The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Fado (versão 2.0)

De vez em quando Lisboa despacha mais uma expedição ao Porto, só para ver o que os nativos andam a fazer e para verificar se as ideias feitas sobre o sítio ainda continuam tão pré-fabricadas como de costume. Os resultados da última podem ser consultados no Público da sexta passada e não surpreendem: ainda há uma vida nocturna activa, com barzinhos a abrirem por todo o lado? Sim. Ainda há uma cultura alternativa mais independente que a de Lisboa? Sim. Ainda tem duas ou três instituições culturais de referência internacional? Sim. Serralves? Sim. Casa da Música? Claro! Ainda é uma cidade do tamanho certo, onde há qualidade de vida e tudo o mais? Pois, sim, claro, como é óbvio.

Infelizmente, as grandes instituições acreditam que só são grandes (falo sobretudo de Serralves) porque estão de costas voltadas para a cidade. Só lhes interessa posicionarem-se na cena internacional; para o Porto só viram uma montra reluzente mas hermética onde os nativos podem ir esfregar os narizitos curiosos. Quanto à independência, significa apenas que não há dinheiro, não há meios, nem há instituições – não é propriamente uma opção, mas é sempre mais romântico tentar convencer os outros que é.

Quanto aos barzitos, dá a sensação que até são uma coisa nova, mas olhem com atenção para o quadro de Malhoa que ilustra este post. Façam de conta que a guitarra é um Mac; sem o chapéu, o fadista até passava por um hipster de bigode, colete e tudo; quanto à “groupie”, nem é preciso mudar nada; ao fundo, na parede, alguns flyers anunciam o próximo DJ Set; aqui e ali, mobiliário vintage. Vai-se tornando evidente que a movida do Porto não passa de uma actualização do velho empreendedorismo à portuguesa: abrir uma tasquita, tocar um fadito e beber um copito de chá da videira .

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Filed under: Não é bem design, mas..., Política

7 Responses

  1. Wet Fox diz:

    “tornando evidente que a movida do Porto não passa de uma actualização do velho empreendedorismo à portuguesa” >> é isso.

    hà alternativas :
    http://casa-viva.blogspot.com/
    http://casadahorta.pegada.net/entrada/

  2. […] em parte medida este género de estabelecimento que garante a subsistência do que sobra da cultura no Porto. Como seria de esperar, o aumento do IVA na restauração e nos espectáculos vai ter sobre isto […]

  3. […] É uma gralha que apanhei num texto antigo e que deixei ficar, porque achei bonito: dava um bom nome para uma tasca urbana para designers, com wifi, hipsters e tudo, daquelas que vão invadindo loja a loja os rés-do-chão do Porto, transformando antigas pastelarias e livrarias em versões irónicas de si mesmas, vendendo ainda bolos ou livros, mas um pouco de esguelha. É uma cidade que tem ficado mais triste e mais alegre do que Lisboa alguma vez foi; triste para quem vive, embriagante para quem passa – no sentido mais literal. Como ainda vivo cá, cabe-me achar que  as coisas vão piorando. […]

  4. […] Porém, nunca gostei do nome “Expedição” pelas suas conotações. A deslocação geográfica sugerida pelo nome parece-me estranha num projecto sedeado no Porto, uma cidade que, na cultura, sempre sofreu de um complexo de isolamento (nos habitantes locais) ou de exílio (muito patente nos Lisboetas obrigados a desterrarem-se para cá, nem que seja por umas semanas). Quando aparece uma reportagem sobre as artes do Porto, por exemplo, fica sempre a ideia de expedição. […]

  5. […] depois de tanta batatada pensava que fosse só eu a ver a cena e a movida como uma espécie de Fado 2.0 – uma arte que devia muito do seu sucesso a representar uma boémia no limiar da […]

  6. […] semicerrando os olhos, e esquecendo os smartphones e o wi-fi, é muito parecida com o que se fazia há uns cem anos: onde há agora um hostel, havia a pensãozita; onde há agora o bar gurmê era a tasquita, […]

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