The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Livros? Livros!

Ontem nas Belas Artes do Porto, apesar da chuva, a feira do livro de publicações independentes, organizada pela Pangrama, foi um sucesso: sempre que passei por lá a sala envidraçada estava cheia de gente, curiosos e compradores cada um com as suas compritas debaixo do braço. Eu próprio trouxe um pequeno monte de publicações, a maioria das quais da Estante, um projecto do qual pude, pela primeira vez, usufruir ao vivo. Para quem não sabe, é uma pequena livraria itinerante sob a forma de uma pequena estante de madeira que se junta a eventos como exposições, concertos e feiras, vendendo publicações na sua grande maioria do estilo a que se poderia chamar independente holandês (embora muitas delas não o sejam – independentes ou holandesas, quero dizer). A Estante faz assim parte de um movimento contemporâneo que junta modos exóticos de edição a formatos alternativos de distribuição, que se situam a meio caminho entre a livraria, a performance, a exposição, o comissariado (outros exemplos seriam o Navio Vazio ou a Dexter Sinister). Para minha desilusão, desta vez não traziam a estante, o que não me impediu de lhes comprar uns tantos livros, em particular The Form of the Book Book, que já li quase todo desde ontem e que toca assuntos que me interessam bastante: um artigo de Richard Hollis sobre as voltas e reviravoltas do conceito e da prática do livro integrado, e o relato do dia-a-dia do estúdio de Herbert Spencer por uma das suas assistentes, uma visita guiada na primeira pessoa ao trabalho de um dos designers-editores mais interessantes do século XX, e um dos santos patronos desta nova vaga de edição no design.

Não é possível dizer que não há publicações sobre arte ou design em Portugal depois de visitar uma feira como a de ontem, e onde estiveram à venda os três números da revista Pangrama, que começou como um projecto académico que ganhou continuidade, e os dois da revista Voca, que teve um trajecto semelhante. A estas se juntará no final do mês a Pli, cujo nome aparecia no cartaz desta feira, mas cujo lançamento deve ter sido adiado. Pode-se argumentar que são projectos pequenos, sem grande distribuição, mas isso é ignorar que muitos deles se inscrevem em tácticas de distribuição que contornam quase por completo os processos habituais, aos quais são em grande medida invisíveis. As novas editoras independentes espalham-se via net, libertando as ocasiões em que são vendidas ao vivo para suportar estratégias mais ou menos experimentais como as da Estante ou do Navio Vazio.

Esta semana, fui convidado em mais do que uma ocasião para falar sobre edição alternativa/independente/etc., não apenas por iniciativa de alunos, mas pelos organizadores de mestrados e centros de investigação, o que me deixou uma sensação agridoce. Por um lado, é bom ver que se está finalmente a prestar atenção mais alargada a um fenómeno que marcou o design e as artes durante a década passada. Por outro, a atenção é capaz de estar a vir tarde demais: o epicentro destas publicações, a Holanda, acabou de cortar em mais de 40% o seu apoio às artes, dando uma machadada provavelmente fatal neste ecossistema. Aqui em Portugal, onde os apoios às artes ou à edição nunca foram famosos, a coisa ainda anda pior, com boa parte dos projectos a serem sustentados pelas poupanças dos seus criadores.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Publicações

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