The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

“Então tu és punk e andas de comboio?”

Ouvi a piada numa inauguração. Um punk contava as suas aventuras: okupações de casas um pouco por todo lado, bandas, escolas de arte, bezanas passadas e presentes. A dada altura, dizia como tinha apanhado o comboio para ir não sei onde e alguém lhe perguntou a rir como podia um punk andar de comboio. Era uma piada, evidentemente, mas que me lembrou ocasiões onde alguém perguntava – com toda a seriedade – como podia alguém que não esteve em Londres em 1977, de cabelos espetados e a viver numa casa ocupada, aspirar a ser um punk ou pelo menos apreciar a música, design ou roupa do movimento. Como pode, insistiam, uma coisa supremamente transgressiva e anti-institucional como o punk ser exposta num museu sem perder a coerência, a autenticidade, sem se estar a vender?

É um argumento curioso que assenta numa falácia: algo só pode ser realmente transgressivo se ninguém lhe tocar, se não fizer nada ou não servir para nada. Sob o pretexto de preservar a autenticidade de algo, limita-se-lhe o alcance e a pertinência (pode até ser independente, desde que não sirva para nada – uma coleira de picos usada como pulseira electrónica que toca sempre que o dono apanhar um comboio ou entrar num museu).

Infelizmente, não são só os punks que não podem andar de comboio. A sociedade vai-se imobilizando cada vez mais à volta de uma insistência estúpida na coerência: não é apenas a mobilidade social que se vai esvaindo, mas a própria ideia de independência: Fernando Nobre, por exemplo, juntou-se ao PSD enquanto independente, depois de dizer que nunca se uniria a nenhuma lista. Veio logo metade da Esquerda gritar “Incoerência” e “Traição”, enquanto a Direita aplaude a independência e sensatez do homem. Tivesse escolhido o PS ou o Bloco, o berreiro seria o mesmo,  embora simétrico.

Mas, e por mais que desagrade a escolha – não seria a minha, sem dúvida nenhuma –, a independência é, por definição, independente. Pode-se fazer o que se quiser com ela. Se escolheu bem ou mal, só o saberemos avaliando a sua prestação futura.

Não admira que haja tanta gente a fugir da própria ideia de partido político (veja-se a Geração à Rasca). Já não é possível concordar com eles um bocadinho, que se é logo acusado de compadrio, de ter vendido a alma, etc. E se mudamos de ideias, a coisa ainda piora: somos vira-casacas, traidores, interesseiros, arrivistas, etc. Talvez a coisa mais transgressiva que se pode fazer neste momento em Portugal seja recusar opções extremas (Sócrates ou Passos, Maioria Absoluta ou o caos, Benfica ou Porto, Sim ou Sopas, Arte ou Design).

Filed under: Arte, Política

7 Responses

  1. Humberto diz:

    Não irei concluir que isto se trata de preconceito português ou, se quisermos, de “rótulos sociais” estas consecutivas e – ao que parece . inevitáveis catalogações que a nossa sociedade teima em fazer evidenciar, talvez com algum receio em transparecer precipitado.
    Uma questão não menos evidente já foi referida aqui no Ressabiator, provavelmente o último post que nos falou de estatutos sociais e como têm um peso descomunal, bem mais proeminente que o talento, a formação ou o curriculo de cada cidadão.
    Apesar de salientes e conscientemente inaceitáveis, só de facto nos
    apercebemos da sua importancia e do seu poder devastador quando efectivamente nos deparamos com este tipo de “catalogação social” – sim, sim- é medieval este conceito- a ideia que é possivel progredir num meio social ostentado por um Estado Democrático já existe há mais de 100 anos, no entanto em países onde a diferenciação social é potencialmente abrupta, estas diferenciações marcadas pelas índoles familiares ou ate mesmo de preconceito são mais que comuns (Portugal e Espanha são os que possuem maior diferenciação social na zona EURO)- são dominantes.

    Há alguns meses a Direcção Cultural da Câmara M de Ribeira Grande ( São Miguel, Açores ) dirigiu se ao meu gabinete e expôs a possibilidade de efectuar um projecto web para a Direcção. Ora, o conceito exposto para a sua execução foi, para mim, um desafio e desde o inicio que me elucidaram que o Estado não tinha dinheiro para pagar o projecto ou que não o queria fazer. Consultaram me apenas porque alguem da Direcção vi o meu portfolio online e julgou que seria capaz de o executar. Bom, mas o que é certo é que, apesar de não haver meios e a coisa ser terrivelmente complicada para o meu lado ( o projecto foi complexissimo em termos de programação PHP e não uso cms, ou seja, é programado manualmente ) o site nasceu e foi pago por um conjunto de patrocinadores que ainda hoje dispoem de publicidade online neste site que é- ate ao momento – o mais visitado da Cámara em questão. O Estado nem um unico cêntimo contribui para a sua execução e no entanto é certamente a entidade que mais ganha com ele.

    Ainda hoje perguntam me: ” e então quem conheces lá dentro para fazeres o projecto?” ou “deves ter cobrado como o caraças por ele, hein?” , como se fosse já um Dogma secular fazer projectos pro Estado só com padrinhos e pagos pelo seu peso em oiro.

    Algo existe de errado em tudo isto, se as coisas são assim não admira que estejamos na cauda na Europa, não só em termos geográficos mas acima de tudo em mentalidade.

    Ah, e para quem tem curiosidade, pode ver o projecto em:
    http://cultura.cm-ribeiragrande.pt

    • Também já cheguei a receber comentários desses vindos, tanto de clientes como de colegas de profissão, durante a apresentação do meu currículo e portefólio. São muitos os que pensam que a “meritocracia” é um mito, ou mesmo uma utopia. No entanto, poucos se apercebem que a grande maioria das empresas actuais de sucesso conseguiram chegar onde chegaram por mérito próprio e não através de cunhas ou alcunhas. Os grandes empresários de sucesso são aqueles que começaram do zero. Não fosse ter havido em tempos uma classe chamada de Burguesia, que era nada mais nada menos que a afirmação da classe do Povo face à Nobreza (algumas famílias do Povo tornaram-se tão ricas que conseguiam poderes superiores aos dos Nobres, nomeadamente na economia do país, o qual se tornou inteiramente dependente desta nova classe social – daí que se tenha visto necessário o surgimento do novo conceito social de Burguês). Muitos burgueses chegaram a ter na sua posse bens e valores em quantias muito superiores aos da própria coroa! Caso que hoje em dia é mais do que evidente. As empresas conseguem gerar decisões económicas sobre o próprio Estado. E conseguem até derrubá-lo quando é preciso. Veja-se a crise actual, fomentada por bancos privados internacionais.

  2. Naturalmente, devido à situação actual, é comum encontrarmos “vira-casacas” um pouco por todo o país. Uma situação que me incomodou muito há uns dias atrás passou-se numa reunião com um cliente. Estavam previstos dois designers para o desenvolvimento de um projecto de uma campanha publicitária que iria dar a conhecer duas marcas, dois produtos distintos, a distribuir pela mesma empresa. Dado o volume de trabalho, foi mesmo necessário repartir o projecto em dois. Durante a reunião foram discutidos problemas e decididas as soluções. Lá para o fim, quando comecei a achar muito estranha a posição da minha nova “colega” designer, perguntei como quem não quer a coisa em que escola ela tinha tirado o curso. Ao que ela respondeu que era licenciada em Arquitectura.

    Mas não foi o facto de ela ser arquitecta e de estar a desenvolver projectos de design que me preocupou mais. Foi, sim o que o cliente disse a seguir, em tom de brincadeira “Vês, ela podia ser tua patroa. É arquitecta!”. Eu nem respondi. Mas o que será que arquitectura tem a ver com design?? O que é que ela me podia ensinar? Alguém me podia responder desta forma: o design está para a arquitectura da mesma forma que está para a pintura ou escultura, dada a sua origem estar na Arte. Tudo bem, por esse prisma. Mas julgo que não haverá nada que aprender com um arquitecto, que não seja relacionado com interceções de rectas, planificações e, entre muitas outras coisas, materiais de construção.

    Há aquela ideia de que o arquitecto é que é… Mas para mim essa pessoa auto-apelidada de “designer” não é mais do que uma “vira-casacas”. Pelo que eu percebi, como não conseguiu emprego numa empresa de arquitectura resolveu procurar trabalho numa empresa de design. Depois de 2 anos a trabalhar nessa empresa, foi dispensada e agora trabalha como designer independente.

    Qualquer dia, quando o design ficar totalmente esgotado, vou ver se faço como ela e candidato-me a trabalhar numa empresa de arquitectura… Vou até começar a ver se aprendo a trabalhar no Autocad. Lol

  3. Hugo Santos diz:

    Concordo com o discurso sobre a coerência e a “elasticidade” que é necessária para a mudança.

    Parece-me pertinente.

    Apesar disso, não concordo com a “desculpa velada” da escolha do Fernando Nobre. Não foi apenas a esquerda que se indignou. Não se trata de esquerda ou de direita. Trata-se de uma escolha APARTIDÁRIA que foi agora traída. O homem, a meu ver, perdeu a maior parte da credibilidade política que lhe atribuí quando nele votei. Afirmava-se defensor de uma cidadania apartidária e aceita o convite do SEGUNDO partido mais votado?? Ainda por cima para o cargo de Presidente sa Assembleia?? É uma incoerência grave, e não deve ser desculpada levemente.

    A existir uma desculpa (que duvido) só pode contradizer tudo o que o homem andou a dizer durante a campanha para as presidenciais.

    Votei nele. Lamento agora, porque afinal ele não representa aquilo em que acredito: os cidadãos apartidários podem fazer uma mudança política no país FORA dos partidos. Ele, apesar de alegar independência, tornou-se PARTIDÁRIO ao aceitar o convite. Pode bater na tecla da independência, mas ele será eleito pelos votos do PSD e não pelos seus próprios votos.

    Se alguém acha que esta atitude não é incoerente, por favor explique-me a sua visão, e diga-me porque considera esta atitude coerente.

    Continuem com o bom trabalho.

    • A posição actual de Nobre é incoerente com as suas posições passadas. Não há grande dúvida quanto a isso.

      Infelizmente, a sua posição de crítica aos partidos, com a rejeição de negociação com os mesmos, não lhe deixava grande margem de manobra. Mais um exemplo de escolha extrema onde se colocou ou foi colocado – neste momento se alguém se atreve a criticar o funcionamento de alguma coisa é logo acusado de a querer eliminar ou desafiado a rejeitar totalmente essa coisa.

      (Aproveito para dizer que não votei nele nas presidenciais e não será a sua escolha actual que me levará a votar nele ou no PSD.)

  4. Hugo Santos diz:

    Queria sublinhar isto novamente, porque é a frase mais importante (e que demonstra a ausência de independência):

    ELE SERÁ ELEITO PELOS VOTOS DO PSD E NÃO PELOS SEUS PRÓPRIOS VOTOS.

    Caso contrário, seria eleito pelos votos de VÁRIOS partidos (o que é tecnicamente impossível).

  5. […] dei o benefício da dúvida a Fernando Nobre (porque ainda acredito que mudar de ideias às vezes até funciona), mas no caso […]

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