The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Plano nacional de leitura

Quando era novito, fui um leitor rápido e obcecado. Não tinha mais que cento e tal livros na minha pequena biblioteca e orgulhava-me de os ter lido a todos, às vezes mais do que uma vez. Lembro-me de me entusiasmar tanto com um livro que o chegava a ler duas vezes no próprio dia em que o trazia para casa. Também me lembro do primeiro que comprei e não li até ao fim, um livro de ficção científica de Brian Aldiss chamado – salvo erro – “A Hora de 60 Minutos”. Foi o começo do fim. Agora tenho dezenas de livros que não acabei.

Mas ainda assim vou tentando, sempre que posso. A carreira académica que eu sempre pensei ter a ver com livros dificulta cada vez mais esse acto simples de ler um livro. É preciso ler para preparar aulas e conferências; é preciso atravessar carradas e carradas de trabalhos de alunos; é preciso ler mails e memorandos em larga medida inúteis.

Acredito que, diariamente, tenho a capacidade física para ler decentemente umas tantas palavras, um limite que em certas alturas do ano é totalmente absorvido pelo sistema, sem que disso me fiquem grandes vestígios.

Boa parte da investigação produzida é repetitiva, mal escrita, completamente inútil a curto e a longo prazo. Só serve para melhorar as estatísticas, engrossando a qualificação à custa da qualidade – o termo certo deveria ser “quantificação”; pouca gente acharia alguma ironia no facto de sermos um dos países mais quantificados da Europa, com os jovens mais quantificados, etc.

Nos novos mestrados e doutoramentos não há grande tempo para ler o que quer que seja e menos ainda para escrever sobre o que se leu. As dispensas de serviço e as bolsas de doutoramento são poucas e parcas e tem que se acumular a investigação com outros empregos que, se forem no ensino, exigem ainda mais leitura e mais escrita, que pouco ou nada terá que ver com o assunto investigado. Ler faz-se no metro, no comboio ou ao fim-de-semana.

É uma leitura e uma escrita massificada e burocrática, onde o requerimento de renovação de uma bolsa se confunde com o paper de investigação ou com um relatório de fim de ano, embrutecendo irremediavelmente quem os escreve e quem os lê.

Filed under: Crítica, Cultura, Design

2 Responses

  1. Nuno diz:

    “É uma leitura e uma escrita massificada e burocrática, (…) embrutecendo irremediavelmente quem os escreve e quem os lê.”

    +1 aqui

  2. marco costa diz:

    como te compreendo Mário…
    quantas vez me forço a ir tomar café só para poder ter tempo para me abstrair de tudo o resto, menos daquele livro aberto à minha frente…

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