The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O monge não faz o hábito


Desde há anos, não sei quantos, que vou espreitar regularmente o The Sartorialist. A ideia é simples: fotografar pessoas na rua; encontrar uma moda fora das passerelles e das revistas.

Não é um objectivo cumprido à risca. Às vezes, talvez na maioria dos casos, a “rua” limita-se aos bastidores das passagens de modelo em Milão, no Rio de Janeiro ou em Londres. No meio das pessoas anónimas, vão reincidindo as mesmas caras, celebridades, modelos, editores e estilistas. É uma moda de rua, mas de lugares onde a celebridade é comum e pode ser vista ao vivo, a caminho do emprego.

Não sei se foi o primeiro blog do género – provavelmente não –, mas é aquele ao qual volto mais vezes, nem tanto pelas roupas como pela opinião crítica, o que pode parecer estranho, num blog que mostra sobretudo imagens, na maioria das vezes sem outra legenda que não o seu título ou, mais raramente, uma ou duas linhas de texto conciso. No entanto, The Sartorialist demonstra uma espécie de grau zero do que a melhor crítica consegue fazer – revelar um pormenor até aí invisível, verbalizando-o: o comprimento de uma manga; uma combinação inesperada de padrões ou materiais; um relógio de pulso usado por cima de uma manga; diferentes modos de entalar ou não uma camisa ou usar uma gravata.

Esta atenção ao pormenor, sobretudo visto de relance, na rua, de passagem, demonstra um profissionalismo concentrado, que é enfatizado (e enfatiza) um respeito pelas pessoas que fotografa – o que interessa aqui é a roupa, o modo como é usada e não a história ou o nome de quem a usa. É um blog mais democrático que de rua, no sentido em que coloca ao mesmo nível a especialista de moda, profissionalmente bem vestida, e um reformado com um gorro e sobretudo de cores excêntricas. O que interessa aqui é a moda, entendida como uma linguagem aberta, e nem tanto o currículo ou a carteira de quem a fala.

Outros sites de moda de rua preferem uma abordagem mais pessoal, tentando descobrir a pessoa através da roupa que veste. Aqui em Portugal temos o Alfaiate Lisboeta, superficialmente semelhante, mas filosoficamente distinto, talvez mesmo oposto ao The Sartorialist. É raro elucidarem-se pormenores que não sejam imediatamente evidentes e, nos casos em que há legendas, são exclamativas e falam das emoções do fotógrafo ou do modelo, contando por vezes pequenas histórias sobre a situação em que a fotografia foi tirada.

É a diferença entre dois géneros de crítica de design, uma que fala sobre objectos e outra que trata de pessoas. Num país como Portugal, é costume personalizar-se a crítica deste modo: julgam-se pessoas e não as suas acções, com o resultado infeliz que as pessoas se ofendem com frequência. Talvez mais grave, os objectos que produzem, sejam eles livros, filmes, casas ou cartazes, acabam por não interessar tanto como quem os fez ou usa. Aceita-se ou rejeita-se um objecto – ou uma opinião – dependendo da pessoa a quem pertence e não pelos seus méritos próprios. Não é uma postura particularmente democrática, porque afinal parte do princípio que nem todas as pessoas são iguais.

Talvez fosse interessante experimentar o oposto e acreditar, como Oscar Wilde, que só as pessoas superficiais não julgam pelas aparências.

Filed under: Crítica, Cultura, Design

4 Responses

  1. M. Folha diz:

    É também uma questão de atitude. Muitas vezes ele procura aquela confiança que faz a pessoa elevar-se das outras, independentemente do que tem vestido.

    Gosto sempre de ler estas análises de outras áreas aplicadas ao design – sejam complementares ou não. É uma abertura que por vezes parece fazer falta. Ver um filme e pensar design e por aí fora.

    Deixo um pequeno vídeo, muito bem filmado, sobre o Sartorialist – http://devour.com/video/the-sartorialist/

    Cumprimentos e boa semana.

  2. filipa diz:

    Adorei o texto.
    Há algum tempo que tentava perceber a razão de haver um “sartorialist” português tão marialva… tendo em conta que o projecto dele não é minimamente original. Apercebi-me disso não só pelos títulos das imagens mas essencialmente pelos longos textos muito pretenciosos em que descrevendo os seus engates internacionais e a sua abertura sexual…
    E cada vez mais gosto do Scott Shuman, precisamente pela sensibilidade ao pormenor, para detectar essas micro-tendências.

  3. A rua dele não é a minha com certeza…

    E sou só eu, ou ouvi-lo a pedir e a agradecer as fotos tem uma similitude enorme com os ceguinhos que pedem e agradecem na linha amarela?

  4. alice diz:

    Não é que faltem cópias ou blogs com temática semelhante ao Sartorialist pela internet fora, mas o que me entristece mais é que o único português seja uma mediocridade absoluta.
    E concordando que o critério que ele usa para fotografar é um sintoma da sociedade portuguesa, fico duplamente deprimida.

    (o verdadeiro pioneiro foi o Bill Cunningham, que começou a fotografar nas ruas de NY nos anos 70, para o NYT.)

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