The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Se tens mais que fazer…

Na árvore genealógica da grande família dos defeitos morais há, num raminho mesmo ao lado da falsa modéstia, um sentimento a que não consigo dar um nome, mas que acredito ser ainda mais português do que a Saudade: uma espécie de falta de brio orgulhosa que se pratica quotidianamente e que é particularmente forte entre os designers, não se limitando – infelizmente – a estes.

O melhor exemplo de todos, apanhei-o quando andava a ler os textos de António Ferro, interessado no papel que teve na promoção das artes decorativas e de uma coisa que ainda não se chamava design durante a primeira parte do regime de Salazar. Não são textos que tenham envelhecido bem, e fui-me engasgando cada vez mais no racismo e sexismo do personagem, bem como na sua admiração pela própria ideia de ditadura, que não era só uma falta de fé na democracia, mas realmente um optimismo afirmativo no totalitarismo.

A dada altura, fui dar ao livro de entrevistas que fez a Salazar e divertiu-me um pouco ver que o ditador tinha escrito o prefácio, revelando com isso muito pouca modéstia. Ainda me estava a rir, quando reparei que no fim do texto havia um peculiar pedido de desculpas:

Peço desculpa de ter escrito este Prefácio. Não é que me envergonhe de o haver feito; é que me roubou tempo que precisava para outras coisas.

E é precisamente disto que eu falava, de uma espécie de desprezo moral pelo que se está a fazer, simplesmente porque há tarefas mais importantes do que isso, dando a entender que a nossa incapacidade de fazer bem coisas tidas como fúteis – como o design, por exemplo – é na verdade uma virtude. Não fazemos bom kerning porque há coisas mais importantes do que isso; não tratamos bem da cultura porque há coisas mais importantes do que isso. Mas o pior é que, apesar de as desprezarmos, ainda vamos fazendo essas coisas, principalmente porque, apesar de nãos as considerarmos essenciais, ainda temos que as fazer, porque ainda nos pagam por isso, porque alguém as tem que fazer, porque – no fundo – são essenciais.

É por estas e por outras que o nosso lema devia ser “Se tens mais que fazer, junta-te a nós!”

Filed under: Design

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