The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Não se percebe

Às vezes, nem sei porque me dou ao trabalho. De ir a um museu em Portugal, quero eu dizer. Eu sei que somos um país com história, com pergaminhos, às vezes um bocadinho fechado. Que os museus têm um papel de preservar essa história. De, pela itinerância das exposições, nos permitirem ver coisas que habitualmente não veríamos na nossa triste soleira da porta. De entreabrir um bocadinho os nossos pontos de vista. Eu sei isso tudo.

Infelizmente, também sou um designer.

Que não pratica, é certo, mas dedica o seu tempo a escrever sobre design, tentando com isso ir arranjando  argumentos que permitam defender em público a produção de um design de qualidade em Portugal. Uma tarefa difícil, tendo em conta a incapacidade das instituições públicas portuguesas — e em particular os museus — conseguirem arranjar ou manter uma identidade gráfica decente, nem digo excelente, mas simplesmente decente. Que estivesse ao nível de um folheto do Continente ou do Mini-Preço, se o exemplo concreto ajudar.

Mas não: cada museu dedica-se com brio a arranjar uma identidade gráfica pior que a do seu parceiro e, se tem uma decente, trata logo de a piorar (através da criação de um novo logótipo – como Serralves – ou da má aplicação do existente – como o Mude). Porém, se algum dia houver um Globo de Ouro da Sic para o mau design português, um dos finalistas seria sem dúvida o Museu de Arte Popular, cuja identidade e site são do pior que tenho visto.

Sabendo que o Museu de Arte Popular, na altura em que foi aberto em 1948, contou com a colaboração de artistas gráficos como Thomaz de Mello, Manuel Lapa ou Paulo Ferreira, – toda a Geração SNI –, não se consegue perceber como se faz um logo como este para um museu que tem uma ligação evidente com uma das poucas alturas em que o design português teve alguma réstia de qualidade.

Por amor de Deus, se não estão com vontade de perder tempo, usem simplesmente o lettering da fachada!

Tentem acima de tudo não dar ainda mais argumentos àqueles velhinhos das paragens de autocarro que dizem que no tempo do Salazar era tudo melhor.

Anúncios

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Logos

21 Responses

  1. Humberto diz:

    ainda nem acredito no acabei de ver em http://www.map.imc-ip.pt ….

  2. marta diz:

    Ainda por cima o logo está distorcido, no site. E por dentro, está alguma coisa decente? Outro dia fui ao MUDE… que MEDU!!

  3. Miguel Sanches diz:

    Bela sugestão a de usar o lettering da fachada… este é o exemplo concreto em que o designer apenas tem de estar atento aos pormenores e olhar em redor. Mas não, neste caso, alhearam-se completamente de todo o contexto!!! Que pena…

  4. Manuel diz:

    É que é feio todos os dias! Ainda por cima tem um efeito blur. Quem fez isto mesmo?

    • rui tavares diz:

      O efeito blur não é um efeito… Vê-se que a imagem foi criada com os DPis correctos mas depois quem a implementou no site aumentou o tamanho da imagem, ou simplesmente colocou os dados das dimensões da imagem na programação do site de forma incorrecta. 🙂

  5. Responsáveis pelo site sao, (segundo a ficha técnica) o Centro de eLearning do Instituto Politécnico de Tomar (IPT) e Área Interdepartamental de Tecnologias de Informação e Comunicação da Escola Superior de Gestão de Tomar do IPT. (o que já o torna mais perceptivel mas igualmente inaceitável..)

    Nao sei se serao tambem autores do logotipo mas possivelmente.. o qual, sinceramente me amarga o coracao especialmente por reconhecer a qualidade e quantidade de recursos gráficos com que a Arte Popular Portuguesa nos brinda (e logo a nós designers como principais beneficiados) nao sei de verdade como se sairam com isto..

    nao existe nenhum designer na equipa de construcao do site (o que é constatável..) metade dos títulos em caixa alta, metade em caixa baixa.. separadores ao Deus de Ará.. “clique aqui para ver” um milhao de vezes (feio).. O layout do corpo central do site tratado de maneira muito precária a nível hierárquico.. a barra do lado direito discute de forma berrante o protagonismo da atencao do usuário com o espaco das noticias..

    enfim.. mas apesar de tudo creio que realmente o logotipo ultrapassa limites e vejo me incapacitado para o comentar de forma construtiva..(talvez pelo meu envolvimento com a Arte Popular Portuguesa a minha maior indignacao) digo só que deveriamos e podiamos tratar melhor as instituicoes nacionais e o MAP mais pela carga simbóilica que aporta pelo “povo”..

    perdao pelos erros de acentuacao mas o teclado nao me disponibiliza mais que um ñ..

  6. rosapomar diz:

    O logotipo foi apresentado publicamente há um ano e foi desenhado de véspera (o autor disse-o na apresentação pública) por um responsável do IPT. É, infelizmente para todos nós (e muito particularmente para quem se bateu pela reabertura do MAP), um trabalho mediocre, tanto na forma como no conteúdo.

  7. Patty diz:

    Mas se foi desenhado à pressa e é inadequado e feio, porque é que foi aceite e apresentado???
    A incompetência continua a ser encarada com muita bonomia por estas bandas…

    • rui tavares diz:

      Pois, a questão da pressa muitas vezes passa pelo cliente… Infelizmente, já tive de fazer trabalhos à pressa imensas vezes devido a clientes despreocupados com o design e híper preocupados com as datas. Normalmente pensam que criar um logótipo é o mesmo que fazer um rascunho: é só chegar ao pc e pronto, já está… Digo isto, sem saber realmente se o designer em questão é melhor ou não do que isto.

  8. Dulce diz:

    Não percebo pela sua crítica se visitou o museu, mas suponho, pela preocupação, que não o terá feito. Se o fez, ou mesmo em caso contrário, admita que o problema do logótipo é menor, e mesmo nós designers devemos ficar antes de mais desalentados com o próprio museu. O museu é uma farsa, um projecto em banho maria desde a criação, com breves respirações como essa da intervenção liderada pela Joana Providência. Visitar o MAP e perceber o que se passou e passa é mais desolador do que qualquer injúria ao design, porque é antes de mais uma injúria a qualquer projecto que seja público e partilhado por todos.
    Concluíndo: Se visitou o museu, se conhece o projecto, ao escrever este texto… nem sei porque se deu ao trabalho.
    Não concorda?

  9. neste caso o objecto comunicado e o objecto comunicador sao congruentes em qualidade.. quando a espectativa nao é grande a desilusao nao é um perigo.. pelo menos nao estamos com o design a vender gato por lebre..

  10. Miguel Sanches diz:

    Realmente o site, já para não falar no logo como falei anteriormente, é de bradar aos céus. Mas o meu espanto foi ver que os responsáveis eram daqui do IPT. Não percebo como numa estrutura como a nossa (IPT) se entregam estes projectos às Escola Superior de Gestão, quando existe uma Escola Superior de Tecnologia com cursos de Design e Tecnologia das Artes Gráficas, Fotografia, Tecnologia de Informação e Comunicação. Parece-me um erro crasso de casting…

    • José Ribeiro Mendes diz:

      Se o Miguel verificar bem, na equipa técnica, tem colegas das áreas que refere, design, fotografia, TIC, etc.
      A Direcção de projecto é de um Professor que na ôrgânica do IPT, está afecto à ESGT. Mas o logo não é de nossa autoria.

  11. José Ribeiro Mendes diz:

    Só para esclarecer que o logo não é de autoria do IPT,contráriamente ao aqui afirmado.
    Quanto às críticas sobre o design do site são opiniões, algumas até aceitáveis. Sabemos bem que em várias áreas do saber há muitas opiniões diferentes e, por vezes, contraditórias. É díficil agradar a todos e também tenho ouvido críticas muito favoráveis.

    • Há realmente partes da apreciação crítica de um objecto que são estéticas. Ou seja são opiniões, o que não impede que se possam sustentar. No caso do site, as minhas objecções são o peso excessivo na navegação, em especial as barras escuras, por oposição aos próprios conteúdos, e a variedade tipográfica usada em positivo e em negativo, contribuindo cada um destes problemas para um todo pouco coeso. Mas o que me parece pior é o tratamento dado ao logo, com o redimensionamento automático forçando uma distorção. Além disso, o carácter light do logo não consegue suportar todos os elementos escuros da página (barras e texto a bold).

      Ps. – A disparidade evidente entre logo e site ilustra bem outro problema dos trabalhos institucionais em Portugal, da qual o Centenário da República é outro bom exemplo: alguém faz o logo, alguém o aplica e não se percebe muita comunicação ou unidade entre as duas fases. Há uma fragmentação do processo do design que torna difíceis os bons resultados.

      • José Ribeiro Mendes diz:

        Até posso estar de acordo com alguma distorção que possa ter acontecido ao logo.
        Queria contudo esclarecer que essa não é responsabilidadde do IPT. O logo foi facultado e colocado no site. Ainda, o gestor de conteúdos do site permite, com muita facilidade e flexibilidade, alterar o logo.
        PS- Quanto á imagem de um todo coeso tem muito a ver, como diz, com os conteúdos e as cores dos conteúdos ali colocados. Também neste aspecto, o Gestor de conteúdos permite toda a flexibilidade de gestão daqueles conteúdos.

  12. Quanto às razões pelas quais este não é um logo bem conseguido: têm a ver com a variedade de tipos de letra usada (duas mais o coração) e o facto das suas características formais não casarem bem entre si, nem ao nível dos contrastes, nem ao nível do desenho característico de cada tipo (que são muito distintos), nem das suas proporções, que também não se ajustam entre si. Tudo isto torna difícil um todo coeso, que devido ao seu recorte irregular e variedade de contrastes é difícil de alinhar com outros elementos numa página impressa ou num site. A opção original, que entretanto pude consultar, com um rectângulo (negro ou com uma cor) e as letras em negativo, dá alguma unidade ao conjunto, é verdade, mas ainda assim o contraste entre uma fonte caligráfica e uma linear continua a fazer um conjunto estranho, com kernings e espaçamentos discordantes.

  13. carlos bártolo diz:

    Esta exposição resumida pretende apenas e tão só esclarecer alguns aspectos que se consideram necessários para o correcto entendimento da situação acima referida.

    -Não existe uma “opção original” e uma sua subsequente. Existe o logótipo do MAP, já facultado ao autor do blog mas não apresentado aqui, e aquilo que se encontra no cimo deste post, retirado do site do museu, uma versão adulterada por razões adversas ao designer e ao MAP.

    -O pedido correspondeu apenas ao desenho do novo logótipo do museu. Não foi desenhado na véspera, nem tal foi referido na sua apresentação pública pelo seu autor.

    -É o resultado de uma leitura do contexto e da sua transcrição, pelo designer com os responsáveis do museu, todos investigadores do período no qual esse foi criado. Para o efeito utilizaram-se como referência elementos existentes nos interiores do próprio edifício: o coração pintado por TOM no mural da Sala do Minho e o tipo utilizado nas legendas descritivas das salas-regiões. A formalização resultou num objecto que poderá obviamente não satisfazer a todos, correspondendo a opções do autor em conformidade com o cliente.

    -A repetição fiel do lettering da fachada, tal como a de outros símbolos, marcas e “logótipos” – concebidos pelos artistas-decoradores que colaboraram com António Ferro na definição da linguagem do Estado Novo – foi admitida, não sendo realizada por não corresponder a pressupostos do programa de reabertura do museu. No entanto, não é objectivo do novo logótipo substituir esses nos locais onde subsiste a sua memória, secundarizando-se a sua utilização apenas para material produzido contemporaneamente

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: