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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

As Elites

Num dos últimos textos, tínhamos verificado que o ensino superior já não é uma garantia de mobilidade social – pelo menos para cima – e que a única forma de alcançar mais igualdade económica e social seria restaurar a capacidade dos trabalhadores para reivindicarem salários justos, através da reabilitação de mecanismos negociais como os sindicatos – uma tarefa difícil, tendo em conta que o discurso político dominante hostiliza sistematicamente tudo o que possa apoiar a capacidade negocial dos trabalhadores.

Para recuperar essa capacidade é portanto necessário fazê-lo dentro do âmbito de um discurso público claramente adverso – mas como consegui-lo?

Uma das maneiras seria através de uma mudança na ênfase da missão do ensino superior. Costuma-se dizer que as universidades formam as elites, o que sugere muito claramente uma classe social acima das outras, cuja função é a liderança. Essa missão tem falhado e, na grande maioria dos casos, o produto final de um curso não é uma elite, mas apenas estagiários com pouquíssimas esperanças de subirem na vida a curto ou a longo prazo.

Em alternativa, poderia recuperar-se uma das funções tradicionais da universidade: a de fornecer factos e ferramentas argumentativas que sustentem o funcionamento do discurso público democrático. Esta missão inclui de um modo elegante tanto as ciências exactas e humanas, que fornecem dados e enquadramentos para os interpretar, como a filosofia que, longe de ser uma disciplina fóssil, se dedica a construir mecanismos sofisticados de argumentação que, de forma mais ou menos diluída, acabam por informar o discurso público e político quotidiano.

Há uma cena do filme O Diabo Veste Prada onde Anne Hathaway, a secretária mais ou menos contrariada de uma editora de moda implacável desempenhada por Meryl Streep, não consegue deixar de se rir do modo pomposo como a sua chefe escolhe as roupas a apresentar na sua revista. Streep responde-lhe que a cor da camisola despretensiosa que Hathaway usa foi escolhida naquela mesma sala, anos atrás, filtrada através de fotos promocionais, passagens de modelos, indo parar, finalmente, à caixa de produtos em desconto onde ela a tinha encontrado.

Do mesmo modo, a própria ideia de que as universidades devem comportar-se como empresas, apostando em tecnologia e eficiência económica enquanto ignoram as consequências sociais desta postura, não é a manifestação espontânea de um desejo popular, mas teve a sua origem remota em linhas de argumentação desenvolvidas nos departamentos de economia da Universidade de Chicago, e que sustentam a ideia que o mercado só por si tudo resolve, sobretudo se for deixado em paz.

Como alternativa a esta ideologia de mercado, largamente desmentida pela crise económica que provocou, será necessário recuperar um papel mais alargado para a universidade, que não pode servir apenas o mercado – mesmo que seja só o de trabalho –, mas em primeiro lugar a sociedade mais alargada, a qualidade do seu discurso público e uma participação democrática mais alargada, informada e consequente.

Filed under: Crítica, Cultura, Economia, Ensino, Política

2 Responses

  1. carlos soares diz:

    Apesar de tudo as universidades continuam a formar as elites. Claro que são algumas universidades, alguns cursos dessas universidades.

    Curioso seria analisar a formação daquilo que se considera elite (não a emergente ou futura) mas a que temos. Se olharmos à formação dos mais bem pagos e dos mais influentes (dois critérios vagamente caracterizadores daquilo que se chama elite), estes têm na generalidade formação superior (nas áreas da gestão, muitas das vezes a formação de base ou complementar é feita ‘lá fora’) e investem paralelamente à sua actividade profissional em formação.

    Por isso a conclusão, não é a de que a universidade deixou de formar elites, mas que a universidade passou a formar muito mais que apenas as elites.

    Claro que do ponto de vista de formação até os licenciados continuam a ser uma elite (sem dinheiro nem poder), mas ainda assim uma minoria (previlegiada) no nosso país. Uma elite quer queira, quer não queira assumir-se como tal.

  2. realvst diz:

    Penso que o que se passa com o Design passa-se com qualquer outra área. Esta crise é uma crise geral e não uma crise só de alguns.

    A propósito do movimento e dos protestos “Geração à Rasca”, eu estava numa conversa entre amigos e colegas e houve alguém (com apenas o 12º ano, daqueles instantâneos) que disse algo do género “o mal de muita gente é optarem por tirar cursos que não têm saída”. Logo de seguida outra pessoa disse “então que cursos é que têm saída?”. Respondeu “Enfermagem, por exemplo, ou medicina”. Ora, tínhamos uma pessoa no grupo com o curso superior de enfermagem que achou estranho essa afirmação uma vez que ela própria está há quase um ano à procura de emprego na área, trabalhando numa loja de roupa enquanto não encontra…

    😐

    Agora, as elites essas, penso que estão-se a tornar mais salientes, tais são as diferenças económico-sociais. Mas também acho que não são formadas por uma educação superior, mas sim pela casualidade dos factos. Normalmente heranças “adquiridas”. O “rico” deixa de ser rico para passar a mediano e as classes sociais que ficam são a dos bilionários e a dos pobres.

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