The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Inovação…

Divulgou-se esta semana nos jornais que Portugal lidera nos rankings de Inovação, mas que essa subida ainda não se traduz em resultados económicos concretos. Não me admira. Para explicar porquê, talvez ajude recordar uma história que se passou comigo.

Em 1998, comecei a tirar um mestrado em “arte multimédia”, uma parceria optimista entre as Belas Artes, a Faculdade de Engenharia e a de Ciências da Educação. Não foi uma boa experiência. A ideia nem era má, nem sequer nova: a tentativa de ligar as artes, as ciências computacionais e a pedagogia ecoava iniciativas semelhantes nos Estados Unidos dos anos 60 e 70, que acabariam por dar origem ao computador caseiro e à cultura digital dos dias de hoje. Décadas depois, no final dos anos 90, essas experiências já pareciam um pouco datadas, mas a sua recuperação parecia plausível numa altura em que a net ganhava popularidade, apenas cinco anos depois do lançamento do Mosaic em 1993, o primeiro browser mais acessível ao utilizador comum. Começava a ser possível realmente “navegar” e enviar mails sem saber o que quer que fosse de programação.

Assim, quando concorri ao mestrado pouco entendia de computadores ou de programação. Comprei o meu primeiro Mac já inscrito no mestrado, com o dinheiro do prémio de um concurso de BD. Era um iMac de primeira geração para o qual ainda não havia sequer acessórios que permitissem gravar informação para fora do computador. Nem drive de disquetes tinha.

Quando as aulas começaram, os banhos de água fria foram-se sucedendo: a ligação entre as artes e a programação falhava em toda a linha. Do lado das artes, não havia muita vontade (ou capacidade) de aprender o que quer que fosse de programação; do lado da engenharia, reinava o preconceito que o design era apenas mudar a cor da letra para cor-de-rosa e cobrar por isso. As discussões eram tantas que ao fim de duas semanas já se tinha optado por turmas separadas em algumas cadeiras.

Entretanto, íamos aprendendo HTML básico, Flash 2 ou 3, e mais alguns programas dos quais nem me consigo lembrar e que se resumiam a programação muito básica através de botões de navegação – tivemos uma aula dedicada ao Powerpoint. Alguns colegas mais desesperados faziam os sites usando a opção de gravar em HTML do Word.

Em casa, vasculhando CDs de Software descobri a versão 4.0 do Director, que parecia ter mais possibilidades que o Flash (era possível pôr um objecto a seguir o rato e, salvo erro, podia-se com algum esforço mudar a forma do cursor). Descobri que não era muito diferente da programação Basic do velho Spectrum. Rapidamente, comecei a fazer os meus próprios programas – dessa fase, ainda tenho algum orgulho num motor 3D rudimentar que fiz a partir da trigonometria do secundário que alguns anos de Belas Artes não tinham conseguido apagar totalmente.

Saltei facilmente do Lingo do Director para o Java e para o C++, fui-me entusiasmando com o Perl e o Python. Comecei a experimentar o DBN, que se iria tornar muito mais tarde no Processing (que na altura ainda se escrevia com cincos em vez de esses). Aprendi o cálculo diferencial suficiente para compreender equações de movimento; fascinei-me pelos sistemas emergentes e linguagens de programação como o Starlogo. Para conseguir fazer impressões vectoriais das minhas aplicações sem ter que recorrer a um PrintSctreen aprendi PostScript. Fiz um compilador que gerava fontes, inspirando-me no trabalho dos Letterror.

Admirava sobretudo o trabalho de John Maeda, que parecia não estar sujeito às limitações normais dos programas com os quais eu era obrigado a trabalhar. A interacção dos programas de Maeda era fluida e inventiva, sem estar partida por ecrãs ou presa apenas a botões e menus de navegação. O seu trabalho e a sua ligação afectiva ao design gráfico do modernismo americano e a Paul Rand em particular davam a entender uma passagem directa entre design e programação.

Infelizmente, por aqui as coisas não eram nem fluidas, nem inventivas: era costume dividir-se as tarefas entre o designer que decidia e projectava e o engenheiro que executava. Dizia-se regularmente que a programação nunca poderia ser uma arte, porque tudo era exacto, previsível e sem margem para a criatividade – na altura, parecia-me tão absurdo como dizer que a pintura não podia ser uma arte porque os pigmentos se combinavam de acordo com as leis da química ou que a música era uma coisa fria porque os sons obedeciam à acústica. Mas a coisa era dita e redita como se fizesse sentido.

Ou seja: tinha aparecido uma tecnologia nova, que vinha potencialmente subverter as hierarquias do costume. As artes e o design tradicionais vinham bater territorialmente o peito em relação aos recém-chegados fazendo-lhes ver que nunca poderiam assumir uma posição de liderança: os computadores eram uma tecnologia e quem lidava com eles seria apenas um técnico, sem acesso directo à imaginação ou à criatividade.

O mesmo se passava com a crítica e filosofia, que procuravam a todo o custo “compreender” os novos media, usando em larga medida ferramentas conceptuais desactualizadas e de aplicação limitada, criadas para lidar com a rádio, a televisão e os jornais (McLuhan, por exemplo). Boa parte da produção teórica da época era feita por pessoas que falavam da alienação das novas tecnologias, da net e dos jogos de computador, longa e profundamente, sem sequer alguma vez se terem dignado a tocar num jogo de computador – seria o mesmo que fazer uma carreira na crítica literária académica sem nunca ter aberto um livro, mas declarando que “já tinham visto o filho de cinco anos a brincar uma vez com um”.

Resumindo, não havia muito espaço para – ao mesmo tempo – falar sobre computadores e saber usá-los. Era uma coisa relegada para um tipo especial de obcecado entalado entre as superfícies abrasivas da arte e da técnica, descriminado igualmente por engenheiros e designers. Nem sequer podia aspirar à interdisciplinaridade, que na época era reservada às aspirações que algum design tinha de conseguir saltar a fronteira para o lado da arte – que, ironicamente, dedica aos designers, sobretudo os mais “interdisciplinares”, o mesmo desprezo que estes dedicam aos técnicos.

Tudo isto foi um bom exemplo de como uma nova ideia chega a uma sociedade periférica como a portuguesa, hierarquizada ao extremo, imobilizada verticalmente por uma clivagem baseada em larga medida na “antiguidade” – ter nascido primeiro é mérito q.b. – e horizontalmente por um corporativismo possessivo e agreste, onde um arquitecto mal pode fazer design, cinema ou arte; um designer não pode fazer arte ou música e nenhum dos dois pode intervir publicamente sobre política. A nova tecnologia é coada através desta grelha social e reinterpretada de modo a que as velhas hierarquias mantenham essencialmente a sua posição habitual de gestão.

Em 2003, defendi a tese. O discurso começava a mudar e já se ia aceitando a programação dentro das artes, embora a custo. As mesmas pessoas que recusavam poucos anos antes a ideia do programador como artista até já começavam a tentar perceber a coisa. Para mim, era tarde de mais. Já tinham passado dez anos desde os começos da net moderna, que Portugal tinha usado para perder mais um comboio, com o rigor e a pompa com que os costuma perder, vendendo inclusivamente bilhetes para o evento como se de uma festa se tratasse. Um ano depois de defender a tese deixei pura e simplesmente de programar.

Mas voltando à inovação. Não me espanta que não dê dinheiro: ganhar dinheiro e inovar são duas competências distintas, feitas por pessoas distintas que ocupam hierarquias distintas dentro da sociedade portuguesa, tal como gerir e fazer, criar e executar.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Ensino

6 Responses

  1. Pessoalmente acho que o design e a programação são conciliáveis. No entanto sou um bocado contra o designer “ter de” aprender programação. Passa-se um bocado isso comigo actualmente. Um cliente meu fez-me uma proposta: criar sites para ele com programação e tudo. Coisa que eu não fazia até agora. É que actualmente surgem-lhe muitos designers que são simultaneamente programadores e que lhe cobram o mesmo que eu mas fazem os sites completos, com programação e tudo. Agora, ele quis fazer um teste a ver se consigo dar conta do recado e, além de ter de aprender a mexer no html, xml, css, php, ainda tenho de aprender joomla e a montar um servidor em casa. Bem, para ser sincero fiquei estupefacto. Fazer sites em flash para mim é simples (se não forem muito interactivos), mas agora ter de aprender joomla…

    Até agora, eu tinha feito apenas os layouts e Photoshop e uma vez ou outra ia fazendo sites completos em flash.

    Essa exigência só me vai atrapalhar a vida profissional de designer. Porque entretanto surgiram novos programas de edição e os que já havia evoluiram bastante. Resultado: além de eu ter de aprender a trabalhar com o Gradient Mesh do Illustrator e o 3D do Photoshop ainda tenho de aprender Joomla. Isso, já para não falar no tempo que tenho disponível para trabalhar (e ganhar dinheiro). Só para dar uma ideia, o meu mês de Janeiro foi um autêntico desastre a nível económico, porque passei o tempo todo a aprender (de forma autodidacta) programação web. Mas sinceramente estou a repensar no assunto e acho que sou capaz de mandar o cliente ir visitar o pacífico Egipto, ou talvez manda-lo para o calor da Austrália.

    Quanto a inovação, Portugal possui empresas muito conhecidas no estrangeiro mas que pelo nosso país são desvalorizadas. Por outro lado, o que é Inovador em Portugal é muito pouco valorizado pelo público geral. (vê-se o que aconteceu com o Tron, que foi extinto dos cinemas poucos dias depois de ter estreado nos cinemas). Acho que um jogo sobre usinas eólicas não é lá muito grande atractivo para as crianças portuguesas… E no estrangeiro os brinquedos menos inovadores já são mini viaturas tripoláveis e telecomandadas à distância…

    Para que uma inovação faça sentido em Portugal, teremos primeiro de mudar a cultura e o estilo de vida dos portugueses, assim como a nossa carteira.

  2. Situr Anamur diz:

    Ainda se confundem inovação com Magalhães e banda larga em todas as casas. E depois vamos ver, temos um cartão de cidadão high tech mas que não tem o número de eleitor e etc.

    Cabe aos designers também saberem fazer essa distinção entre a inovação aparente com a vertigem pelo gadget, e a inovação real que muda culturalmente a nossa maneira de ver e de interagir com o que nos rodeia.

  3. tfncruz diz:

    As linguagens de programação são uma ferramenta assim como o grafite, os recortes e colagens, a tinta da china, o Photoshop, o Maya, etc… São recursos semióticos que servem a construção de discursos. Programar é uma arte e aquilo que é produzido com esta ferramenta é igualmente arte. Assim como o desenhar e o desenho. Não vejo argumentos possíveis que possam abalar este raciocínio. Podem-se fazer coisas interessantíssimas com esta ferramenta, em particular ao nível do design de interacção onde está em causa a criação do comportamento de um produto.

    No passado, enquanto estudante, e agora com os meus alunos, noto uma resistência muito grande à programação. Pessoalmente penso que qualquer designer que esteja envolvido na criação do comportamento de um produto, serviço ou ambiente, “tem de” aprender a programar. De outra forma, o comportamento de produtos interactivos será sempre explorado a níveis bastante básicos de interacção.

    Parece-me que a resistência está associada à forma como se ensina programação a designers. Apesar de não ser a minha área de docência, penso que quando começarem a surgir designers a leccionar programação a estudantes de design as coisas poderão começar a mudar.

    No seguimento do comentário do João Alves Marrucho, deixo aqui duas obras muito interessantes relacionadas, directa e indirectamente, com estas questões: “Cultura da Interface” e “Tudo o que é mau faz bem”, ambas de Steven Johnson.

  4. isa diz:

    Sem dúvida o design continua corporativista e em contínuo processo da renovação da corporação. Promovendo a mediocridade e despromovendo o espírito critico. Dizem que o nosso português desconforto com a critica se deve a uma certa predisposição mediterrânica…. ( o ressabiator é uma pedra no charco…)

    Em dez anos mudou-se o discurso para permitir uma certa continuidade… nos quadros das escolas.

    Tudo continua igual, excepto! digamos, o facto dos professores serem obrigados a prestar provas públicas (com os doutoramentos que não terminam…) os obrigam a expor à sociedade civil a sua ignorante arrogância, a conspiração no acesso a quadros universitários, etc.

    Uma visibilidade que pode ser um sinal positivo.

    Só lamento que tenha deixado de programar. Sinto que terá de partir do Design esse desejo de interdisciplinaridade (palavra maldita para o corpo…)

  5. Sérgio Catumba diz:

    Li este aqui ontem, li outro ali (http://autoridadenacional.blogspot.com/2011/02/propaganda.html) hoje e lembrei-me deste novamente. Sobre Inovação, claro está.

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