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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O fim da classe média e do design

Não é uma novidade que a crise está a destruir a classe média, que isto é um sinal da crescente desigualdade, do fim da mobilidade social, etc. Ficam os ricos, ficam os pobres, desaparece o meio – é daquela sabedoria de paragem de autocarro[1] que toda a gente diz e toda a gente sabe.

É uma lei geral que se aplica facilmente às instituições da cultura: em Portugal, sempre houve falta de uma classe média nas artes. No Porto, que é uma cidade relativamente pobre, há grandes estruturas – Serralves, Casa da Música – e depois há gente a expor em sótãos, sem nada entre os dois extremos. Em Lisboa, onde há mais dinheiro, entre a grande e a pequena instituição há mais nuances: entre o comissário de topo e o faz-tudo, há um pequeno exército de pessoas que exercem funções de subcomissariado, de modo competente e invisível. Com a crise, é natural que esta classe média desapareça também.

Outra classe média, que sempre esteve ameaçada e que irá sofrer com a crise é o design, que, em mais do que um sentido, está a meio caminho entre as artes mais elevadas e a “canalha”. O primeiro destes sentidos é hierárquico: nas discussões das artes e do seu papel público o design fica sempre abaixo das artes plásticas, do cinema ou da arquitectura. Para o confirmar, basta ver a quantidade de atenção mediática dada a cada uma destas áreas e a quantidade de financiamento público que lhes é destinada. O segundo sentido é funcional: o design serve de mediador entre as artes mais elevadas e o público. Serviu ao longo de todo o século XX como um interface no acesso à cultura, possibilitando às classes mais desfavorecidas acesso a informação inalcançável de outro modo. O ideal modernista no design foi uma crença na pedagogia como fonte de mobilidade social. Apagando o design, fica-se, por um lado, sem a classe média das artes e, por outro, com uma classe média em geral com cada vez mais dificuldade a aceder às artes.

Apagando o design, fica-se com uma cultura que não se preocupa em comunicar com o seu público, que acredita que um objecto de arte, um edifício ou um museu não precisa realmente de ser indicado por uma sinalética, de ser anunciado por um cartaz, de ser comentado numa brochura ou num catálogo – a não ser talvez pela simples razão que lá fora há sinaléticas, brochuras ou catálogos. Sem cultura intermédia, fica-se apenas com uma cultura isolada e elitista.


[1] A sabedoria de taxista vai ficando para quem tem dinheiro para dela usufruir.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Economia, Política

2 Responses

  1. Discordo no que toca ao design. Eu acredito numa espécie de darwinismo cultural. A sobrevivência dos adaptáveis. 🙂

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