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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Design Estilhaçado

Qual é o papel público – que é como quem diz “político” – do design em Portugal? Actualmente, pouquíssimo. Resume-se, em grande medida, a defender os seus próprios interesses enquanto profissão através do Centro Português de Design, das Associações e da luta pela Ordem*.

O maior desses interesses é, naturalmente, definir quem tem acesso ao Estado enquanto cliente e como esse acesso se processa. Apesar de toda a conversa do design enquanto empreendedorismo, iniciativa privada e tudo o mais, o Estado continua a ser o cliente de sonho. Daí que boa parte da discussão do papel público do design português tenha a ver com os concursos e a sua regulamentação. É através dos concursos e do ajuste directo que o designer português acede ao Estado como cliente.

Ao contrário do que se pensa, a relação entre concursos e ajustes directos não é mutuamente exclusiva. Em muitos casos, os dois sistemas convivem um com o outro “produtivamente”. Em certos casos, faz-se um concurso público de um logotipo destinado a jovens ou firmas pequenas, com um prémio relativamente reduzido, estimulando a ideia de oportunidade democrática, de apoio aos novos profissionais, etc. O logotipo resultante é depois aplicado por uma firma contratada por ajuste directo, que recebe a maior fatia do orçamento. Todo o caso do Centenário da República é um bom exemplo.

Este género de processo através do qual um objecto de design é produzido por uma firma para depois ser aplicado por outras acaba por ser uma das características do design português. É particularmente visível na fragmentação da imagem das instituições públicas e culturais que, mesmo quando bem planeada, acaba por se pulverizar quando é aplicada por um sem número de firmas contratadas sem critério. Um bom exemplo foi a Casa da Música pré-Sagmeister cujo trabalho gráfico chegou a ser assegurado por quase dez firmas de design competindo visivelmente entre si numa salgalhada dissonante.

Mesmo nos concursos com bom regulamento, a coisa não melhora: um júri de designers pagos escolhe alguns designers pelo seu portfolio, também eles recompensados pelo incómodo, para fazerem uma imagem gráfica, dos quais um é seleccionado para fazer o trabalho pela maior fatia do preço. Os custos de ninguém trabalhar de graça tornam o concurso mais caro, mas a maior pergunta é como vai essa imagem ser aplicada e por quem? Se o trabalho inicial é seleccionado por outros designers, a negociação com o cliente, a peça fundamental de qualquer trabalho de design, acaba por ficar de fora, chegando o designer original a ser preterido em proveito de uma matilha de designers, servindo cada um o seu interesse instalado.

Muita gente acredita que mais regulamentação e a criação de uma Ordem iria regrar tudo isto, mas este é um problema em grande medida estético: o design não sobrevive bem a toda esta fragmentação. O resultado final até pode ser legalmente justo e eticamente correcto mas só muito raramente é interessante enquanto objecto de design. Uma solução seria encorajar estilos de design que sobrevivam a todo este passar do balde, como o Estilo Internacional Tipográfico ou o Design holandês, que conseguem navegar bem a fronteira entre a criatividade e a normalização.

Mas é praticamente impossível aplicar uma solução desse género a Portugal. O ensino do nosso design é fragmentado e a sua prática, como resultado desse ensino, é individualista. Na escola, o trabalho de grupo é desencorajado e mal acompanhado; apenas uma maneira de lidar com turmas grandes. Há casos onde se penaliza um trabalho apenas porque foi feito em grupo. Assume-se que é apenas um expediente para poupar esforço e não uma maneira de atingir objectivos que não seria possível alcançar isoladamente. O resultado é uma espécie de imposto sobre a capacidade de organização que premeia a ambição pessoal, sacrificando tudo o resto. Resumindo: formam-se preferencialmente patrões e freelancers; quem não consegue ser um ou outro, fica para funcionário. O que falta neste esquema são quadros intermédios competentes, gente que não quer formar ou dirigir a sua própria firma, mas cuja competência seria trabalhar como designer em estruturas complexas de produção.

Outro problema, tão grande ou maior do que este, dele deriva: a ênfase na chefia individual, na gestão, cria uma cultura onde o pormenor de execução é desvalorizado e negligenciado, deixado para os subalternos. É de bom tom reparar no pormenor, mas apenas como uma forma de microgestão, mais gabada do que praticada. Assim, a grande maioria do design português falha na tipografia e na simples execução técnica. Não admira portanto que um logotipo feito por um designer e aplicado por outro só muito raramente sobreviva ao processo.

Há uns poucos designers que conseguem manter essa qualidade de pormenor mas o seu exemplo não só não é seguido, como, por tudo o que já disse mais atrás, não pode sequer ser seguido. A cultura do designer genial e individualista impede que se perceba porque esses designers são realmente bons. São admirados pela sua originalidade, mas a qualidade do seu trabalho vem principalmente da qualidade dos pormenores. O seu trabalho é apreciado porque são figuras de autoridade, mas deveriam ser figuras de autoridade apenas porque o seu trabalho é bom.

* Um dos pontos do acordo com a Troika é a redução das actividades regulamentadas. Como afectará essa medida a criação da Ordem?

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Ensino, Política

5 Responses

  1. filipa diz:

    respostas para as minhas perguntas.

  2. Roswell Cardoso diz:

    Detesto elogiar e este blog não engana ninguém: é político, ideologicamente motivado, mas apresenta os melhores e mais pertinentes conteúdos na web escrita em português. Obrigado.
    Este post lembrou-me um assunto que já não é novo: http://noticias.sapo.pt/info/artigo/1153631.html

    Cordiais saudações.

  3. Vera Sacchetti diz:

    Gosto muito desta observação, no final, sobre o trabalho em grupo na educação superior de design. É daí, na minha opinião, que também derivam as questões que referes no início do post. Mas não é também algo enraizado numa educação de design desenvolvida no seio das belas-artes, sintomático de maneiras de fazer dos anos 70, que por sua vez vieram já do modernismo? E é essa educação o início de tudo, ora bem. Mas aí, mais uma pescadinha de rabo na boca.

  4. Não houve apenas uma tradição de ensino modernista: no ensino americano sempre houve um culto do designer heróico à la Fountainhead; na Europa, a ênfase foi mais colectiva. No design alemão e suíço de 60 e 70 era encorajada a equipa e o sistema e menos o carisma do patrão.

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