The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

“Passado e Anti-Passado”, António da Costa Dias

Deixo aqui alguns dos primeiros parágrafos da introdução de um livro de 1966 recolhendo os discursos onde se debateu a liberdade de imprensa no Parlamento Português de 1821 e que levariam ao levantamento da censura prévia no ano seguinte, interrompendo umas tantas centenas de anos de tradição, primeiro Inquisitorial e finalmente Pombalina:

“As nações onde se fala de passado, e para cujo povo esse passado representa um pesadelo trágico e uma fatal condenação de inércia, são as que menos o possuem. Quando nelas é preciso impor uma decisão, uma aventura, uma política que não têm argumentos que a justifiquem (as razões das classes dirigentes são – devemos sabê-lo – inconfessáveis e confidenciais), ou o maquinismo repressivo que as mantenha, é ao passado que se recorre. Monta-se então uma romaria, sem esforço grotesca, grotesca até aos pêsames festivos, sentimentalmente, e nas frases esféricas de patriotismo mortuário. Os ideólogos agiotas, para quem a História é apenas um capital com dividendos tentadores, uma transacção de banco com muitas filiais desinteressadamente ao serviço do público, os agiotas, lembro, abrem os túmulos dos heróis, inventam com as ossadas os fantasmas que mais os favorecem (ajudando assim a desenvolver o industrialismo) e obrigam-nos a declamar as suas próprias ideias (deles, agiotas), cônscios, no fundo, de que as suas próprias ideias decentemente não podem ser proferidas por bocas de vivos.

[…] Os ideólogos agiotas, longínquos de toda a decência, nem se incomodam com o facto de certos grandes homens (alguns que não se podem esquecer por causa das estátuas e do turismo), cujos centenários fogueteiam no já mencionado programa de romarias (centenários de morte ou de nascimentos a muito confortável distância da morte), haverem sido (os grandes homens) perseguidos, vexados, desprezados, assassinados pelos ideólogos contemporâneos, pela polícia contemporânea, pela censura contemporânea, pelos cadafalsos contemporâneos – pessoas e instituições que eles (os agiotas) reinvindicam pontualmente, em nome daquela continuidade a que acima referi, e que constituem, afinal, a sua única ambição de continuidade.

Decerto que, depois de um século, as perseguições e tormentos infligidos aos homens são transfiguráveis (embora a curto prazo) em moralidade para se provar como os perseguidos de hoje podem ser material resistente para novos tormentos e perseguições, ou então em expressão estética, em tema de arte […]”

(A capa é de João da Câmara Leme)

Filed under: Não é bem design, mas..., Política

3 Responses

  1. Humberto diz:

    “As nações onde se fala de passado, e para cujo povo esse passado representa um pesadelo trágico e uma fatal condenação de inércia,(…)”

    Preocupante deveras essa assombrosa semelhança com a realidade Governamental e Social que vivemos hoje em Portugal. A inércia conduz fatalmente à incapacidade que o povo de uma Nação tem em facultar posições ou principios que deveriam ser eles proprios os factores regentes dessa mesma Nação.

    Uma Nação edifica se em valores e ideiais e sobre eles se colocam o sistema politico. O passado tem, evidentemente, uma posição de relevo porque determina em consciência o presente. Utilizando um exemplo, lembremo nos da Alemanha, cujo povo é constantemente fulminado e atormentado com a atrocidades cometidas no Holocausto. E no entanto a sua postura é admirável, esses temas ainda que trágicos são leccionados nas escolas alemâs, obras de arte são edificadas e os proprios monumentos são conservados com o intuito fundamental de manter a consciência social em alerta para os perigos tremendos que os ideais fascistas podem facultar quando levados ao extremo. Sofre se sim mas lembra se e da memoria atroz surge a necessidade em repensar os valores que devem ser os alicerces da Sociedade actual.

    Em Portugal é frequente sentir se um tabu ainda hoje ao se comentar, por exemplo, a existencia da PIDE e isso para aqueles que sabem o que foi porque nem todos sabem. Através do texto exposto eu vejo sim um reviver constante de problemas sociais e julgaria ser recente tal não fosse o facto de ter sido referido a sua data. Esta inércia, não só perante o desenvolvimento politico-social mas também perante a simples mas importante noção de é preciso ter se uma posição/opinião fundamentadas sobre o sistema politico é deveras uma situação no minimo inaceitavel para um pais que se diz Democrático em em pleno sec XXI.

    Obrigado por esta reflexão, caro Professor Doutor M Moura,

    Humberto

  2. Elson diz:

    Antonio da Costa Dias é um nome de rua em bairro onde moro, interlagos, São Paulo, SP, Brasil.
    Não sei quem foi, não sei se foi este, acho que, escritor português, certo? Me corrijam se errei.
    Elson

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: