capslock e porque acho que dava um belo refrão para uma musica que espero um dia compor entendendo que se estiver bem formatada o seu conteúdo pouco interessa.
    “(…)vai haver sempre letras nas paredes de uma estação assinalando o seu nome.”

    Para a Ana, que parece estar escandalizada:
    Sim há gente parva!!

    Ps: Espero que este kerning esteja de boa saúde ! E já agora tens a minha permissão para enviares ao Nuno Mesquita o meu comentário anterior de outro modo também eu não o teria escrito. Aproveito ainda para te esclarecer que alguém com sotaque brasileiro é provavelmente um brasileiro! Achas mesmo que os ranchos folclóricos são de qualidade duvidosa?!? Eu não!

    Abç
    JS

    • anapais diz:

      lol. o comentário de facto é hilariante. espero que o mário possa aceitar comentários destes a toda a hora.

      O S. no teu nome é só porque tens receio de mostrar o teu apelido?

      Não sei o que escreveste antes, mas neste tiveste rel/ bem.
      gosto de pensar que fui eu que criei esta polémica toda. Faz-me bem ao ego. :p Não entendo é porque não falam sobre a minha grande proposta em formarmos grupos de design focados em coisas específicas. :
      O problema é virarmo-nos para um mercado que nos pede para sabermos java php flash design illustrator indesign photoshop e sabe-se lá mais o que, quando na faculdade não estudamos nenhum desses a sério.

      cumps*

    • Enquanto houver gente a “pôr pão sobre a mesa” com dinheiro ganho a trabalhar com letras, ou a alinhar azulejos, ou a varrer o chão, ou qualquer trabalho que seja, esse trabalho deve ser bem feito, não porque seja um luxo, não porque seja uma tarefa menor, mas apenas porque é um trabalho. É a isso que se chama profissionalismo.

      Ver lettering desmazelado num sítio público como o metro do Porto, significa apenas que, numa grande obra urbana, feita por arquitectos de topo, se pagou design de segunda, muito provavelmente a peso de ouro. É um caso simples e directo de gato por lebre, e uma demonstração de que quando alguém “põe pão sobre a mesa” fazendo um trabalho de segunda ainda há gente disposta a aplaudir a iniciativa.

      • anapais diz:

        Entendo o que diz mas para mim, por exemplo, é pouco profissional especular sobre as razões porque determinado trabalho ficou mal feito em vez de contactar a pessoa responsável para poder saber porque razão o fez e, assim, criar um artigo sobre isso, com mais fundamento…

        Não sei se costuma trabalhar nesta área mas, quando se está a trabalhar constantemente com clientes que desvalorizam questões como a do kerning e, como ninguém parece reparar nisso até fazermos algo mal, com o tempo essa ideia romântica de sermos perfeitos acaba por desaparecer.
        Obviamente acho que devemos manter a qualidade do nosso trabalho mesmo em condições mal pagas mas, com limites, acho que a questão do que é útil e necessário é relativa conforme a nossa área e conforme o conhecimento que temos sobre ela.
        Por isso volto a frisar que devemos ser coerentes com o que criticamos.

      • Na verdade, estava a responder ao comentário acima. Mas o problema continua a parecer-me o mesmo: o desinteresse dos clientes não deve afectar o trabalho dos designers. A qualidade do design de um sítio público serve como anúncio à qualidade do design produzido nessa cidade ou nesse país. É visto por uma série de pessoas a quem o design não diz muito e por um público especializado de designers potencialmente internacional. Para estes últimos, o metro do Porto será simplesmente um mau exemplo, na melhor das hipóteses rapidamente esquecido.

        Há – ou devia haver – uma diferença entre tentar ser melhor, mesmo correndo o risco de falhar, e nem sequer sair da cama e ainda cobrar ao cliente por isso.

      • anapais diz:

        Por acaso já esteve no metro de paris? Tente ir ver a sinalética lá e a quantidade/forma de linhas representadas. Não entendo porque o preocupa tanto o kerning do metro quando no mesmo metro, nem existem indicações de ruas com destaque o suficiente e nos locais correctos de forma a que eu saiba que saída devo tomar. (pode comentar o kerning, simplesmente não o compare com a arquitectura ou sequer pense que o designer é um mau designer por isso)

        Em S. Bento simplesmente fiquei sem saber por onde seguir. As indicações eram pequenas e muito longe do sítio onde saímos de escadas rolantes…Mais uma vez, é necessário focar em problemas maiores, por razões óbvias.

        Eu não entendo como é que consegue estar tão focado na teoria e deixar de lado a hipótese de quem realmente trabalha, não poder ser perfeito como diz pelas diversas razões aqui mencionadas por várias pessoas.

        Se não consegue aceitar que até os seus modelos cometem falhas e, ninguém é perfeito e, haverá momentos em que não terá tempo ou dinheiro para poder ser “perfeito” no seu trabalho, então acho que está mesmo a viver um nível meramente teórico onde não existe justificação para essas “falhas”.

        Note que eu também defendo um trabalho perfeito , aliás sempre o disse, quem me conhece o sabe, mas desde que comecei a trabalhar, notei que tive de abdicar de muita coisa bonitinha que eu dizia, porque a realidade é muito diferente do que se aprende em teoria.

        Não são desculpas, simplesmente não pode perder o mesmo tempo e dedicar-se a algo que é mal pago ou tem um deadline apertado, porqueacabará por perder tempo e dinheiro, e no final, tem contas para pagar, perde clientes e oportunidades, tudo em nome de ser um designer profissional? Não me parece. Se assim fosse, acredite que muitos projectos estariam bem piores porque os melhores designers estariam a tentar ser perfeitos em vez de resolverem as coisas com as ferramentas e tempo que lhe foram dadas deixando esses trabalhos serem resolvidos por maus designers.

        Acho que muita gente assim fica pelo caminho, a tentar ter tudo perfeito em vez de ver a imagem global e ser esperto.

        Quando existem condições, o profissional é aquele que tenta ser melhor no que faz.
        Mas quando não existem condições, acho que a pessoa que tenta ser perfeita em todos os aspectos, em detrimento de conseguir o melhor dentro das limitações, acho que é simplesmente burra ou sofre de um transtorno obsessivo-compulsivo ou é insegura.

        acho que este tema aqui já não tem pernas para andar…
        e os acessos estão mal construídos*

        cumps

      • Na verdade, o kerning é o mínimo que se pode pedir de um designer. Se não há paciência para ele, não haverá paciência para o resto. Tal como dizem os ingleses “Take care of the pennies, and the pounds will take care of themselves.”

        Quanto a haver metros com tão má ou pior sinalética como o do Porto, não me parece difícil. Faz parte da natureza das coisas: haverá sempre pouca excelência e muita mediocridade. Quando se quer melhorar escolhe-se a excelência como exemplo. Caso contrário diz-se: “Mas é assim em todo o lado.”

      • anapais diz:

        Concordo plenamente com o que diz, mas parece-me que está a entender mal o que aqui é dito que até vai de encontro ao que defende.
        Com certeza muitas pessoas adorariam tratar kerning, eu sou uma delas, mas tem dias em que é preciso criar uma marca em 1 ou 2 dias e por muito difícil que seja acreditar em mim, eu deixo o nome para o fim no caso deste não ser o elemento principal e o tempo para kerning é escasso, não é desculpa, é mesmo assim.Por ser perfeccionista, demoro mais. Se fosse só juntar letras a olho nu era rápido.

        Negaria um trabalho pago se soubesse que não teria tempo para tratar kerning?

  5. Cristina diz:

    Babo-me ao ler os posts. Obrigada.

    Concordo. As acessibilidades nem sequer deviam ser problemas. Se cada um dos profissionais, nas suas respectivas áreas, se preocupar com os seus pequenos problemas de forma séria o conjunto tornar-se-á melhor e deixará de haver espaço para ‘problemas maiores’ como as acessibilidades ou até a limpeza de espaços públicos, ou ainda a ‘arte’ de bem ensinar ou de fazer política.
    Encontro muitas vezes senhoras secretárias (digníssimas, acredito) a ‘paginarem’ em Word e PowerPoint orgulhosas de terem feito uma revista ‘muito gira, mesmo à moda’… Não lhes posso criticar a opinião, cada um tem a sua e somos livres de opinar sobre a nossa ou qualquer outra área, não posso é aceitar que façam um trabalho remunerado que não seja da competência delas.
    Eu, que gosto de medicina, vejo o discovery e até tenho jeito para fazer pensos, vou operar alguém.
    ou
    Eu, que sou desenhadora gráfica e até percebo umas coisas de geometria, vou dar aulas de GD

  6. Cristina diz:

    De facto, no meu tempo , era assim que se chamava. O designer é um título mais recente.

  7. Luís M. Inácio diz:

    A minha opinião, parcial, sobre alguns destes temas e mais, no meu post: http://designio2.wordpress.com/2011/01/24/design-economicamente-domesticado/

    Grande abraço

  8. […] na rede de metro do Porto, um assunto que me levaria a escrever mais dois textos (este e este) e ainda um terceiro, já sobre o metro de Lisboa. A questão principal era uma contradição […]

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