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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Arte, Política e Transgressão

Nos últimos textos tenho tentado perceber qual o papel que o ensino superior em geral pode ter no alívio e talvez até na resolução das desigualdades sociais crescentes. A minha conclusão – para já – é que deve recuperar uma das suas funções clássicas: a de fornecer ferramentas argumentativas que permitam sustentar uma discussão pública o mais abrangente possível e que não sirva apenas interesses empresariais e económicos, mas os da sociedade em geral. Nesta análise resta-nos tentar perceber qual o papel das artes e do seu ensino.

Em geral, o papel que as artes desempenham numa sociedade é o de monumentalizar as relações sociais existentes. Tanto as artes suportadas com mais dinheiro como as mais alternativas se  enquadram necessariamente nele. Assume-se que só as primeiras o fazem realmente, sendo as outras transgressivas, mas esta distinção é apenas uma forma de compartimentação, de manter cada coisa no seu devido lugar (e com isso fixar e representar as relações sociais existentes).

Numa sociedade democrática, a função do discurso público é a de uma arena onde vários grupos disputam a atenção e os recursos comuns. A melhor maneira de ficar com a maior fatia (se possível com tudo) é fazer disso um direito natural[1]: se na própria maneira como entendemos a sociedade houver já uma distribuição entre o que é essencial e o que é acessório, o que é central e o que é alternativo, essa distribuição é feita automaticamente sem que seja sequer necessário discuti-la.

Na nossa sociedade assume-se por exemplo que o apoio às artes deve ser dado de uma maneira democrática, atribuindo mais recursos às artes com mais público, saltando-se rapidamente para a conclusão que, não havendo assim tanto dinheiro, só estas deveriam ser apoiadas.[2] No entanto, isto é uma distorção do ideal democrático, no qual não é apenas a maioria que está representada, mas também interesses minoritários, desde que tenham gente suficiente a apoiá-los.

Esta redução do apoio às artes a um jogo de tudo ou nada reproduz fielmente o modo como o próprio processo democrático se limita a uma luta pela maioria absoluta através do voto útil e onde os partidos mais pequenos não são vistos como a representação pública de interesses minoritários, mas como uma forma de ruído residual que se limita a dificultar a obtenção do poder pelos dois principais partidos.

Por aqui se percebe que não são apenas os objectos artísticos que monumentalizam as relações sociais existentes, mas a própria estética, entendida aqui como um sistema de argumentos que sustentam o discurso público das artes – ou seja, o papel das artes na esfera pública. Dito de um modo mais simples: o modo como as artes se organizam entre si reflecte o modo como reclamam o acesso aos recursos públicos, sejam eles dinheiro ou apenas a ribalta; reflecte também o discurso e a organização política dominantes.

Assim, quando se limita a arte política a um género dentro das artes, está-se a limitar o seu alcance e a sugerir que a arte em geral não é política, apenas pequenas secções dentro dela. Em alternativa, poderíamos entender que toda a arte é necessariamente política, na medida em que mesmo a arte entendida como autónoma reclama uma fatia dos recursos públicos, seja directamente, pelos próprios artistas, seja através de intermediários como museus, críticos, comissários, etc.

A arte alternativa limita-se, na grande maioria dos casos, a ocupar o lugar que se espera dela. É como uma zona da cidade menos respeitável, ligeiramente mas perigosa, mas onde se pode sair à noite com relativa segurança, falando com os nativos e fumando umas ganzas, mas sem que nada mude realmente (no dia seguinte, tudo volta ao seu lugar esperado), excepto uma certa ilusão que, através deste tipo de turismo, somos nós mesmos transgressivos e até um bocadinho perigosos.

Boa parte do discurso público da arte (a sua prática, a sua teoria, a sua crítica e o seu ensino) dedica-se a patrulhar constantemente as suas fronteiras internas e externas, distinguindo a arte entre pública, política, de galeria, de museu, ou entre a arte, a arquitectura e o design, diminuindo com isto quase totalmente a sua capacidade de intervenção política[3] – é quase um milagre que a cultura, qualquer tipo de cultura, ainda tenha qualquer tipo de impacto na vida pública.

A reacção à canção dos Deolinda, Parva Que Sou, demonstra bem estas falhas. Na grande maioria dos casos não foi avaliada criticamente pelo impacto que teve, nem se tentou perceber o modo como o obteve, mas, num primeiro momento, avaliou-se apenas a sua legitimidade (se era ou não uma música de luta; se referenciava adequadamente uma tradição de canção e de intervenção política; se era ou não a intenção dos músicos que fosse uma música de luta); a sua qualidade formal (se tinha uma boa letra ou uma boa música). No entanto, apesar de todas estas objecções, a música teve o seu impacto público e político: chamou a atenção para um problema antigo que insistia em não ser discutido; foi discutida no parlamento; deu origem a uma das maiores manifestações dos últimos anos; neste momento, já é uma referência além-fronteiras.

Tudo isto aconteceu porque, através desta música, se definiu a identidade pública (e portanto política) de um grupo até aí quase invisível. Esta definição foi feita de um modo que é transgressivo em relação às hierarquizações habituais das artes, desfazendo as barreiras habituais da legitimidade, da inscrição numa tradição, da qualidade formal ou mesmo da intenção do artista, dando a entender que os critérios fundamentais tendem a falhar nas ocasiões mais interessantes – isto apesar de toda a carrada de investigação pertinente sobre a relação entre arte e política, desde Benjamin a Rancière, passando por Adorno, e de tudo o que se sabe sobre política de identidade, de autoria, etc. Coisas muito citadas, mas só raramente entendidas ou aplicadas.

Concluindo, se o papel do ensino deixar de ser a formação de elites e a qualificação, passando a ser o de suportar a criação de uma sociedade mais justa, o papel do ensino das artes deveria ser o de construir sistemas de discurso público que consigam perceber e potenciar este objectivo. Como o exemplo dos Deolinda demonstra bem, ainda está quase tudo por fazer.


[1] A melhor maneira de recusar uma fatia é declarar um direito como sendo fabricado ou adquirido.

[2] Esta linha de argumentação já foi usada por Pacheco Pereira, por exemplo.

[3] O reduzido alcance ou consequências (que não sejam o número de visitantes) das iniciativas oficiais dedicadas ao tema da arte política, sobretudo quando assumem grandes dimensões (Serralves, por exemplo), é uma boa demonstração desta falha.

Filed under: Arte, Crítica, Cultura, Política

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