The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Nascimento do Reader

Dear Reader was created partly from a primordial graphic designers’ urge to publish something, partly in celebration of our Atelier’s approximate fifth anniversary, partly as a vessel to showcase our type design work that circumvents the boring conventions and the visual clichés of the type specimen.”

(imagem e citação via)

Encomendei outro dia a publicação Dear Reader, do Atelier Carvalho Bernau, uma antologia de textos mais ou menos sobre design, mais ou menos modernistas, desde Adolf Loos a El Lissitsky, passando por John Cage e Morton Feldman, cada um dos ensaios composto com as fontes criadas pelos seus editores, servindo assim como catálogo tipográfico, mas também como uma celebração do quinto aniversário do estúdio.

É uma publicação fina e lustrosa, pouco mais de trinta páginas agrafadas, lembrando um caderno de escola. No interior, é impressa a duas cores, preto e azul, com uma trama grossa de pontos sugerindo gradações. O esquema de paginação dá a entender de um modo quase abstracto páginas dentro de páginas dentro de páginas, uma forma de indicar que esta é uma espécie de meta-publicação, que recolhe textos de diversas origens, mas não os reduz a um design comum, preferindo encenar uma variedade discreta, como se fossem imagens de livros.

É um design elegante, que nunca chega a ser demasiado sério, perfeito para um objecto despretensioso, a meio caminho entre o catálogo de fontes e a antologia de textos clássicos, acompanhados de uma boa dose de notas de rodapé.

Poderíamos ser mauzinhos e concluir sumariamente que estes textos são uma espécie de chumaço, uma mera desculpa para uma publicação, mas a tendência da última década no que diz respeito às publicações feitas por designers é esta reviravolta curiosa: às vezes, arranja-se primeiro um design e depois os textos; outras, faz-se as duas coisas ao mesmo tempo.

E dizer que se “arranja os textos” também não chega a ser uma boa descrição do processo de os cravar a amigos, de os “roubar” a outras publicações mais ou menos no domínio público, de os pedir mais receosamente a artistas e escritores conhecidos (se não seria possível cederem um texto por pouco ou mesmo nenhum dinheiro – depois a gente manda umas cópias do livro).

Trata-se de um trabalho de edição criativa, no qual o aspecto gráfico daquilo que está a ser editado é importante, mas também há um certo interesse, talvez mesmo experimentalismo, no arranjo e rearranjo dos textos, no modo como se encadeiam uns com os outros, se contradizem, se reflectem, etc. De certa maneira, são publicações totais, no sentido em que há escrita, há edição, há imagens, há colagem e tudo isto se concretiza numa ideia de design. Naturalmente, o modo como estes interesses se organizam vai variando de publicação para publicação. Em algumas, coleccionam-se simplesmente textos usando como critério o gosto dos seus editores[1], ou um tema ou pretexto mais ou menos definido. Às vezes, os textos ou trechos são escolhidos pelo seu carácter gráfico, ficando reduzidos à condição de imagens ou de ilustrações, no caso de acompanharem um ensaio.[2] Outras vezes alternam-se textos apropriados com textos inéditos, produzidos expressamente para uma publicação[3].

Poderíamos talvez falar de Readers e de Semi-Readers, tendo a consciência que estamos a chamar Reader a coisas que não o são, nem pretendem ser. No entanto, é possível perceber uma tendência para reutilizar textos, para os agrupar e remisturar. Na grande maioria dos casos, mantém-se uma integridade do texto, que não é usado como matéria-prima para uma colagem à Burroughs, Debord ou Kathy Acker – cada uma destas publicações acaba por ser uma espécie de mixtape literária, um analogia impressa de uma sessão de DJing, mais do que um remix de material existente.

Roland Barthes, no mesmo texto em que reivindicava a morte do Autor, defendia o nascimento do Leitor, alguém que não tomava uma posse definitiva do significado do texto, mas que a cada leitura lhe acrescentava novos sentidos. Cada um destes Readers e Semi-Readers é uma dessas novas leituras que se concretizam num objecto, através dos quais cada designer se vai tornando num Leitor barthiano – nem tanto um “Designer como Autor” mas um “Designer como Leitor”.


[1] Como a Tourette de Stuart Bailey.

[2] The Self-Reflexive Page, de Louis Lüthi

[3] A Dot Dot Dot e a F.R. David.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Publicações

One Response

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: