The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Pastoral Urbana

(não, não sei onde apanhei a imagem)

Uma das reacções mais curiosas à crise económica tem sido um certo anseio mais ou menos definido de regressar à agricultura. Na televisão, entrevistam-se reformados que cuidam da hortinha perto de Bragança e usam o pouco dinheiro que lhes vem da reforminha para pagar a luz e a água. Louva-se o regresso à comunidade de outros tempos. Numa festa em Lisboa, alguém sugeria que se fizesse uma horta colectiva, enunciando as várias possibilidades e antecedentes de manter um projecto agrícola  entre as casas apertadas dos bairros históricos ou dos arredores. Lembrou-se o exemplo da agricultura urbana que se pode encontrar nos telhados e canteiros reclamados de Williamsburg e defendida com o zelo político e quotidiano que se costuma reservar para as grandes causas.

Não é difícil perceber o impulso: a economia, o próprio conceito de economia, tem-se tornado ao longo dos últimos anos numa desilusão dorida, num medo constante, mais definido e próximo que uma gripe das aves. Não admira que se comece a sonhar cada vez mais a sério em deixá-la pura e simplesmente de lado e regressar a formas de ganhar a vida que não tenham nada a ver com juros, lucro ou mesmo dinheiro.

Não é de todo um fenómeno novo. As artes, em especial as de pequena escala, foram das primeiras coisas a serem abandonadas pela economia. Curiosamente reconhecia-se a utilidade de uma cena artística fértil para a economia de uma cidade ou de um país, mas deixou de se acreditar na necessidade de dar qualquer tipo de apoio às iniciativas artísticas, sobretudo as de pequena dimensão.

Esta política de marginalização económica calculada teve um fruto inesperado: uma preocupação cada vez maior com a economia, a orçamentação e o dinheiro, que acabaria por contaminar e definir os próprios objectos artísticos e de design: esta foi a década onde revistas como a Dot Dot Dot publicaram o seu próprio orçamento na capa; onde Dave Eggers publicou os encargos e lucros da edição do seu primeiro livro em plena introdução; onde se multiplicaram os projectos de economia paralela e os bancos de tempo, em que um trabalho de curadoria é trocado por um trabalho de design por um trabalho de música, etc.

A própria roupa e música que se ouviu durante esta época reflecte parcialmente um regresso a uma economia mais simples: a estética hipster é uma mistura em partes iguais de camisas e barbas de lenhador com os cortes de cabelo que se usavam durante a Grande Depressão, cruzados com as calças justas do pós-punk e óculos de massa geek, a sugerir sem demasiada ironia que se calhar nem vão sair de casa dos pais.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Economia, Política

8 Responses

  1. Nuno diz:

    Esta nova forma de estetitização do rural (mais uma) tem vindo a ganhar força já há quase 10 anos, nos EUA chama-se pejorativamente “neo-rural” e também pejorativamente-mas-sem-querer “rural chic”. Julgo que a música foi a pioneira nisto, com Devendras, Newsoms, Fleet Foxes e afins, explosiva e sedutoramente rurais: http://www.youtube.com/watch?v=brZTvGIzeGg

    Esta vaga é também satirizada na nova comédia hipster, a violentamente auto-crítica “Portlandia”: http://www.ifc.com/videos/portlandia-is-it-local.php

    Se esta apropriação estética da ruralidade é um fenómeno natural, uma vez que todos os movimentos ideológicos geram os seus valores culturais e imagens de referência, acho que nos aspectos práticos relativos à agricultura propriamente dita existe uma enorme inclinação para projectos bem intencionados mas altamente ingénuos, não sei se por uma questão de idealismo ou de superficialidade.

    Se calhar infelizmente a agricultura e a ruralidade não dispõem do conjunto de cenários e palcos que são as cidades.
    Não digo isto por uma questão de purismo mas por razões fundamentalmente práticas: a agricultura que é hoje moral e culturalmente valorizada (por motivos económicos e/ou ambientais) existe a uma escala territorial e não num quintal glorificado.
    A paisagem rural obviamente sempre foi também um objecto de admiração formal mas tem hoje mais ou menos as mesmas referências que no tempo do Gainsborough, cujo bucolismo não sei se será compatível com aquilo que sucede hoje, que é também apenas superficialmente semelhante do movimento “back-to-the-land” dos anos 70.

    Paralelamente, existem fenómenos que se devem acarinhar, como as hortas urbanas, cujas sérias limitações enquanto complemento ao rendimento se devem reconhecer e que funcionam mais como excelentes tipologias de clubes sociais e espaços de lazer ou educação do que como ambiciosos projectos “anti-económicos”.

    Nestes espaços quase não existem os hipsters mas são dominados pelos tais reformados tratados de forma tão paternalista pelos jornalistas que cobrem a abertura destes espaços.
    Na minha experiência pessoal existe em quase todos uma mágoa por trás do seu labor na horta- já tiveram terrenos grandes onde verdadeiramente produziam para si e para os seus ou então, depois de uma vida a trabalhar, não dispõe de terra na reforma, que possam trabalhar e legar.

    Acho positivo que se reconheça que é possível produzir algo de valor para a comunidade, viver da terra e com qualidade de vida mas se não se souber sair das cidades e das tentações de uma horticultura-enquanto-performance daqui a 10 anos não nos lembraremos de nada disto.

  2. Lê-se o texto e fica-se sem perceber: queres ou anseias?

    • Nem uma coisa nem outra (ou as duas mas numa pessoa e num tempo verbal diferente – ” anseia-se e quer-se”, talvez –, uma vez que não estou a falar de mim mas do que percebo à minha volta).

  3. Pessoalmente, gosto de viver na aldeia e trabalhar na cidade. O que por acaso é o que se passa. O Porto é mesmo aqui “ao lado”. Basta entrarmos num autocarro e em apenas meia hora estamos lá. E vale bem a pena! Se estou em casa estou, assim, rodeado de silêncio, calma, ar puro. Se vou a uma reunião, por exemplo, fico logo envolvido em ruído, movimento, agitação. E gosto disso! Tanto a cidade como o campo são para mim algo de extraordinário, dependendo das situações.

    Algo que acho interessante destacar é o facto de os meios publicitários por vezes utilizarem a técnica da “inversão”, que costuma funcionar. No campo, utilizam-se cores citadinas, cinzentos, etc. Nas cidades recorre-se muitas vezes a cores do campo e praia. Os azuis, os verdes, etc. Tal como no inverno as cores quentes são mais apelativas ao passo que no verão são as cores frias. Pode-se dizer, por isso, que há uma certa nostalgia pelo campo, para quem mora nas cidades, e uma certa paixão pela modernidade por quem mora no campo. O design tem aqui essa função de apelar a essa sensibilidade.

  4. maria diz:

    O problema de cultivar uma horta na cidade ou arredores, são os solos estarem inquinados.

  5. […] tinha falado aqui por mais de uma vez dos indícios crescentes daquilo que alguns chamam – talvez com pompa a mais […]

  6. […] certo ponto, a estética hipster com as referências caricaturais aos penteados, calçado e roupa usados durante a Grande […]

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: