The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Qualificação

(máscara de halloween via)

A propósito da dificuldade de empregar os licenciados – ou pelo menos de lhes pagar – tem-se dito que esta é a geração portuguesa mais qualificada de sempre, apenas para lamentar de seguida que será também a primeira geração com um nível de vida pior que o dos seus pais. Por aqui se vê que a qualificação dada pelas universidades só é vista como um meio para um fim, que é o da ascensão social.

Porém, o sistema está a falhar, e não apenas aqui. Paul Krugman, por exemplo, acredita que a mesma coisa já está a acontecer ao ensino superior americano, desmentindo a ideia que numa sociedade cada vez mais informatizada e dependente da tecnologia serão necessários mais trabalhadores qualificados, e que o trabalho mais físico e subalterno, mais facilmente automatizável, irá desaparecer.

De acordo com Krugman, acontece precisamente o oposto: muitos empregos de colarinho branco, para os quais é necessária uma educação superior, estão a ser substituídos por programas de computador. O exemplo que dá é a investigação legal que ocupava até há pouco tempo verdadeiros batalhões de licenciados em direito e que neste momento pode ser feita por motores de busca especializados. Pelo contrário, trabalhos subalternos como pintar casas, cuidar de jardins, reparar canalizações ou servir ao balcão, são dificilmente “digitalizáveis”, embora isso não garanta bons salários.

Por esta razão, tem-se verificado um esvaziamento dos salários médios, que sustentavam até agora uma classe média, em favor do crescimento dos salários altos e dos salários mais baixos, com vantagem para estes últimos. Ou seja, há cada vez mais pessoas a ganharem pouco, um pouco menos de pessoas a ganharem muito e muito poucas no meio, acentuando assim uma desigualdade social crescente e o fim de uma classe média forte.

Poder-se-ia acreditar que o design gráfico, uma área ligada à criatividade e à expressão, estaria a salvo desta automatização. Mas e tal como já defendi em outras ocasiões[1], os computadores fizeram com que a grande maioria do design deixasse de ser uma tarefa de gestão para se tornar numa espécie de secretariado – a cor do seu colarinho mudou de branco para azul e o seu salário mudou a condizer.

Resumindo, o ensino superior, tal como é praticado hoje, já não garante uma ascensão social, antes pelo contrário. Com a diminuição do financiamento, as instituições de ensino são obrigadas a terem mais alunos a quem podem cobrar mais propinas, o que sustenta as estatísticas optimistas de que nunca tivemos uma geração tão qualificada. Por um lado, esta “democratização” do ensino só é superficialmente democrática: pouca gente consegue pagar os sucessivos mestrados, doutoramentos e estágios não-remunerados que o sistema actual implica. Se, tal como já dissemos, esta é a primeira geração que vive pior que os seus pais, os custos da carreira dos mais novos vão também começar a erodir os ganhos da geração anterior, ajudando a eliminar os vestígios da existência de uma classe média e favorecendo quem ainda vai tendo mais dinheiro para pagar isto tudo.

Krugman conclui que, se queremos uma sociedade onde haja mais igualdade económica e social, a educação já não é uma solução, mas será necessário construir essa sociedade directamente. Para isso será preciso restaurar o poder negocial que os trabalhadores perderam nas últimas décadas – se a maioria da sociedade vai passar a ter um colarinho azul, para evitar uma desigualdade social crescente será necessário recuperar muitos dos instrumentos através dos quais os trabalhadores podiam reivindicar melhores salários e direitos básicos – reabilitando e actualizando a reputação dos sindicatos, por exemplo.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Economia, Ensino, Política

14 Responses

  1. carlos soares diz:

    Pois é, por mais voltas e reinvenções que se façam, lá estão os sindicatos (ou a ideia de sindicato)… irónico que a geração que pensava ter abandonado definitivamente essa herança, e pensava ter rendimentos de acordo com as suas qualificações (que, como foram democratizadas, tornaram tb a oferta muito maior que a procura, logo barata), tenha agora que abandonar o seu percurso pessoal e intransmissível e ascencional, e tenha de procurar o associativismo e tenha de aprender a ver o mundo de outra maneira e e…
    No meio do contexto actual, esta necessidade de sermos nós a tentar criar novas formas de viver e de ver, parece-me a única coisa positiva… the future is unwritten (pelo menos um bocadinho desse futuro)

  2. realvst diz:

    Penso que o designer ainda não perdeu o colarinho branco, tornou-se foi um bocado sujito. hehe O problema não é a cor do colarinho do designer. Há imensos que criaram a sua própria empresa e, no entanto, não ganham assim tanto. As pessoas, no geral, começam a dar pouco valor ao design. Já vi imensa coisa feita por pessoas sem qualquer formação, usando o word ou o powerpoint. O design passou a ser uma área profissional acessível a todos, ou pior, um passatempo para alguns.

    A par disso, a criatividade ainda não é algo que possa ser substituído por computadores. No entanto, também não podemos substituir as cabeças dos clientes (grande parte deles do mais ignorante que há). Penso que é mais por isso que há pouco emprego na nossa área e que o que há dá muito pouco.

    Sobre as profissões menos formadas estarem a ganhar terreno na economia, parece-me mais do que óbvio. Os papéis estão-se a inverter. É fácil criar uma empresa de serralharia, mecânica, ou mesmo canalização. E essas áreas são sem dúvida bem remuneradas. Basta pesquisar na internet, por exemplo, o valor que um jardineiro cobra para aparar um bocado de relva de um jardim. Eu já cheguei a pagar 150 euros por uma coisa dessas, o que acho um valor um bocado alto. Que trabalhos teria um designer de fazer para ganhar esses 150€? O jardineiro sempre pode dizer que X é pelo aluguer da máquina, X pela gasolina da máquina, X pelo nylon, X para o transporte do equipamento, etc.

    Acho que a solução desta sociedade está no Venus Project (www.thevenusproject.com). Seria o eclodir de uma nova realidade com a eliminação do sistema capitalista e a eliminação de um sistema governado por um sistema político. Jacque Fresco já andava a dizer isto desde os anos 80. O sistema capitalista um dia será do colapso civilizacional do ser humano.

    • Isso do Venus Project era uma piada não era? Gosto, em particular, da parte em que se propõe substituir toda e qualquer actividade humana por máquinas/inteligência artificial. Boa ideia.

      Em relação ao artigo, é um assunto que pede uma reflexão profunda. Não seria mal pensado que se fizesse um estudo global (ao nível da União Europeia) sobre os licenciados/mestres/doutorandos/pós-doutorandos: estão a trabalhar nas suas áreas de especialidade? Com que remuneração? Com análises locais (ao nível de cada país) e globais. Teria o mérito de clarificar um bocado a discussão, pois não sei até que ponto isto é um problema geral ou de alguns países em particular.

      • realvst diz:

        Bem, quanto a isso, cheguei a ver uma vez um gráfico que faz uma média do que recebe um indivíduo na UE por cada actividade profissional ligada à comunicação/publicidade. Pena já não saber onde vi isso pois então colocava aqui um link para poderes consultar.

        Pelo que me lembro, o designer fica em 3ºlugar (entendendo-se por designer profissional criativo, de criação de ideias originais implementadas de forma gráfica).

        À frente do designer fica aquilo que podemos chamar o pessoal do Marketing. E em primeiro lugar fica o CEO, que é basicamente o director geral de uma empresa.

        Fiquei surpreendido com os salários que um profissional de marketing (mais conhecidos no nosso país por Comerciais) pode receber. Talvez 5 vezes mais do que um designer!

        Salvo erro, a média salarial de um designer na Europa é de 2500 euros. (falta saber em que país se ganha isso) 🙂

  3. Esta ideia — «a geração portuguesa mais qualificada de sempre» — tem andado no ar desde cedo e não pára de me arrepiar…

    Será mesmo? Não será cedo para poder afirmar tal coisa? Não teremos que esperar uns 20 ou 30 anos para poderemos afirmar tal coisa? Uma coisa é ter cursos superiores, ser erasmus experienced, mesmo arriscar pós-docs, outra coisa é fazer alguma coisa pelo país e pela vida. É que não são forçosamente a mesma coisa… A ver vamos.

    • realvst diz:

      «a geração portuguesa mais qualificada de sempre» não pressupõe que tenhamos de fazer alguma coisa pelo país… Por “qualificado” entende-se pessoa preparada para poder exercer determinadas funções que exigem não apenas conhecimentos técnicos e práticos como também teóricos aprofundados.

      É a mesma coisa que dizermos que o SR-71 é o avião mais rápido do mundo. Não o deixa de ser se nunca for pilotado! 😉

  4. […] dos últimos textos, tínhamos verificado que o ensino superior já não é uma garantia de mobilidade social – pelo […]

  5. Valter Fatia diz:

    Curioso texto, mas não consigo deixar de pensar que ao nível da nossa classe temos vários problemas, entre a falta de iniciativa e a condolência da classe a receber maus salários para realizar trabalho sub-par.
    Mas sejamos honestos, ter um curso superior não pode ser uma garantia de emprego, ao invés o designer deve-se preparar para esta fase de transição, tentando ser o mais qualificado possível quando sai da universidade (um profissional) e ter no bolso um plano para os anos seguintes. O problema é que as universidades não incutem esta mentalidade e os próprios estudantes pensam que a faculdade é uma festa constante. A minha experiência é que provavelmente apenas 40% da massa estudante/designer se prepara a níveis mínimos para ser um profissional real quando termina o curso.

    Abordando o ponto dos sindicatos ou as ordens (sindicatos modernos), gostaria de deixar um comentário sobre a APD, que é o mais próximo que temos. Sendo de Lisboa tenho pouco contacto com a APD, mas a sensação que tenho é que defendem os seus interesses próprios de monetização pela “aplicação” de cotas pesadas para o cenário actual da classe. Até são engraçados pelo movimento que fizeram nos concursos de design, criando uma base “regulamentar” para os mesmos, que no primeiro momento parece algo nobre (até me fez considerar suportá-los…) só para depois me deparar com uma clausula que o acesso ao primeiro concurso regulamentado requere ser membro da APD.

    • zécas diz:

      Caro Valter,

      já trabalhei com a direcção da APD e se calhar posso dar uns bitaites aqui sobre os seus bitaites. Antes de mais sobre o tal concurso, esse regulamento foi feito pelo CPD, não pela APD ou AND, logo nem foi na altura imposição da APD. Até se reparar têm apoiado muitos que não têm essa imposição.
      Quanto à questão das quotas, se calhar é um problema de design. Como manter uma associação a funcionar, com actividades e com o tal poder reivindicativo que muitos exigem que tenha, sem dinheiro? A APD não tem qualquer fundo ou subsidio do Estado ao contrário de muitas associações culturais ligadas ao design. A APD vive unicamente das quotas dos sócios, os tais 7.5€, e suponho que se 10% ou 20% desses tais 500 ou 600 sócios pagarem com regularidade essa quota já é muito.

      • Valter Fatia diz:

        Olá,

        Obrigado pelo esclarecimento… nem reparei que essa entidade terciária também estava envolvida.
        Sobre o financiamento da APD, concordo com os problemas da mesma em se suster económicamente, daí quando vi uma medida real, considerei juntar-me e apoiar a associação.

        A verdade é que o ambito da APD ou CPD ou AND é longe de claro, não apoiando e informando os estudantes. Sem uma missão e um designio claro prefiro não suportar a APD, da mesma forma que não suporto o CPD. Até podemos dizer que é o dilema do ovo e da galinha, mas eu considero errado “pedir” dinheiro assim sem haver um objectivo claro para formar uma classe.
        Até podemos referir a adição do nome designer às profissões como um feito, mas foi moroso e penoso de conseguir e no fim mudou algo? Penso que não, e o que peço de uma instituição que queira apoiar o design é que tenha a ambição de mudar convições e diluir as sombras que rodeiam a nossa actividade.

  6. Alexandre diz:

    Interessante esta questão da qualificação, penso que está na base da sociedade que temos actualmente, não sei se seremos mais qualificados, pelo menos mais habilitações temos.

    Vou tentar não me alongar nem ferir susceptibilidades neste comentário pois muito tinha a dizer, dado o seu carácter transversal.

    Olhemos para o que acontece no ensino superior, temos duas ramificações o Ensino Superior Politécnico e o Universitário este último quase impermeável relativamente ao outro, pelo menos até há poucos anos. Um aluno obtinha mais facilmente equivalências em Barcelona, Londres ou EUA do que entre instituições nacionais, por vezes até entre Universidades de cursos com designações iguais, poderia mencionar diversos casos.

    Há poucos anos ter um bacharelato era quase desprezível com cursos de 3 anos com cargas horárias de 35/40 horas semanais. Em meia dúzia de anos passámos a ter licenciaturas de 3 anos com uma carga horária inferior, ingressos directos a mestrados sem passar por uma licenciatura e outros cenários, devidamente enquadrados pela legislação actual. Estão mais qualificados? Saem pelo menos mais profissionais para o mercado num menor espaço de tempo.

    O que sei é que existe uma tendência para deliberações com resultados imediatos, sem se aferir e reflectir do impacto que tais medidas têm na sociedade, milhares de estudantes investiram o seu trabalho, o seu tempo e o seu dinheiro em cursos que de um momento para o outro “descapitalizaram”. Somos pessimistas por vezes, pois somos.

    […] dos últimos textos, tínhamos verificado que o ensino superior já não é uma garantia de mobilidade social – pelo […]

    …mas o ingresso num curso superior pressupõe um investimento no conhecimento e na qualificação, não obstante o valor individual, as instituições devem assegurar esse conhecimento e propiciar um clima de investigação assim como elevar esse padrões de conhecimento, servindo idealmente de motor à sociedade. Será que a maioria está empenhada em o fazer?

    A verdade dói, ninguém no seu perfeito juízo pede a uma empregada de limpeza ou a um canalizador para lhe fazer um estágio não remunerado lá em casa. No entanto quantos bacharéis, licenciados, mestres, doutorados e pós doutorados estão nestas condições?

    Há mais dinheiro na mão de poucos, muitos dos quais desqualificados. Pois dividiram não o dinheiro mas as ideias para reinarem, porque muitos concordam na generalidade mas divergem nos detalhes.

    Daí num país como ao nosso, embora não tão pequeno como julgamos habitualmente, temos 3 associações de Designers, será pertinente e vai ao encontro da qualificação e reconhecimento dos designers nacionais?

    Este é apenas um exemplo, basta olhar à volta, sim para a paisagem, vejo-a como um espelho da nossa sociedade, retalhada, dividida e abandonada mesmo depois de uma reforma agrária. Sem beliscar o património individual penso que era possível fazer mais, mas a verdade é que nos doutrinaram num individualismo exacerbado, que oscila entre o deslumbramento tecnológico e a tecnofobia.

    Termino em jeito de classificado mal paginado.

    Qualificação em ponderação precisa-se, urgente, todo o país.

    • realvst diz:

      Sobre o tempo dos estudos, que terá sido reduzido, e que isso poderá implicar uma menos qualificada geração do que as anteriores, talvez fosse importante pensar no estrangeiro e comparar o panorama americano e mesmo europeu ao panorâma português. 5 anos de licenciatura, acho que foram muito bem aplicados (de minha parte pelo menos), mas acho também muito exagerados. Em muitos países desenvolvidos podemos ver sair das universidades jovens de 19 e 20 anos e a partirem para a aventura. Enquanto que cá em Portugal tínhamos jovens a terminar os cursos com 23 anos ou mais. Pode parecer pouco importante, mas o tempo de vida não passa despercebido pois muitos estudantes preferem adiar a sua vida pessoal por causa dos estudos. E o resultado é vermos pessoas com quase 30 anos por constituir família, ou mesmo ainda a viverem em casa dos pais.

      Não é apenas o desemprego que faz isso. As culpas também podem cair em cima do tempo que os jovens demoram a concluir um determinado curso.

      No estrangeiro, talvez por isso, surpreendemos-nos facilmente ao ver jovens de 19 e 20 anos (quase ainda a deixar a puberdade) a trabalharem como gerentes bancários, por exemplo.

      Nesse ponto de vista, até acho bem terem encurtado os anos de licenciatura. 🙂

      • Alexandre diz:

        A minha questão não se prende tanto com a duração dos cursos, mas sim com a falta de orientação a longo prazo, com mudanças drásticas para objectivos imediatos, leia-se neste caso o financiamento do ensino superior e uma imposição comunitária, no caso de Bolonha. Onde o que menos parece interessar é a qualificação e o valor que se pode retirar, por exemplo da permeabilização que o sistema poderia permitir com o cruzamento de áreas de conhecimento, à semelhança do que acontece nos EUA.

  7. A questão não está na qualificação em si. Queiramos nós ter muito cidadãos qualificados, a executar serviços, que se querem para a dita “ralé”, ou pior, a considerar que estes serviços, como pouco dignificantes. Ganhar a vida com dignidade e trabalho não faz mal a ninguém.
    A qualificação ou educação é uma necessidade pessoal, social; não é o conhecimento que ocupa espaço, mas sim o vazio da ignorância é que deve ser colmatado. A educação não deve ser subjugada a uma pequena elite burguesa e gorda.
    Quanto aos vencimento acho que deveria haver uma nova formula de quantificar o trabalho, não por ter um “colarinho branco” que deve facturar mais. Deveria ser o trabalho a quantificar o meu vencimento.
    Para ilustrar esta questão, fica aqui esta metáfora. o que é mais importante no corpo, a cabeça ou o cu,salvo a expeçam.

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