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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

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Há cada vez menos tempo para desenvolver investigação sobre história do design e calculo que haverá ainda menos tempo no futuro. Num artigo recente no Design Observer, Rick Poynor põe o dedo na ferida: as cadeiras de história do design tendem a ser periféricas dentro da estrutura dos cursos. São cadeiras de exposição, em geral curtas, até duas ou três horas semanais, na maioria dos casos semestrais. Para um docente universitário ter um horário completo precisa de uma média anual de cerca de nove horas de aulas por semana – em geral mais que isso. Uma cadeira prática com duas aulas por semana, sobretudo se for anual, completa este horário sem grandes problemas; uma cadeira teórica semestral nem chega para começar a encher o fundo de um horário.

Pelo que tenho visto, a tendência é um professor que se especialize em teóricas dar seis ou sete cadeiras por ano, por vezes mais. Se ainda estiver a dar aulas num ou dois mestrados que abrem ano sim ano não, pode ser responsável por oito ou nove cadeiras diferentes. Se tiver sorte, dá-as na mesma escola; caso contrário, vai andar a viajar pelo país fora só para conseguir um salário que se possa comparar ao de um colega das práticas.

A isto juntam-se as inevitáveis orientações. Com os novos mestrados, de teses mais curtas, produzidas ao longo de apenas um ano, poderia ficar-se com a ideia que as orientações se tornam mais fáceis, mas com  os prazos mais curtos, em geral polvilhados de apresentações intercalares, onde todos os alunos têm de apresentar trabalho ao mesmo tempo, torna-se comum ter de ler mais de meia dúzia de teses – em geral mais – ao mesmo tempo, três ou quatro vezes ao longo do ano. Ou seja, dada a quantidade de alunos e os prazos apertados, as teses mais curtas não garantem um trabalho mais fácil, antes pelo contrário. Para mais, em muitas instituições as orientações nem sequer contam para a carga horária do professor. Ou seja, são trabalho feito de graça que, na melhor das hipóteses, só conta para o currículo.

Por tudo isto, as teóricas vão começando a ficar cada vez mais parecidas com as práticas. Em alguns casos, põe-se os alunos a fazer a investigação e a apresentar a matéria. Em outros, divide-se a cadeira em seminários dados cada um por um convidado. Cada uma destas opções dá muito menos trabalho do que preparar realmente a quarta ou a quinta cadeira semestral. Como bónus, este esquema dá um ar mais prático às aulas, mas a experiência de um curso tende a ser, para professores e alunos, a de um zapping infinito de aulas de curta duração que só por coincidência colam umas com as outras.

Mas falar de zapping é neste caso quase injusto, tendo em conta que, nos últimos anos, a série de televisão tornou-se uma forma cada vez mais respeitável de narrativa de longa duração. É irónico que sejam neste momento formatos como a televisão (vista na TV, em DVD ou na net) que suportam os formatos longos. O ensino das artes dedica-se à rapidez e ao deficit de atenção. Ter tempo para ler durante o ano lectivo é cada vez mais um luxo, tanto para professores como para os alunos.

Tudo isto para dizer que a teoria ou a simples reflexão precisam de condições materiais para ser exercidas. Neste momento, isso não existe. Assim, fazer as coisas devagar, não ceder aos prazos que são impostos arbitrariamente, só porque parece eficiente ter prazos, é um acto de resistência – contra o torvelinho irreflectido de Bolonha, parar.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Ensino

5 Responses

  1. […] tinha escrito sobre o assunto há uns meses, mas infelizmente ainda vale a pena voltar a falar dele: das coisas mais desastrosas do ensino […]

  2. carlos b diz:

    estou a ver que continuaste a reflectir (e agora lá vou eu tentar acabar mais umas correcções de frequências)

  3. carlos b diz:

    ok, acabei de reparar que o post é de janeiro de 2011, ahah e não de janeiro de 2013… leituras em diagonal

    • Esqueci-me de assinalar que era um texto antigo no fb.

      • carlos b diz:

        pois, vinha tanto na continuação da conversa do outro dia, que quando o li, nem reparei na data, só achei estranho quando não estava nos mais recentes (isto sem pensar que ainda nem é 31… esquece, isto já não dá mais)

        mas é contemporâneo ainda… infelizmente

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