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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Plágio e Copianço

Tendo tido que escrever recentemente um ou dois textos sobre a importância da teoria do design, e tendo eu a tendência para ir discutindo esses assuntos com quem vou encontrando por aí, ouvi mais umas tantas vezes o argumento que um curso de design “não pode ser só teórico” – um argumento curioso, tendo em conta a tendência oposta para tornar os cursos cada vez mais práticos, com cada vez menos cadeiras de exposição.

É como agoirar que o futebol está em perigo sempre que alguém reclama um pouco mais de atenção para o hóquei em patins.

Num curso de design não é definitivamente a parte prática que está em risco. Aliás, o próprio facto de uma escola de design não ser um atelier de design leva muito boa a gente a acreditar que os alunos já estão a ter formação teórica a mais.

Dentro deste esquema, as disciplinas teóricas comportam-se cada vez mais como disciplinas práticas, substituindo os exames finais por trabalhos, por exemplo. No papel, a coisa parece mais dinâmica, mais pragmática, mais útil, podendo-se até começar a chamar papers aos trabalhos e alcançado mais respeitabilidade académica com isso.

O problema é que a divisão clássica entre teóricas e práticas não tem a ver com os conteúdos (práticas igual a bonequinhos; teóricas igual a letrinhas), mas com a quantidade de recursos destinados a cada cadeira. As disciplinas centrais do curso têm em regra mais professores com turmas menores; as disciplinas secundárias têm menos professores e mais alunos. O resultado é que a diferença entre práticas e teóricas é sobretudo uma diferença de acompanhamento e de avaliação. Numa cadeira prática é possível acompanhar melhor os alunos, avaliando-os continuamente, enquanto numa cadeira teórica não, tornando-se necessário, dada a quantidade de alunos, usar métodos de avaliação “de massas” como o clássico teste.

Naturalmente, qualquer assunto pode ser dado de maneira teórica ou prática. A ética Kantiana, ou outro assunto qualquer habitualmente conotado com teoria, pode ser dada num modelo prático, para isso só precisa de turmas com menos alunos e mais acompanhamento, permitindo a realização de trabalhos de investigação avaliados em tempo real. Numa disciplina com mais alunos e menos acompanhamento, pelo contrário, torna-se inevitável substituir o atendimento individual por aulas de exposição dadas à turma no seu todo, focando-se nos conhecimentos mais gerais e sacrificando com isso a relação pessoal com cada um dos alunos e o seu trabalho.

Quando se tenta tornar as coisas mais práticas, a única solução é criar condições para que haja turmas pequenas, mas na conjuntura actual a solução que se arranjou foi encorajar a avaliação através de trabalhos práticos em todas as cadeiras, independentemente do número de alunos, o que faz com que, sem acompanhamento, esses trabalhos teóricos não passem de exames feitos em casa.

Mas,  se nos velhos exames, um aluno apanhado a copiar se limitava a chumbar, agora, se faz a mesma coisa num paper, é acusado de plágio, uma situação bastante mais grave. Ou seja, a explosão de plágios dos últimos anos não é necessariamente um efeito da net, das novas tecnologias, da crescente falta de ética dos alunos, mas de um sistema de ensino que quer dar uma no cravo e outra na ferradura, deixando os alunos entregues a si mesmos e chamando a isso uma formação mais prática.

Filed under: Economia, Ensino

One Response

  1. suzana dias diz:

    Concordo com tudo!

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