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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

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A duas décadas de distância, o Independente envelheceu melhor que o Público.* Na semana passada tive oportunidade de o comprovar quando consegui dois primeiros números completos de cada um dos jornais.

O Independente em 1988, com projecto gráfico de Jorge Colombo, ainda era uma coisa dos anos oitenta, cheia de tiques New Wave, impressa totalmente a preto e branco, enquanto o Público (Henrique Cayatte, 1990) já era, tecnicamente, outra coisa, com uma primeira página a cores e uma impressão muito mais delicada, permitindo suportar o texto composto numa Bodoni fina.

Infelizmente – e é isso que choca um pouco aos olhos actuais – a qualidade de acabamento era desperdiçada num objecto bastante solto, com páginas mais luminosas que os jornais da época, embora conseguidas à custa de demasiado espaço branco e de um equilíbrio de tons muito estranho feito de grandes filetes e destaques a negro mal casados com a tipografia quase light e a suavidade tonal das fotos a cores. Mesmo a própria mancha de texto é pouco uniforme, com variações dissonantes de tamanho, entrelinha e espacejamento.

O Independente era, tecnicamente, um objecto mais grosseiro mas com páginas mais sólidas, equilibradas e elegantes. Boas hierarquias de texto, com espaço negativo bem arranjado e uns poucos filetes e destaques gráficos discretos e bem equilibrados com a tipografia.

É apenas uma hipótese que não tenho como comprovar neste momento, mas a explosão do desktop publishing no design português aconteceria precisamente entre o lançamento do Independente e o do Público (1988-1990). A composição tipográfica, feita até aí nas gráficas, passaria a ser da responsabilidade do designer (ou mais exactamente do seu Macintosh) – uma responsabilidade para a qual não estava, claramente, preparado. A quebra de qualidade do texto corrido da época é particularmente visível nos catálogos da Cinemateca, que a partir de 87/88 passam a ser péssimos, começando a falhar até ao nível do espaço entre as letras que se sobrepõem ou afastam sem grande critério.

Salvo muito raras excepções, o design português levaria mais de meia década a habituar-se ao computador, um período de grande experimentação formal que corresponderia também aos anos em que os primeiros alunos das escolas de design consolidaram a sua presença no mercado, começando por definir o design gráfico como disciplina. Neste contexto, o Público, com todas as suas qualidades e defeitos, viria a ser uma influência determinante no estilo dos designers da sua geração, podendo-se reconhecer a sua marca ainda hoje, sobretudo na tendência para sugerir o rigor modernista à custa de um excesso de espaço branco, usado sobretudo como zona-tampão entre manchas tipográficas de outro modo desafinadas.

* Apenas no que diz respeito ao design; em todos os outros só envelheceu bem no mesmo sentido em que James Dean envelheceu bem.

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Filed under: Crítica, Cultura, Design, História, Publicações, Tipografia

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