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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Um país, dois sistemas (operativos)

Da mesma maneira que é possível fazer correr o Windows num Mac, Portugal é uma aristocracia a tentar correr uma democracia. Tentamos a todo custo acreditar que não é bem assim, que toda a gente é igual e tem os mesmos direitos, mas esbarramos a todo o momento em pequenas, ou grandes dinastias, estendendo-se pelas artes, pela economia, pela política. Aqui e ali, vamos encontrando os mesmos apelidos, escondidos ou não por um pseudónimo, pelo nome da mãe, por uma sigla, etc.

Temos uma democracia republicana pela mesma razão que leva algumas pessoas a terem uma mota de água (porque todos os vizinhos fixes têm uma), e uma democracia mais ou menos credível é a mota de água que todos os países fixes precisam de ter à frente da garagem para serem levados a sério.

Não é algo que aconteça só em Portugal, como é evidente. Lembro-me de um artigo a revelar que os dois candidatos a presidente dos Estados Unidos, George W. e John Kerry, não só eram primos distantes um do outro como familiares arredados das velhas casas reais da Europa. O problema só é maior aqui porque não há (nem nunca houve) uma verdadeira meritocracia. Sempre foi mais importante a qualidade da pessoa (a sua família, a sua condição, a sua legitimidade) do que a qualidade das suas acções – uma má notícia para o design ou para a arquitectura, onde deveriam ser avaliados os objectos e portanto as acções dos designers e não eles mesmos.

Aceita-se sem grandes problemas mau design apenas porque é feito por alguém de “reconhecido mérito” – uma expressão curiosa que indica que não precisamos de reconhecer (ou seja: de reavaliar) o mérito de alguém apenas porque já o conhecemos. Vivemos portanto numa “meritocracia do reconhecido mérito”, mais outra expressão interessante, que se aproxima da definição de aristocracia como sendo o governo dos melhores – não os melhores a fazer qualquer coisa, mas simplesmente os melhores, sem precisar de dizer mais nada.

A corrupção sistémica, o clientelismo e outras tantas falcatruas não passam de sintomas da coabitação entre uma lei ajustada à ideia de oportunidades iguais e uma estrutura social baseada na condição social e económica de cada pessoa – um país, dois sistemas, portanto.

Poder-se-ia esperar que com a crise a coisa vai mudar, que vai haver uma verdadeira meritocracia, mas é muito pouco provável. Já ninguém acredita na mobilidade social (um bom indicador de meritocracia), como demonstram os conselhos que se tem dado para suportar a crise: regressar à família, aguentar as dificuldades rodeados dos que nos são próximos. É uma ideia conservadora, com o seu encanto. Porém,  a própria ideia de mobilidade social implica, não um esquecimento total, mas pelo menos um distanciamento voluntário das origens – o filho de um pastor pode ser um designer, arquitecto ou político, se tiver mérito suficiente para isso. Regressar à família é esquecer a mobilidade social e com ela a tal meritocracia (boa parte das reacções às manifestações da Geração à Rasca assentam neste conformismo).

A crise tem sido usada assim como argumento para louvar a imobilidade como se fosse uma virtude, que através das nossas dívidas, enquanto portugueses, enquanto famílias, enquanto políticos, tentámos alcançar mais do que somos e poderíamos alguma vez ser, perturbando a ordem natural das coisas e agora, humilhados pela realidade, vamos regressando ao nosso poleiro ancestral, à nossa pobreza, à nossa tristeza, de onde nunca deveríamos ter saído.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Política

5 Responses

  1. Os dois sistemas operativos não funcionam bem juntos… Os problemas com os .TIFF são já bem conhecidos. Tal como o estado político actual do nosso país, os dois sistemas não podem funcionar ao mesmo tempo. Temos primeiro de sair de um e depois iniciar o outro para que o computador funcione realmente. No fim, tanto um como o outro funcionam. E podemos encontrar vantagens e desvantagens em ambos. Importa optar por um deles quando sabemos o que iremos fazer a seguir, porque conforme essa escolha iremos obter uma resposta diferente. Diria que talvez o Windows seja, desse modo, um pouco mais democrático. Podemos optar por qualquer programa. Ao passo que o Mac oferece-nos um sentido estético mais apurado e uma forma diferente de organização, com cores e etiquetas em cada pasta de ficheiros.

    Penso que, de certa forma, a aristocracia já foi abolida de Portugal por vontade própria do país. E o ideal era que mantivéssemos o sistema democrático intacto, para que todos os programas possam ser executados. Talvez não seja a opção mais estética a tomar, ou mesmo a mais organizada. Mas temos que ver que a estabilidade sócio-económica depende inteiramente do bem-estar dos portugueses no geral.

  2. sergio gonçalves diz:

    O problema mantém-se. A opção passa por acabar com o software proprietário que o país corre, e adoptar o linux de uma vez..

  3. […] imobilizando cada vez mais à volta de uma insistência estúpida na coerência: não é apenas a mobilidade social que se vai esvaindo, mas a própria ideia de independência: Fernando Nobre, por exemplo, juntou-se […]

  4. o problema desta alegoria é tentar comparar portugal com um mac… neste as coisas funcionam por isso a adaptação é rápida e a produtividade é muito maior neste sistema. já o mesmo não podemos dizer do país (e já o Eça o constatava no seu tempo sem ainda não fazer ideia do que viriam a ser computadores).

    não é que este computador/país em que estamos instalados/vivemos tenha que ser tão mau como o windows. este pode-se substituir por outro, gratuito, de nome linux.

    é menos bonito que o mac? tem menos aplicações? menos suporte? que seja. mas se todos cooperarmos e dermos o nosso melhor, ouvirmos atentamente as críticas dos utilizadores (que seríamos todos nós), programarmos o sistema a pensar na óptica do utilizador mais comum, então teremos uma coisa bem mais parecida com o MacOS… talvez até melhor.

  5. […] genética – uma hipótese deprimente que explica porque vão sobrevivendo tantos tiques nepotistas aristocráticos na nossa pobre […]

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