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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Inversões Curiosas

Relendo as primeiras páginas do Pioneers of Modern Design, de Pevsner, percebe-se que a arquitectura era bastante diferente no século XIX. O arquitecto encarregava-se sobretudo da decoração exterior de um edifício, adequando o seu estilo às necessidades do seu cliente, mudando de gótico para neo-clássico ou mourisco conforme a ocasião. O resultado chegava a ser cómico, havendo em Inglaterra ruas onde cada casa tinha o seu estilo, ou mansões onde as traseiras tinham um estilo e a parte da frente outro, dependendo do gosto do marido e da mulher.

O projecto modernista propunha-se resolver o problema reduzindo a decoração a um mínimo, até só ficar a estrutura do edifício, determinada pela sua utilidade, a sua função. Fazendo da função um estilo, a arquitectura tornava-se mais do que uma simples decoração, passando a incluir preocupações estruturais, funcionais e, portanto, sociais (o uso de um edifício é determinado socialmente). Porém, na primeira de uma série de inversões estratégicas, foi-se começando a deixar de ver a arquitectura como a materialização, sob a forma de uma construção, das convenções sociais existentes para se começar a procurar modificar e melhorar essas convenções através da arquitectura.

Para o fazer de um modo mais eficaz, o campo de acção do arquitecto já não podia ser apenas as casas que ele e os seus colegas faziam, mas a construção em geral, o urbanismo, o território, etc. Para isso, a arquitectura precisava de tomar posse, através de um discurso científico, de uma série de objectos que tradicionalmente estariam fora do seu domínio, como a arquitectura popular, que aqui em Portugal foi alvo de um conjunto de inquéritos que contribuíram para consolidar a arquitectura como uma disciplina académica e científica, que não trata apenas do que os arquitectos fazem, mas de um bem geral da sociedade, que toda a gente possui e ao qual deveria ter direito, e que os arquitectos, pela sua formação, pelo seu conhecimento e competência, seriam as pessoas mais indicadas para administrar.

Seria esta argumentação que daria fundamento à criação de uma Ordem dos Arquitectos, e, mais tarde, a acções como a revogação do decreto 73/73, que permitia a pessoas que não fossem arquitectos assinarem projectos – e que usou como slogan o “Direito à Arquitectura”. Com estas acções, e noutra inversão curiosa, a criação da Ordem ,que historicamente assentava nos inquéritos à arquitectura popular, acabaria por ilegalizar a própria arquitectura popular, tornada em património inerte, tendo em conta que, neste momento, a arquitectura só pode ser feita por arquitectos.

Pode-se argumentar que a sociedade ficou a ganhar com a troca, que os arquitectos conhecem melhor a engenharia, as normas e a arquitectura do que um pastor que só quer construir a sua casita com umas tantas pedras, mas também se pode ficar a sonhar com todas as soluções exóticas e espontâneas que nascem por aí, às escondidas da lei, e que os próprios arquitectos são os primeiros a fotografar com os seus iPhones, não se importando muito de, com a sua autoridade disciplinar, serem eles a trazer essa produção vernacular para dentro das fronteiras sérias e legais da arquitectura.

É óbvio que muitos designers invejam com olhinhos brilhantes e sonhadores a autoridade dos seus colegas e desejariam ter também a exclusividade da prática do design, mas a necessidade de existir uma coisa chamada “design” não deveria ser determinada apenas pelos designers, tal como a necessidade de uma coisa chamada “arquitectura” não deveria ser deixada apenas aos arquitectos. É a sociedade no seu todo que decide a pertinência ou não de uma disciplina. Aquilo que os designers, arquitectos (ou médicos) fazem é argumentar que a existência da sua disciplina é a melhor solução para um conjunto de problemas e que a sociedade fica melhor com isso.

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Filed under: Arquitectura, Crítica, Cultura, Design, Política

One Response

  1. […] Nacional dos Arquitectos, de 1961. É um livro importante, porque marca (e provoca) de certo modo o início do fim da própria arquitectura popular portuguesa. Também é uma daquelas edições em fascículos (tenho alguns deste livro ainda por encadernar). […]

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