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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Tipografia? Gráfico? Ainda?

(via)

A discussão da semana passada sobre a importância (ou não) do kerning lembrou-me outras, em particular a da relação do design com a tipografia. Muita gente assume que a tipografia é um dos domínios naturais do design. No entanto, as coisas não são assim tão simples. Embora os designers gostem de acreditar que são os herdeiros de uma tradição tipográfica, tirando os especialistas e os obcecados, poucos designers dedicam mais do que uma distância informada a este assunto.

Uma razão para isso é simples e técnica: a maioria do conhecimento básico de tipografia está embutido nos seus computadores. Com um pouco de esforço, o InDesign consegue resolver rapidamente problemas dos quais só os mestres mais experientes conseguiriam dar conta no tempo da tipografia de chumbo. Mesmo questões de refinamento estético podem ser arrumadas rapidamente ligando o alinhamento óptico e não pensando mais no assunto. Para fazer design competente mas corriqueiro, não é preciso mais do que juntar um bom programa de paginação a uma boa fonte, ela também um pedaço de software onde milhares de pares de kerning pré-definidos impedem o designer inexperiente de fazer demasiadas asneiras.

Os optimistas dirão que nunca houve tantas ferramentas para fazer boa tipografia; os pessimistas que já ninguém precisa de pensar sequer em tipografia. Naturalmente, os dois lados têm razão, embora em proporções distintas (e favorecendo os pessimistas – como de costume, feitas as contas, haverá sempre menos coisas bem feitas).

Os tradicionalistas dirão que se perde assim toda uma ligação mais directa entre o design e a tipografia, mas na verdade, tirando os especialistas e os obcecados, nunca houve uma ligação mais directa entre o design e a tipografia. É em grande medida um mito. Se hoje os designers se dedicam na sua grande maioria a gerir com desprendimento o software dos seus computadores, nos velhos tempos dedicavam-se a gerir com o mesmo desprendimento o trabalho das gráficas. Na melhor das hipóteses, fazia-se uma maqueta mais rigorosa dos cabeçalhos ou do texto de um logo, mas a maior parte do trabalho de composição era deixado aos tipógrafos.

Depois do computador, e mais uma vez tirando os especialistas e os obcecados,  as gráficas tornaram-se numa impressora jacto de tinta gigante, para onde se manda o ficheiro e se vai buscar o produto final passado algum tempo. Se sempre houve uma separação de tarefas entre designers e gráficas, actualmente os próprios designers insistem em separar bem as coisas: mesmo a expressão “designer gráfico” é rejeitada em favor do “designer de comunicação”, que já parece mais apto a lidar com as novas tecnologias, a internet, o vídeo, etc.

A tipografia e o design gráfico tornaram-se assim especializações dentro do design de comunicação, escolhidas pelo interesse pessoal do designer ou impostas pelo mercado de trabalho. Ganharam uma certa conotação tradicionalista[1]. Passaram a ser um género como o romance de terror ou o filme de gangsters.

Infelizmente, isso leva a que o cuidado com a tipografia se vá tornando numa opção de luxo, reservada para as melhores ocasiões ou para os melhores clientes. Assim, pode-se escolher entre o kerning, as preocupações sociais, ou a rapidez de execução, mas vai-se deixando de poder ter os três ao mesmo tempo.

Pessoalmente, acredito que o cuidado com a tipografia é a pedra de toque do design de comunicação, aquilo que me permite apurar se tem boa qualidade ou se é apenas um sucedâneo banal. Não é a única, mas é talvez a melhor maneira de julgar a competência básica de um designer – afinal, se um designer, seja ele gráfico ou de comunicação, não se preocupar com o bom uso das letras e dos caracteres, é muito pouco provável que mais alguém o faça. A tipografia faz parte daquilo que os ingleses chamam “craft” e que poderíamos traduzir por uma certa competência a fazer uma tarefa física, concreta, com laivos estéticos – não apenas habilidade mas uma habilidade educada, informada e treinada. É isso que vai faltando ao design – uma certa capacidade de acabamento.

Este lado físico que se vai perdendo não se limita ao papel ou à sinalética, mas afecta os ecrãs dos Macs, dos iPads e dos iPhones – também aqui só os especialistas e os obcecados sabem o que estão a fazer. Também aqui o acabamento tende a ser fraco.

Infelizmente, a perda deste lado concreto tem as suas vantagens para alguns. A ideia do design gráfico como um princípio genérico, que pode ser aplicado a todo o género de objectos, conceitos ou ideias tem a sua utilidade e – certamente – a sua ambição. Pinta o design como algo vagamente estético, vagamente funcional – no fundo, um estilo de organizar coisas, que é como quem diz: de gestão. Algo que encontra o seu lugar nas prateleiras das estantes dos livros de gestão, que o “design thinking” partilha de modo mais ou menos confortável com os livros de estratégia de Sun Tzu e Clausewitz, as generalizações entusiasmadas de Malcolm Gladwell ou parábolas empresariais como “Quem Mexeu o Meu Queixo?”

A última década foi empresarial e não admira que muitos designers se tenham reposicionado como gestores. Muitos já o eram através das suas firmas, ateliers e agências, mas com a viragem empresarial do ensino que acompanhou Bolonha e a sua ênfase no auto-financiamento das instituições académicas, estas começaram a comportar-se cada vez mais como empresas. Assim, instalou-se no mundo universitário uma espécie de estilo Manuelino da gestão, onde chavões como a investigação aplicada, a inovação e o próprio design fazem o papel dos cordames, dos nós e das âncoras. Nada de substancial, apenas uma espécie de jargão decorativo para mostrar que se está à altura dos tempos – e que é passado aos alunos como se fosse uma lei da física.

No caso do design é até possível argumentar que sempre teve a ver com gestão – inclusive que sempre foi gestão (do trabalho produzido nas gráficas, por exemplo). Mas a grande pergunta é: quais são as competências do design considerado como uma forma de gestão? E aqui voltamos ao tal lado concreto, visual e táctil da linguagem. Se isso não estiver assegurado, mais vale – para evitar embaraços – que se comece a chamar gestão ao design.

A mim, pessoalmente não me incomoda muito que os designers exerçam gestão, saibam programação ou se dediquem a fazer coisas próximas da arte. Incomoda-me que o façam com má tipografia. Não o digo por tradicionalismo, mas porque em nome de um certo voluntarismo interdisciplinar e de um certo empreendedorismo pragmático se foram esquecendo algumas coisas básicas, como o cuidado quotidiano com a tipografia – que não entendo aqui como um conjunto de regras estáticas de boas maneiras, mas como uma consciência activa e crítica do modo como as palavras e os signos se comportam, de como interagem com imagens e tecnologias. É esse lado necessariamente visual, táctil – esse “craft” –, que se foi perdendo, e é assim que o design vai perdendo o seu lado gráfico.


[1] Pelo menos em Portugal; nos países anglo-saxónicos “graphic designer” ainda é a norma.

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Filed under: Crítica, Cultura, Design, Tipografia

15 Responses

  1. ap diz:

    Boa noite,

    Não entendi muito bem a sequência de pensamentos que escreveu aqui.
    Parece-me generalizado…
    Eu por exemplo, peguei em caracteres de chumbo por iniciativa própria para trabalhar kerning, numa aula na faculdade em erasmus, quando nos foi pedido que criássemos o nosso nome para depois imprimir…
    A diferença entre mim e os colegas nessa altura foi por ter perdido o tempo da aula a tentar ter o espaço perfeito entre caracteres, atitude que foi elogiada pelo professor, pessoalmente.
    Mas isto não quer dizer que todos tenham de o fazer ou possamos fazê-lo sempre, como já lhe disse. Nem sequer significa que eu tenha agido correctamente.
    Existem ocasiões em que não se pode ser perfeito, e basta que aprofunde um pouco mais sobre a área de que fala, para encontrar as respostas de que necessita.

    Por fim, kerning é muito importante sobretudo quando perturba a legibilidade e existem casos em que não só o kerning, mas o tracking ou o texto justificado, podem perturbar a leitura de informação por parte de pessoas que sofrem de dislexia, por exemplo. Talvez esteja a deixar-se levar pelo facto de o kerning ser algo óbvio (talvez não seja a melhor forma de o descrever) sobretudo em logótipos e sinalética mas quando é num texto corrido etc, já é mais fácil ignorar. No entanto é na mesma kerning, certo?
    Também pode estar a deixar-se levar pelo facto de considerar kerning como um tratamento especial proveniente de tipógrafos excelentes no passado já que estes passavam mais tempo dedicados a uma só coisa de cada vez, no entanto os tempos mudaram e não venham com histórias de que antes é que era. Se essas pessoas estivessem aqui e agora, tentariam ser tão exímios quanto antes com as novas tecnologias, mas quando vissem que para além disso, teriam de se multiplicar entre tipógrafos, gestores, criativos, e sabe-se lá mais o quê, talvez não fossem perfeitos a tempo inteiro.

    No entanto, e sem contradizer-me, acho que deviam haver especialistas, pessoas ou grupos a trabalhar em algo específico. Não sei se é problema do mercado ou se é uma atitude preguiçosa e comodista ou preocupada por parte dos designers.

    Arrangement foi propositadamente mal escrito deduzo.(?)

  2. Especialização é algo que parte da personalidade de cada designer. Por exemplo, nunca trabalhei de forma profissional (para um cliente) em fotografia ou vídeo. No entanto, já tive de emplementar um número infinito de fotografias e vídeos em revistas, jornais, folhetos, websites, etc. etc.
    Com a tipografia passa-se exactamente o mesmo. Apenas criei um tipo de letra, até hoje. E nunca mais pensei no assunto, até porque os tipos de letra abundam na actualidade. E o tempo é escasso…
    Assim que saímos de um curso universitário, a primeira coisa a fazer é procurar emprego. Depois de o conseguirmos vamo-nos mantendo actualizados, tanto em termos de cultura gráfica (importante) como em termos de software (importantíssimo). Não estou a dizer que o design com o passar do tempo se tenha reduzido ao software (seria ridículo) mas o software mais recente alarga em muito os nossos horizontes, tornando mais fácil a realização de um qualquer projecto de design. Pessoalmente, tenho andado a testar as novas técnicas de Gradient Mesh e de modelação 3D. Penso que será o futuro (ou melhor, o presente da ilustração. Um cartaz que irei realizar daqui a duas semanas está dependente disso! Mas o Kerning é pura e simplesmente a cereja em cima do bolo! Apenas os apaixonados pelo design lhe dão o real valor… nos momentos certos. Seja na criação de logos, seja no texto corrido mais comum!
    Mas tudo depende do projecto que estamos a desenvolver. Há projectos que não respeito nem sequer em termos de composição. São trabalhos para o “trash”… mas é assim que por vezes temos de ser. Damos valor q quem nos dá valor (economicamente falando, não ligo nenhuma a um flyer que me dará 2 euros).
    É um bocado isso que temos vindo a ver no nosso país. Por aqui e por ali vemos grandes trabalhos de design, imagens corporativas muitíssimo bem elaboradas, ao lado de trabalhos sem qualquer valor. A segunda ocorrência é o que se vê na generalidade. Basta consultar a internet e ver trabalhos pessoais de designers portugueses que são muito bons no que fazem, mas que na prática profissional isso não se comprova. Simplesmente porque a vida profissional é feita de “filtragens” de projectos. Apenas damos o devido valor aos projectos que realmente merecem esse valor. Já para não falar no facto de grande maioria das empresas ser gerida por pessoas “não designers” que querem sempre as coisas à sua maneira (e de preferência com rapidez) fazendo com que os trabalhos resultem em papel de decorar o chão das cidades e os caixotes do lixo. Aí, o designer não pode fazer nada.

  3. Cristina diz:

    Continuo a chamar-lhes espaçamento e entrelinha…
    Já o pagemaker na versão 1.0 permitia que fossem manipuladas.

  4. Ana Bárbara Sousa diz:

    Olá, bom dia

    A gestão do design “existe” e este é o primeiro livro traduzido para português sobre a matéria:
    http://www.fnac.pt/Gestao-de-Design-Kathryn-Best/a321571

    Segundo Rachel Cooper (2009), “a gestão do design é uma disciplina em movimentação contínua, que se altera, responde e adapta ao constante aumento das dinâmicas sociais e transformações empresariais. O seu valor como força de mudança e forma de pensar tem vindo a crescer em potência, alcançando muito além do reino da indústria e do comércio (…)”

    À luz do ‘design thinking’, um gestor de design deverá ter a capacidade de moldar as decisões e operações empresariais, identificando e analisando quais os problemas ao nível dos sistemas, influenciando criativamente indivíduos-chave dentro da organização. Sempre que possível. ^_^

  5. luismoreira1965 diz:

    Caro Mário

    Que pena não ter conhecido este blog há mais tempo. Graças a um colega meu já cá ando a ler os seus desabafos. Sobre este tema recomendo uma olhadela a um post do meu blog
    http://design-city.blogspot.com/2011/01/kerning-ou-espacejamento-entre-2.html
    Ter cuidado com os pormenores não é uma “esquisitice”: é o que distingue os bons dos outros.

    • Boas! Acabei de colocar um comentário no teu blog, chamando a atenção para a pouca importância que os novos programas de edição têm dado ao kerning… Aqui fica o meu post:

      O pior programa para se trabalhar com o Kerning:

      Corel Draw

      O melhor programa para trabalhar com o Kerning:

      Freehand (isso mesmo… o antiguinho e desactualizado freehand)

      O melhor programa fazer trabalhar o Kerning de forma automática, normalmente dá jeito em textos longos, livros, revistas, jornais…

      InDesign

      Mas parece que com o tempo, os novos programas que vão surgindo no mercado já nem dão para trabalhar o Kerning. E se dão é necessário procurar muito pelo tool, que anda escondido algures num sítio do programa que nem terá a ver com tipos de letra. hehe

      • E há ainda outro método (lembrei-me agora) e que já utilizei diversas vezes. Trabalhar o kerning com o texto convertido para curvas. lol

        Ou seja, seleccionar as letras uma a uma e afastá-las ou aproximá-las das outras letras… Mas que trabalheira! 😐

  6. Dublado diz:

    Muita gente no Brasil procura o conteúdo exposto aqui, você é o que há!

  7. Má tipografia é tipo má nota musical, ou má cor. Nenhum tipo de letra é mau. 🙂
    Nem a comic sans:
    http://eurosom.blogspot.com/2011/01/i-todja.html

    • Li algures há uns anos atrás que a comic sans é a fonte mais utilizada em todo o mundo, segundo as estatísticas. A grande maioria dos seus utilizadores não são, evidentemente, nem tipógrafos nem designers mas sim a maioria da população, na generalidade utilizadores do Word e programas similares. 🙂

  8. […] Há uns textos atrás, lembrei (mais uma vez) que o designer não é um descendente directo do tipógrafo mas, usando uma analogia biológica, uma espécie concorrente que veio ocupar o mesmo nicho ecológico. A minha intenção era demonstrar que, em actividades como o design – e como diria o avô Hilton à neta Paris –, não basta reclamar uma herança para ser um herdeiro. Não basta dizer que se adora o kerning, se delira com ligaturas e debitar terminologia especializada como “levar à massa”; é preciso que isso  dê resultados. É necessária uma preocupação activa, diária, constante com a tipografia. Dentro do design, e tal como já tinha dito no texto anterior, essa preocupação é cada vez mais uma especialização, reservada aos designers de tipos, de software e a uns quantos cromos que, por coincidência, também costumam ser os melhores designers – embora nem sempre os mais conhecidos, pelo menos em Portugal. […]

  9. […]  a outras áreas profissionais. São particularmente interessantes as relações do design com a tipografia, ligações que se crêem directas e suaves, mas que um exame mais atento revela […]

  10. […] com esta linhagem descontínua entre tipógrafos e designers, conforme já defendi em mais do que uma ocasião. Só acrescentaria que o design actual tem também os seus antepassados no campo do […]

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