The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Entre dois Verões

Lembro-me do Verão de 2001 como o primeiro que passei enquanto funcionário público, mais exactamente como Técnico Superior nas Belas Artes. Tive direito a dez dias de férias em Agosto, encaixados bem no meio dos intermináveis três meses de paragem do ensino superior dessa altura.

Passei semanas no gabinete sem ver ninguém. Preparava saladas nas bancas dos ateliers de pintura. Comia melancias sentado nas escadas com vista para o jardim. Terminava a tese de mestrado um bocadinho todos os dias. Nessa altura, ainda não haviam cursos de Verão ou Universidades Júnior (ainda havia algum dinheiro no ensino superior).

Foi um Verão entalado entre a tragédia da ponte e a queda das torres, à qual assisti num aparelho de televisão da sala de cine-vídeo, para o qual tive de improvisar uma antena com alicate e pedaços de arame. Para mim, aquele foi realmente o começo da década.

Agora num outro Verão, dez anos depois, as coisas parecem igualmente apocalípticas, entaladas entre a vinda do FMI e do novo governo.

Entre 2001 e 2011 comecei a dar aulas, mais de quinze cadeiras diferentes*, distribuídas por mais de cinco cursos distintos, entre licenciaturas e mestrados (sempre às ordens da mesma instituição), num mínimo de duas e num máximo de sete por ano. O ensino superior tornou-se uma linha de montagem cada vez mais acelerada, dentro da qual as artes são produzidas e avaliadas pela mesma bitola da investigação científica, sem que ninguém dê conta do absurdo da pretensão.

Mas – infelizmente – as artes tendem a monumentalizar o poder e o poder neste momento é economicista, tecnocrático e burocrático, portanto temos as artes e o ensino das artes que merecemos, com uma ênfase cada vez maior na gestão (que por aqui se chama “curadoria”) e cada vez menor na produção de conteúdos.

Felizmente, e além de tudo isto, comecei a escrever sobre design. Primeiro com apenas uma fé instintiva e cega na importância da crítica, sem perceber muito bem porquê, mas construindo a cada texto as minhas convicções, que se foram afinando com o tempo.

Neste momento, acredito na escrita como uma maneira essencial de criar e manter um discurso público dentro das artes e do design que não se limite a fornecer conteúdos à tal gestão ou a cumprir as metas de ter os papers e comunicações suficientes para manter o contratozito. É essa crença que ainda me vai mantendo a funcionar.

*Design II; Estudos de Composição; Imagem e o Signo; História e Teoria da Imagem; Grafismos Especializados; Seminário; Estudos de Design; História do Design; História e Crítica do Design; Tipografia; Estudos de Tipografia; Estudos Avançados de Tipografia; Produção em Novo Media; Arte, Comunicação e Cultura Visual; Multimédia Hoje; Práticas e Teorias do Multimédia Contemporâneo. São as que me consigo lembrar, podem ter sido mais.

Filed under: Design

One Response

  1. marco costa diz:

    olá mário, mais uma vez como te compreendo…

    “Entre 2001 e 2011 comecei a dar aulas, mais de quinze cadeiras diferentes*, distribuídas por mais de cinco cursos distintos, entre licenciaturas e mestrados (sempre às ordens da mesma instituição), num mínimo de duas e num máximo de sete por ano. ”

    não sei se o que vou deixar aqui escrito te deixará mais descansado ou um pouco mais revoltado:

    no meu caso comecei a dar aulas em 2003/04 e até hoje já “só” foram 21 disciplinas em 9 cursos diferentes com um mínimo de 3 e um máximo de 8 por ano.

    Composição e Design Gráfico – Teoria e Prática da Expressão Plástica – Design de Comunicação – Exploração Gráfica –
    Exploração Informática – Técnicas de Design – Expressões –
    Instalações Multidisciplinares – Composição – Geometria – Oficina de Animação Plástica – Teoria das Artes Visuais – Comunicação Visual – Design do Produto – Teoria da Comunicação e Meios Audiovisuais II – Informática e Artes Visuais – Computação Gráfica – Fotografia – Teoria da Comunicação e Meios Audiovisuais I – Teoria do Design e Prospecção do Meio – Anatomia das Formas

    acho que não me falta nenhuma…

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