The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Atenção à esquerda!

No meio das avaliações e da leitura em massa de trabalhos e testes, ainda tenho uma nesguinha de tempo para me ir enervando com as notícias.

Em primeiro lugar, com a alegria de alguns comentadores quando se regozijam com a mansidão nacional por comparação com os protestos violentos dos gregos. Acredita-se que é mais uma prova dos brandos costumes. Que é sinal que vamos pagar e calar. Que se aceita a austeridade. Que se concorda com as medidas. Etc.

Na verdade, é a prova que ainda somos um país católico até à medula, que acredita que aquele dinheirito que pediu ao banco para comprar o leitor de DVDs foi pecado e agora chegou o castigo. Não merecíamos, fomos apanhados e agora é que são elas. Se voltarmos à vida humilde da horta, da pesca e da sardinha em lata ainda nos podemos salvar. Toca a meter uns tostõezitos por baixo do colchão! Toca a fazer conservas de pêssego! O português salta para a miséria como o lemingue para o mar!

Em segundo lugar, enerva-me a alegria com que esses mesmos comentadores se dedicam a assistir ao descalabro da esquerda, quando é bastante óbvio que Passos ganhou pela mesma razão que Sócrates já tinha ganho antes dele – porque ninguém aguentava o tipo que vinha antes.

A crise da esquerda é, curiosamente, um resultado da precarização da própria ideia de política como profissão. Enquanto a direita convive bem com a ideia da política como um mero acto de gestão, da economia como um exercício de senso comum, a esquerda acredita na ideia da política enquanto política – ou seja, enquanto discussão pública de programas e ideologias. A erosão da credibilidade da classe política acaba assim por favorecer mais a direita do que a esquerda. As manifestações do 12 de Março, organizadas por precários e estagiários de longo curso, com toda a sua fobia aos partidos e à política profissional, demonstra bem isso. Na altura houve quem dissesse que essa desconfiança da política não ia dar em nada, que seria preciso que os interesses dos manifestantes fossem representados de algum modo no parlamento para terem algum efeito. No entanto, essas manifestações tiveram pelo menos um efeito: o de consolidar o isolamento dos partidos de esquerda em relação aos problemas que costumavam tradicionalmente representar.

Filed under: Crítica, Economia, Política

6 Responses

  1. Nuno diz:

    Subscrevo, acrescentando que, como temos sempre na política um reflexo da sociedade civil, é necessário que todos se dediquem a causas públicas que lhes são próximas e nelas intervenham directamente.

    Não acredito que haja sequer uma pessoa que não tenha algo que gostaria de melhorar, o que constitui também uma forma de intervenção política.
    Todos deveríamos ser membros activos de uma organização cívica, que pode ir de um projecto de defesa de direitos laborais, à recolha de sangue, à educação ambiental, a um projecto educativo, etc, etc

    Julgo que o interesse dos partidos aparecerá espontaneamente nessa sequência, se em vez da desconfiança ou apropriação de movimentos e acções a que estamos habituados houver interesse genuíno em colaborar e representar.

    Portugal tem a mais baixa de participação de cidadãos em ONGs na UE…

  2. Nada de novo na desconfiança dos políticos, desde que há políticos que ela existe… Aliás o Cavaco foi eleito passando a mensagem de não ser um politico profissional, e não foi único nas últimas décadas a capitalizar essa mensagem.

    Apesar das manifestações públicas em altura de instabilidade (real ou percepcionada pelos media) os eleitores costumam apostar mais na direita, basta lembrar o resultado das eleições a seguir ao maio de 68 em França.

    Quanto à esquerda ter o monopólio dos programas e ideologias, parece-me um erro de percepção bastante comum (infelizmente não encontro exemplos que sustentem tal visão da nossa política). Encontro sim, exemplo do contrário, como os estudos sobre o encerramento de mais 800 Km de via férrea. Talvez nas margens (longe do exercício do poder) exista alguma marca ideológica e programática mais vincada, mas isso também terá a ver com o tal não exercício do poder. Nas autarquias, onde pontualmente, o PCP ou até o BE têm uma palavra a dizer, não há grandes diferenças de governação ou de opções (urbanísticas, p. ex.). As diferenças quando muito decorrem do perfil das pessoas, e isso está para além dois partidos (felizmente).

    • Não se trata da esquerda ter o monopólio das ideologias, apenas de ser, entre os dois, a única que admite ter uma ideologia. Em muitos contextos, a política entendida como uma forma de intervenção pública não necessariamente profissional tende actualmente a ser uma coisa de esquerda. Muita direita acredita que o seu programa ou ideologia é meramente senso comum, baseado em factos, economia (mesmo que não seja).

      A própria palavra “ideologia” é popularmente um sinónimo de esquerda (excepto entre a esquerda, claro).

  3. Não sei, parece-me mais uma questão de pragmatismo do exercício do poder e aí as ideologias (infelizmente, ou pela opinião eleitoral, felizmente) não têm muito a dizer. Claro que só uma pequena parte das decisões que nos afectam são tomadas pelos políticos e aí a sua importância ainda mais diminuta se torna. No entanto, o que é verdadeiramente trágico é que muitas vezes o resultado de decisões decorrentes de ideias ainda são mais danosas do que aquelas tomadas apenas por gestão corrente ou “senso comum” (estou a pensar no urbanismo, novamente). Exemplo engraçado disto é aquele projecto para a ribeira do Porto (penso que da década de 60), marcado fortemente de uma forma ideológica (arrasamento do casaria e construção de uma torre desafogada). Penso que não foi -felizmente- executado provavelmente por dificuldades orçamentais, seria agora algo anacrónico, mais anacrónico que aquilo que existe. Outro exemplo -em Lisboa- é o de Campo de Ourique, onde o Miguel Sousa Tavares (sim, aquele tipo quase sempre insuportável) defendia que tinha grande qualidade de vida, precisamente por ter sido alheio a qualquer intervenção do estado nas últimas décadas… Enfim, vem tudo sem manual de instruções, e aí é que pode estar a graça ou a tragédia das nossas cidades e de nós próprios. ab.

  4. Hélder Mota diz:

    Professor Mário Moura, antes de mais quero dar-lhe os parabéns pela sua recente “conquista”. Ainda não consegui ler a tese, mas pretendo fazê-lo.

    Quanto ao assunto, sinto a mesma irritação quanto à forma como abordamos a realidade do nosso país.

    Sou um jovem, recém-licenciado, que se preocupa bastante com os assuntos políticos. Não tenho nenhuma participação política activa porque sinto que para tal acontecer, tenho de me associar a um partido. Não consigo. Tenho a horrível certeza que a política está minada. Os partidos parecem escolas que nos ensinam a vender a alma ao diabo. Como consigo, então, ter uma participação política activa no contexto social actual?

    Participei no 12 de Março que, na minha opinião, foi um fracasso e uma desilusão. Não defendo o uso da força nem da violência gratuita, mas o povo deveria ter voltado à rua passado uma semana, após verificar que a classe política desprezou a sua acção. O povo tinha obrigação de continuar a marcha, até conseguir ser levado a sério. Estamos num país em que se elege um homem, não um governo. A última campanha foi uma vergonha histórica. É melhor ocultar o que vem aí do que abordar o tema.

    Não acredito na ideologia de esquerda ou de direita. Parece que se confunde esquerda com oposição. O poder corrompe e a política portuguesa está viciada. Não acredito em ninguém. Talvez devido a minha imaturidade aliada ao período que vivemos.

    Não me sinto representado, de forma alguma. Parece que a política é exercida e posta em prática para uma classe a que não pertenço.

    Peço desculpa por talvez estar a ser confuso, mas esta é a minha forma de ver as coisas, quando tento começar a construir a minha vida.

    O que aí vem é assustador.

    Cumprimentos.

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