The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Política de marca branca.

Ontem fui à manifestação da Avenida da Liberdade e aquilo que mais me entusiasmou foi a variedade. Letreiros para todos os gostos e todas as cores. Gente de todas as idades e feitios. Carrinhos de bebé, bicicletas e gaitas de foles. Hipsters no limite do gótico. Numa furgoneta, os Homens da Luta cantavam a música do festival com Vitorino entre os acompanhantes. A coisa foi realmente apartidária – havia desde skin-heads até anarquistas, toda a escala possível do espectro político – e refrescante por isso mesmo.

A melhor definição que já vi de democracia defende que esta é o governo através da discussão. Meter o voto na urna é apenas a maneira de escolher os melhores argumentos. Mas, nos últimos anos, essa discussão e esses argumentos têm-se estreitado até ao absurdo. Ou se vota num partido ou noutro (se possível reduzindo a escolha a dois); ou se salva o país ou se recebe um salário; ou se paga ao jovem ou se dá a reforma ao idoso. Sempre escolhas que limitam artificialmente o âmbito da discussão e a tornam cada vez mais extrema.

Uma manifestação destas demonstra, pelo contrário, uma vontade de encontrar outras opções e de fazer outras escolhas, de acrescentar argumentos novos e novas soluções à discussão pública.

Hoje dediquei-me a espreitar os blogues e os colunistas mais à direita, os Blasfémias, os Insurgentes e os J. Pereira Coutinhos, porque é sempre bom saber o que o outro lado pensa. Nada de muito surpreendente. Uns dizem que ou se tem a segurança e a estabilidade que os manifestantes pedem ou se arrisca e se tem ambição (mais uma falsa escolha – pode-se ter um pouco das duas, mesmo quando se pende para um dos lados). Outros concluem precipitadamente que esta foi uma manifestação contra o governo (o apartidarismo do evento devia ser um sinal a todos os partidos e não apenas ao que governa). Outros queixam-se que aquilo é tudo saudosismo da estética do 25 de Abril (e qual é o problema? outros queixam-se que não é suficientemente saudosista). Outros (com o primeiro-ministro à cabeça), caem na condescendência e falam daquilo como uma manifestação de jovens (quando é bastante evidente que o assunto chamou todas as idades: se uns são jovens outros são país e avós, e todos podem ser precários, mal-empregados ou desempregados).

Não me parece razoável pedir a alguém de direita que comece a defender os direitos dos trabalhadores e um bocadinho menos os das empresas, que deixe de dizer mal dos cravos e da música de luta, e que – enfim – seja de esquerda. Mas já se pode pedir que arranje argumentos (ou pelo menos chavões) melhores, mais complexos e mais convincentes.

No último referendo sobre a interrupção voluntária da gravidez fez-se uma coisa interessante e talvez única em Portugal. Uma série de outdoors todos negros com mensagens simples a branco. Era preciso lê-los e perceber realmente os argumentos para saber se eram de esquerda ou de direita, a favor ou contra, do BE ou do PP – ou para concordar ou não com eles. Era uma espécie de política de marca branca onde o que valia era apenas a qualidade da argumentação. Resumindo era uma discussão pública quase puramente democrática – tal como esta manifestação o foi.

Em tempos de crise, não compensa apostar em políticas de marca.

Filed under: Crítica, Cultura, Não é bem design, mas..., Política,

3 Responses

  1. Aguardava com expectativa a sua leitura do assunto, e fiquei (como sempre) surpreendido com a leitura original.

    Muitos se interrogam sobre as consequências dos protestos (que têm que ter seguimento).

    Pelo que vi ontem no Porto, houve algo de extremamente valioso e bastante subtil que vi acontecer à minha frente várias vezes: muita gente começava espontaneamente e a dada altura a contar o seu caso à pessoa do lado e quem estava à volta virava-se ou ouvia disfarçadamente mas com visível interesse.

    Ouvi o idoso que receia passar fome, a mulher nos trintas a dizer que trabalha para o Estado a recibos falsos há 7 anos ou o homem de meia-idade que diz que trabalhou muito para ter uma vida tranquila e vê-se na posição de sustentar os seus pais e os seus filhos indefinidamente. Ninguém foi lá para isso, mas foi uma situação terapêutica, e que mal terá?

    Ouviam-se muitos desabafos frustrados, zangados e tristes mas não de impotência ou violência- querem fazer algo e gritavam palavras de ordem neutras pela Democracia plural e faziam-no de forma completamente pacífica. Viam-se centenas de crianças.

    O país enfrenta mais do que provavelmente um cenário de “argentinização”, com anos (décadas?) de perda de coesão social, erosão do trabalho e riqueza e um mais do que provável novo êxodo, mais um na nossa longa história de saídas em massa.
    É bom saber que apesar de tudo isso a democracia e a paz estão seguras nas mãos dos seus cidadãos, e isso fez tudo valer a pena.

    Vemo-nos na próxima.

  2. Infelizmente não pude comparecer no Porto. Trabalhando eu como trabalhador independente (e a recibos verdes, diga-se “verdadeiros”) perdi o meu melhor cliente por volta de finais de Janeiro. Logo a seguir perdi os meus outros 2 melhores clientes. As 3 empresas que me pagavam melhor pelo meu trabalho fecharam, abriram falência.

    Uma delas era uma empresa de Design que, esporadicamente, ia precisando de alguém que fizesse um ou outro trabalho. Porque não era essencial empregar mais uma pessoa nos seus quadros só por causa de um ou dois trabalhos por mês, entraram em contacto comigo e negociámos uma avença mensal de 300 euros. Eu aceitei, porque trabalhar 1 ou 2 semanas por mês por 300 euros até é um bom valor. Mas essa empresa abriu falência. Logo depois 2 outras empresas para as quais também trabalhava, uma empresa de consultoria empresarial e outra de Marketing que de vez em quando iam tendo publicidade para eu fazer (flyers, folhetos, cartazes) também acabaram por fechar… Essas 2 empresas, em média, davam-me 150 a 200 euros por mês, pagando um valor por cada trabalho que eu fizesse.

    Sobraram-me apenas 2 empresas no meu leque de clientes. Uma delas, uma empresa de consultoria (mais uma) que tem ideia de que um designer é um técnico do word e que pagar mais de 30 euros por um trabalho de uma semana inteira é um roubo. A outra empresa é mais uma empresa de Design. Uma empresa que veio da Dinamarca para abrir em Portugal. No começo, a empresa pagava-me bastante bem e, muitas vezes, adiantava 50% antes de eu sequer dar início a um determinado projecto. Mas actualmente é o inverso. Insultam-me (literalmente) quando peço 150 euros por um site (que para mim já é quase dado) e só me têm pago pelos trabalhos depois de 3 meses de eles já terem sido feitos e entregues.

    Ou seja, resumindo e concluindo, estou “falido”. Não tenho tido dinheiro nem para ir tomar café à tasca aqui ao lado. Quem me tem ajudado é a minha mãe e o meu irmão…

    Quem diria que o meu irmão, 5 anos mais novo do que eu, sem estudos, e a trabalhar numa bomba de gasolina, me ia um dia vir a sustentar… Ele consegue ganhar de ordenado mais do que eu consegui ganhar na maior parte dos empregos que tive até ao momento. Ele ganha cerca de 1200 euros/mês a trabalhar num posto de abastecimento de gasolina.

    Por isso não pude comparecer… Não tive dinheiro para me poder deslocar até ao Porto.

  3. Nonnu diz:

    Acho que colocaste (mais uma vez) o dedo na ferida quando falas de falsas escolhas.
    Defacto o problema é que temos sempre a tendência de ser ou 8 ou 80. Eu estive na Av. da Liberdade, e como tu constatei o ja sabia, que era uma manifestação apartidária contra a situação e não uma manifestação contra este ou aquele governo ou politico, como a comunicação social e os comentadores a soldo quiseram fazer passar. Porque se fosse, sejamos honestos, seria um protesto contra todos os governos/políticos dos últimos 100 ou 150 anos, sim estou a exagerar um pouco.

    Mas de facto gosta-se muito de dar a sensação que não se pode agradar a “gregos e troianos” de que “ou és por mim ou contra mim” e toda a gente parece esquecer o básico: ou se é por Portugal e pelos Portugueses(e também incluo os imigrantes), ou então mais vale estar caladinho e ir pregar para outro lado. Porque esta tendência de dizer mal de tudo e de todos sem ajudar a construir nada (tipo Pacheco Pereira) não leva a nada.

    Utópicamente falando, os partidos teem de perder a ambiçao e a vaidade própria, e pensar no seu país. A comprová-lo esta um debate que ouvi na TSF, no dia 14 (segunda-feira) sobre o estado da politica em Portugal com o António Vitorino e o Marques Mendes.
    E achei fascinante as “verdades” que disseram sobre o funcionamento da politica, da assembeleia e dos partidos.
    Agora, por que falaram eles assim tao bem?
    Lógico: não são membros “activos” dos respectivos partidos nem fazem intenções e o voltar a ser.
    Alias António Vitorino há um ou dois anos, deixou passar a ideia que só se fosse muito “parvo” é que seria candidato à Presidência da Republica. E isso também mostra muito sobre o estado actual das coisas.

    A vida é boa quando nos estamos a divertir. Mas já nao estamos a achar piada nenhuma a esta anedota a damos o nome de Políticos.

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