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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Design para designers

Uma das queixas recorrentes entre os designers é que o ensino, a crítica e a história do design dedicam demasiado tempo ao “design feito para designers”, aos grandes nomes que não fazem trabalho para o “mundo real”, para “clientes reais”, etc. Em alternativa, dever-se-ia promover o trabalho comum: embalagens de detergente e não cartazes de teatro; folhetos de supermercado e não genéricos de filmes.

Um dos argumentos para esta inversão de prioridades seria o facto de ser mais difícil trabalhar para um “cliente real” do que para um cliente da cultura, supostamente mais esclarecido e mais aberto a um design mais experimental.

Até seria um bom argumento se não fosse mais difícil e arriscado trabalhar para a cultura e para o estado do que para clientes com menos visibilidade, onde o trabalho do designer pode ser anónimo, em especial se correr mal. Por cada João Faria, Martino & Jaña, Barbara Says ou R2, há dúzias de designers que trabalham para clientes culturais e que simplesmente não dão conta do recado. Até podem ganhar bateladas de dinheiro com isso, mas se a coisa dá para o torto, estão a receber o salário em troca da sua credibilidade entre os seus colegas.

Para além disso, a cultura é uma área onde os clientes têm quase sempre opiniões fortes sobre a comunicação visual, o que até pode tornar as coisas mais fáceis, mas em geral só torna a discussão mais difícil. É também uma área com dificuldades orçamentais recorrentes onde o design é sempre das primeiras coisas a serem cortadas – e se um designer é bom, deveria ser mais caro, mas então já não há dinheiro para lhe pagar e se calhar contrata-se outro.

Assume-se erradamente que fazer “design para designers” é uma aposta sempre ganha, mas trabalhar numa área com tanta visibilidade é, na verdade, mais difícil e competitivo.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Economia, Ensino

3 Responses

  1. É difícil ter ideias muito definitivas sobre estas coisas, a verdade é que as coisas não são assim tão diferentes neste supostos universos separados (a Paula Shearer queixava-se de nunca ter visto tanta mafia como no universo das galerias de arte nova iorquinas, isto depois de ter trabalhado com o citibank)

    Claro que num suposto ‘design de autor’ (só a designação dá calafrios a algumas correntes do design), o tal autor está mais exposto, tendo maior visibilidade (e estatuto), mas também arriscando mais, apesar de o seu trabalho dificilmente ser avaliado em termos de retorno comercial daquilo que promove (especificamente no caso dos eventos culturais).

    Seria aliás curioso perceber onde estão os designers no nosso tecido empresarial, mais nas embalagens de iogurte, mais nos teatros ou mais a fazer sites para micro empresas… E, mais importante ainda, qual o seu papel enquanto profissionais, assumindo-se como meros tarefeiros (p.ex. adaptando para portugal ou para as suas empresas linguagens já criadas) ou tendo um papel activo (no fundo criativo, ou num nível mais profundo próximo da gestão) nas estruturas que integram (ou para as quais vendem os seus serviços).

  2. Humberto diz:

    Evidentemente que tenho uma opinião sobre esta questão e, embora tenha ainda pouca experiência profissional no ramo, humildemente partilharei connvosco a mesma, as opiniões valem o que valem, pelo que são e não propriamente por quem as diz ( ou, pelo menos, é o que acho )

    Em grande parte o Dr Mario Moura tem alguma razão no que diz, de facto existe algum risco em efectuar projectos gráficos para Instituições Culturais ou até mesmo – sendo mais generalista – Estatais porque se virmos bem as coisas os processos e consequências são praticamente os mesmos em todas as áreas institucionais para onde o projecto gráfico é direccionado.

    No entanto creio existirem aqui algumas questões relacionadas que devem ser apontadas: o risco que o designer corre ao expor o seu trabalho -e a si mesmo, portanto – num projecto institucional, para ser válido, é necessario primeiro que exista uma consciência solida sobre o que define esse mesmo design como ferramenta comunicativa e isso nem sempre existe. O risco ocorre sim quando o designer sente em si o peso da responsabilidade que o projecto – tanto para si como para a instituição que o encomenda, quando compreende os objectivos pretendidos e consegue encontrar um equlibrio entre a sua linguagem e os vectores a atingir, quando a Instuição Estatal compreende o que está a adquirir e,finalmente, quando existem mais designers conscientes que acompanham o processo. Só e só mediante este conjunto de factores existe e em unissono, o risco é autentico. Não pode existir caso o factor consciencia e também o da critica ( a critica é o resultado directo da consciencia ) seja pouco mais do que uma palavra sem sentido, ou seja, o Estado não sabe o quer nem para que o quer, o designer executante não sabe o que esta a fazer nem para quê e os designers circundantes por sua vez não possuem voz critica porque a consciencia grafica não existe, é tudo muito ténue, falso, insustentavel.

    Por mais incrivel que pareça estas realidades existem e hoje e em Portugal, ja testemunhei alguns casos assim.

    O que o Design precisa sim é de uma aceitação no mercado como area especifica profissional e sem uma consciencia social isso é impossivel.

  3. Olá 🙂
    A Mãe Preocupada explica porque é que sem consciência social é imossível de fazer bom design:
    “É uma certa forma de se fazer esperar, de chegar e entrar tarde e a más horas, com a desculpa do excesso de trabalho e complicações inerentes. É uma certa forma de tirar o smartphone do bolso e o pousar em cima da mesa e ficar a consultar o e-mail e a trocar sms enquanto os outros discursam, expõem, explicam. É uma certa forma de passear com os livros debaixo do braço e de os pousar sempre com a capa virada para cima, olhar discretamente por cima das lentes dos óculos a ver quem repara que o top de vendas se cumpriu obedientemente. É uma certa forma de falar com as mulheres, chamando-as de “meninas” com a convicção de se julgar elegante e atencioso, um certo charme de trazer por casa. É uma certa forma de fazer turismo sem nunca ter viajado, de escolher destinos sem conhecer o mapa. Uma certa forma de entrar em aviões com rota própria e definida e nunca ter deixado marcas num caminho aberto com o próprio passo. É uma certa forma de circular pela faixa da esquerda, mesmo quando a da direita está completamente livre, cheirando avidamente a traseira dos outros e sentindo, com prazer, alguém a cheirar-nos a traseira. Uma espécie de orgia rodoviária, com êxtases e orgasmos expressos em sinais de luzes e ziguezagues exibicionistas. Uma certa forma de repetir, orgulhosamente, ridiculamente, não te preocupes, conheço bem o carro e já fiz esta estrada muitas vezes. É uma certa forma de fazer uso do verbo, aplicando vocábulos difíceis e terminados em “ível” para disfarçar a ausência de mensagem. Ou uma certa forma de abusar coletivamente de outros termos, novos e engraçados, como “residual” ou “proativo”. É uma certa forma de abrir o vidro do carro e atirar o maço de cigarros vazio, depois de ter protestado pela má qualidade dos serviços de limpeza da autarquia. É uma certa forma de oscilar entre o arrogante e o subserviente, como se não existisse o meio-termo, como se a linha vertical fosse o único eixo das relações humanas, políticas ou laborais. É uma certa forma de querer chegar a toda a parte sem nunca ter realmente estado em lado algum. É uma certa forma de querer experimentar tudo sem nunca chegar a viver nada. É uma certa forma de ter opinião sobre tudo sem nunca ter pensado sobre nada. É uma forma ativa, participativa e dinâmica de estar online e uma forma monótona, repetida, rotineira, de estar offline. É uma certa forma de invejar o horizonte dos outros, que nos impede de ver o nosso caminho. É uma certa forma de copiar, que nos torna incapazes de dar o melhor que temos do melhor que somos. Uma certa forma de nos recusarmos, de nos negarmos, cuidando que brio e ambição é ver além-fronteiras. É uma certa forma de querer estar mais à frente e por causa disso ficar cego para os lados, para dentro e para o chão que se pisa. É uma certa forma de ser moderno sendo profundamente, visceralmente provinciano. Uma certa forma de nos contentarmos com pouco na nossa interioridade e de nunca estarmos satisfeitos com a nossa exterioridade.
    É, em suma, uma certa forma aproximada à forma de um retângulo, pequeno e embutido, mas com vista para um oceano que já deixou de nos pertencer há demasiado tempo.”

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