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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Métrica do Metro

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No design gráfico, há trabalhos com mais prestígio que outros. Folheando um livro de história, encontram-se mais facilmente revistas, posters e capas de livros do que bilhetes de transportes ou menus de restaurante.[1] Mesmo entre os formatos populares, alguns destacam-se mais – o design associado ao Metro, em particular o de Londres, é talvez dos exemplos mais canónicos, sendo bastante difícil fazer um sistema de identidade gráfica para um transporte público urbano que não o referencie de alguma maneira.

Tanto o mapa de Harry Beck, como a tipografia de Edward Johnston, como os posters de todos os designers, fotógrafos e artistas encomendados ao longo do tempo contribuíram para uma identidade forte, que em muitos casos foi desenvolvida para minimizar as limitações do sistema.

O mapa de Beck, fazendo uma analogia optimista com um circuito eléctrico, dava a entender que se podia viajar tão facilmente pelos túneis apertados e escuros como um electrão por um cabo. Mesmo a própria geografia de Londres se vergava à facilidade das viagens usando o metro. Quanto aos cartazes, incentivando os passageiros a irem ver o campo ou visitarem os museus, começaram por ser um estratagema para rentabilizar os comboios ao fim-de-semana e feriados, servindo depois, através de exposições e livros, para promover o próprio metropolitano como uma instituição cultural.

Foi uma iniciativa progressista mas pragmática que foi resolvendo quotidianamente e através do design, problemas técnicos, económicos e sociais complexos – um bom exemplo da diferença fundamental entre design e desenrascanço e, como tal, é amplamente copiado, embora na maioria dos casos a cópia se limite aos seus aspectos mais superficiais, esquecendo toda a ligação orgânica entre o design e a experiência quotidiana ou ocasional de um passageiro.

Quanto aos maus exemplos, já me tinha queixado em outras ocasiões dos problemas do metro do Porto, desde a sinalética deficiente, à confusão dos mapas, até à tipografia marcadamente fanhosa, um problema que partilha com a estação do Saldanha, em Lisboa. Aqui, decorou-se a estação com citações de Almada Negreiros e teve-se uma daquelas ideias à primeiro ano de design: fazem-se azulejos cada um com a sua letra e, combinando-os, pode-se escrever o que se quiser – no fundo, um exercício de tipografia clássica, entendida como a escrita através de caracteres normalizados, neste caso, letras-azulejo. Infelizmente, os azulejos têm todos a mesma largura, enquanto as letras da fonte escolhida não, dando um ar esburacado e mal alinhado às frases. Podia-se resolver o problema usando uma fonte mono-espaçada, como a das máquinas de escrever, onde todos os caracteres, tanto um “i” como um “m”, têm a mesma largura. Ou – a minha alternativa favorita –, menos económica mas mais divertida, mudando a largura dos azulejos de acordo com a largura da letra – o que era capaz de dar um ritmo interessante e rigorosamente tipográfico às paredes da estação.

Mais uma vez, tenho a certeza que se dirá que esta é uma preocupação menor; que, nos tempos que correm, a tipografia é apenas mais um pormenor negligenciável – mas, ou se é o mais rigoroso possível, ou então não faz sequer sentido falar-se de rigor.


[1] Com a notável excepção de Graphic Design – A Critical History, de Drucker e McVarish.

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Filed under: Crítica, Cultura, Design, Tipografia

5 Responses

  1. João Faria diz:

    Estou a sair de casa para as aulas na esad. Com que vontade depois de ler este post e ver a imagem que o acompanha? A situação descrita, apenas mais uma neste lodaçal, é vergonhosa e revoltante. Só dá vontade de desistir.

  2. João,

    A vida de um designer, não se baseia em conceitos, mas sim na sua defesa, faz a tua licenciatura na ESAD, de coração aberto, e acredita que vais sair com quase tudo o que é necessário para ser um Excelente designer, depois, juntas-te a todos os outros que acabámos o Curso antes de ti, e andamos no mercado a lutar contra os logos com o nome e cor favorita da filha do construtor civil, ou contra os limites estipulados por um marketeer qualquer, ser Designer, é ser um criativo a muito mais niveis do que tu imaginas agora…Bem-Vindo à Luta!!

  3. Anónimo diz:

    O homem é docente.

  4. De facto, ou há dois Joao Faria na Esad, ou detecto uma falta de atençao tao gritante como a da fonte do metro nao ser mono-espaciada 🙂

  5. […] rede de metro do Porto, um assunto que me levaria a escrever mais dois textos (este e este) e ainda um terceiro, já sobre o metro de Lisboa. A questão principal era uma contradição evidente entre a famosa […]

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