The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Entre a lei e a ética

“it’s legal” is what people say when they don’t have ethics. the law is there to set the limit of what is punishable (aka where the state needs to intervene) but we are supposed to have ethics, and that should be the primary guiding force in our actions, you fucking fuck.

LCD Soundsystem (via)

Uma das coisas que me irrita mais é o conforto com que muita gente vive entalada naquela nesguinha apertada entre a lei e a ética. É lá que fica a Chicospertilândia, um país com lei, constituição, governo e polícia, mas onde a ética pura e simplesmente não existe.

Quando era mais novo e optimista, acreditava que o Chico Esperto era praticamente um criminoso, praticamente um fora-da-lei, mas, pelo contrário, os melhores exemplares conhecem a lei a fundo, melhor até do que alguém mais ético do que eles – afinal o seu melhor argumento, o seu lema, é “Mas não é ilegal!”

Não lhes interessa muito que as suas acções sejam desleais, traiçoeiras, nocivas ou perigosas, apenas que são praticadas dentro da lei. Para eles, a ética é aquele conjunto de preceitos úteis que impedem os outros de fazerem a mesma coisa que eles. É essa capacidade para operarem acima da lei mas abaixo da ética que lhes dá a sua vantagem sobre o comum dos mortais.

Curiosamente, uma pessoa com ética pode até, pelos seus princípios, infringir a lei, sendo julgada e condenada por isso – são bons exemplos disso os movimentos de luta pelo voto das mulheres, pelo fim da discriminação racial ou da ditadura. Todos eles começaram por ser acções defendendo coisas ilegais, motivados por uma convicção ética, que só muito depois viria a ser inscrita na lei. Mas quanto ao Chico Esperto mais bem sucedido, só muito raramente desce abaixo da lei – tal como dizia acima: só é praticamente um fora-da-lei; a teoria sabe-a toda.

Filed under: Ética, Não é bem design, mas...

4 Responses

  1. Isso faz-me pensar nos estágios não remunerados. A escravidão é algo que para além de ser anti-ético, é também ilegal. Mas o trabalho não remunerado é aceitável quando existem leis que permitem os chamados estágios não remunerados.

    Um profissional pode andar a saltar de empresa em empresa sem receber nada pelo seu trabalho e o que os patrões dizem é sempre o mesmo: “Não sabes nada. Estás aqui para aprender. O que eu estou a fazer contigo é legal”.

    Aí, a palavra “legal” faz-me lembrar no conceito brasileiro. Uma pessoa sempre pode dizer “você tem umas sapatinhas bem legais! São muito giras!”. E deve ser esse conceito de “legal” que os patrões utilizam na sua maioria. “Estagio não remunerado é legau né! É lagau principalmente para as minhas próximas férias no Haiti!”

    Estamos a viver uma época que ficará marcada para a história da humanidade como “tempos de escravidão moderna”.

  2. […] demonstrando uma mentalidade que se preocupa mais com as formalidades da vida pública, com a letra da lei do que com a ética: tudo indica que o fez para acalmar uma polémica e não porque ache que é uma decisão honrada, […]

  3. […] quando se viola uma lei; é-se um chico-esperto quando não se tem ética. Tal como já tinha dito em outras ocasiões, o chico-esperto vive quase sempre acima da lei, mas sempre abaixo da ética. A lei determina […]

  4. […] nem me vou dar ao trabalho de lembrar qual é a diferença entre lei e ética, propondo apenas um método expedito de identificar um chico-esperto português: está sempre a […]

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