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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Mitos Urbanos

Passei quinze dias quase sem acesso à rede, o que me permitiu ir adiantando as leituras, em particular Kraken, de China Mièville, uma espécie de fantasia urbana, que recupera alguns dos temas antigos do autor – em particular as “feral streets” ou “trap streets” que aparecem e desaparecem, mudando por vezes de vizinhança ou de cidade, que já tinham sido o tema de “Report of Certain Events in London”, de 2004.

Este livro trata do roubo de uma lula gigante conservada em formol no Museu de História Natural e que acabaria por provocar uma guerra entre as religiões secretas de Londres, entre as quais a Igreja do Kraken (que acredita que a lula é um deus), os Londonmancers (uma seita de adivinhos que lê as entranhas da cidade para adivinhar o futuro), os Gun Farmers (que criam armas vivas cujas balas são ovos que completam a sua gestação alimentando-se dos corpos das vítimas), os Chaos Nazis (dandies que se vestem como New Romantics e torturam as suas vítimas sobre suásticas gigantes, girando-as a favor e contra o sentido dos ponteiros do relógio para regenerar ou mutilar) e, finalmente, os coleccionadores de cultos, uma espécie de groupies que orbitam à volta disto tudo.

Há uma tendência das fantasias urbanas  serem conservadoras (Harry Potter ou Neil Gaiman, por exemplo), afogando-se em nostalgia dos velhos tempos, quando havia magia e seres sobrenaturais, que entretanto abandonaram o mundo, etc. Curiosamente, muitas destas fantasias parecem estar paradas no século XIX e durante a revolução industrial (Harry Potter é um bom exemplo). A razão para isso acaba por ser prosaica: a recolha das narrativas populares por cientistas como os irmãos Grimm ocorreu nesta altura e, se documentavam um mundo prestes a ser obliterado pela ciência e a indústria, também serviriam para alimentar uma reacção nostálgica contra esse progresso. Mas, com o tempo, indústria urbana e a magia popular acabariam por se fundir, dando origem a fantasias urbanas mais ou menos saudosistas e conservadoras.

Mièville, além da escrita, já tem uma longa carreira de intervenção política de esquerda e isso nota-se neste livro, em particular na aparição de uma espécie de “Deus da Greve”, uma antiga estatueta de um trabalhador originalmente destinada a servir o seu amo no além, que se revolta para se tornar numa espécie de entidade tutelar da negociação colectiva através dos tempos – a acção passa-se durante uma greve organizada por ele. Também aparecem os “anjos da memória”, entidades mais ou menos inspiradas no anjo da história de Benjamin e que guardam museus e bibliotecas. Resumindo, mitos urbanos para os tempos que correm onde até as entidades sobrenaturais estão sujeitas à precariedade.

Filed under: Design

One Response

  1. realvst diz:

    Muito bom post! Esse tipo de livros em que entra um certo tipo de fantasia com scifi à mistura faz-me lembrar de um filme que saiu penso que em 2006, Southland Tales. Talvez um dos filmes de ficção científica mais estranhos que vi até hoje mas muito interessante, para quem não se importar de algum tipo de comédia à mistura. Outro filme interessante, em que também realidades muito estranhas entre elas se misturam é o Push (2009). Mitos urbanos, ficção, fantasia são temáticas desses dois filmes e ambos tocam ligeiramente no assunto de um “fim do mundo”, de uma realidade estranha e fantástica que surge antes desse fim da humanidade. Talvez uma fase evolutiva da espécie… Ou mesmo uma fase de delírio antes da morte da humanidade. O que, se pensarmos bem, é o que acontecerá a todos nós… Assim que chegamos à velhice, antes de falecermos costuma haver uma fase de delírio derivada da lenta morte cerebral a que estamos sujeitos nessa fase da vida. Nessa fase tudo é possível, a imaginação não tem fronteiras.

    Antes do “Apocalipse”, a maioria dos escritores de livros e filmes descreve uma sociedade não apenas “caquética” ou em estado de delírio e adormecimento profundo, como também uma sociedade esgotada em grandes diferenças sociais, onde imperam os grandes luxos e a alta tecnologia acessíveis a uns, e a miséria, o drama, a solidão e a revelia, vividos por outros.

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