The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Problemas Novos

Sem perder mais tempo, começo por dizer o óbvio: a Pli está a anos-luz de outras tentativas de fazer uma revista de design em Portugal, o que não significa que não tenha problemas, apenas que os seus problemas são novos.

É uma revista feita numa escola, aproveitando a prata da casa, mas que ambiciona claramente uma arena mais alargada. A ambição ecoa a da própria Esad, que no último ano se tem esforçado por produzir novos eventos longe das suas diminutas instalações, criando extensões como o Espaço Quadra, a galeria onde se realizou a exposição sobre o trabalho de David Carson por exemplo, e que se situa bem no centro de Matosinhos. A própria Pli seria lançada em Lisboa, longe do território habitual da escola, onde “Esad” significa uma outra instituição, também ela cheia de personalidades carismáticas. É uma boa estratégia, que se distancia da usada no evento que a celebrizou, as conferências Personal Views, que habitualmente faziam transbordar o seu minúsculo anfiteatro com gente vinda de todo o país. Percebia-se a vontade da escola de manter uma ligação física ao evento, numa altura em que a sua reputação ainda se estava a consolidar, mas a decisão de ocupar um território maior era inevitável e está bem palpável nesta revista, com os seus 2000 exemplares de tiragem e distribuição assegurada no Brasil e em Espanha.

Essa ambição alargada nota-se no seu alinhamento editorial que inclui artigos de e sobre design americano, espanhol, brasileiro; sobre arte, urbanismo, ilustração e comissariado. Nota-se também a maneira como este alinhamento surge de iniciativas presentes e passadas da escola, invocando nomes que estiveram presentes nos Personal Views (Andrew Blauvelt) ou expostos no Espaço Quadra (Isidro Ferrer). Assim é – para já – uma revista que assenta num universo geográfico muito coerente, que se prolonga no seu design, cuja direcção foi assegurada por João Martino, também ele ligado à Esad.

De entre as escolas de design portuguesas, a Esad de Matosinhos é talvez a única da qual se pode dizer com segurança que tem um estilo gráfico próprio – ou seja, que é verdadeiramente uma Escola no sentido mais “espiritual” do termo –, que se formou à volta de figuras marcantes do design português, como João Faria ou o próprio João Martino. No entanto, um estilo é sempre uma vantagem e uma desvantagem, permite-nos fazer umas coisas mas impede-nos de fazer outras – é inevitável. No caso da Esad, o seu estilo apareceu no final da década de 90, consolidando-se durante o Porto 2001, em particular nos cartazes de João Faria, onde tipografia e imagem se fundem numa explosão expressionista muito forte e herdeira directa do trabalho de David Carson, Ed Fella, da Emigre dos anos 90 e de Cranbrook. No entanto, se todas estas referências produziram boas publicações, não se pode dizer que tenham sido feitas num esquema sistemático e racional que possa ser aplicado por grandes equipas ou grandes instituições – um problema que já se viu quando André Cruz, aluno da Esad e antigo assistente de Faria começou a trabalhar com a identidade gráfica Neo-Suíça desenvolvida por Sagmeister para a casa da Música.

O design português desenvolveu uma espécie de estilo “Suiçóide” para aplicar a este género de trabalhos, uma coisa com fontes sem serifas ou egípcias arredondas, grandes superfícies de cor e muito espaço negativo, com uma grelha básica – ou, nos piores casos, sem grelha nenhuma, apenas uma ou duas colunas de texto no InDesign – construída à volta de manchas de texto com linhas de comprimento generoso, que em geral funciona bem em formatos pouco extensos como o flyer, o poster ou a brochura, mas que se torna cansativa e desinspirada em revistas ou livros e que facilmente dá para o torto nas mãos de quem não percebe tipografia básica – exemplos positivos: Pedro Falcão, Andrew Howard; maus exemplos: a imagem da maioria das universidades e sobretudo escolas de arte portuguesas, a epidemia de publicações académicas paginadas como se fossem brochuras de quatro páginas, folhetos de operadores de comunicações, etc.

No caso da Pli, a organização das suas páginas, sem uma grelha demasiado explícita e uma indistinção propositada entre margens, imagens e detalhes decorativos, torna-a num objecto gráfico estimulante e sempre novo, mas dificulta por vezes uma leitura contínua, bem como uma navegação das suas hierarquias gráficas – uma dificuldade agravada pelo formato oblongo que, associado a um corpo de texto reduzido, resulta em colunas intermináveis com um comprimento de linha relativamente grande. Mas, no fundo, trata-se de uma questão de estilo: se os nossos antepassados são os “Guerreiros da Legibilidade” dos anos 90 é natural que as nossas publicações problematizem o próprio acto de ler.

Porém, esta filiação poderá trazer ainda outro problema: a primeira parte dos anos 90 já vai a duas décadas de distância e o estilo da Pli, por bem feito que seja, já começa a parecer clássico – para não dizer datado –, uma questão que surge com particular força quando se confronta a revista com o seu encarte produzido pela dupla Sofia Gonçalves e Marco Ballesteros, onde estão presentes certas tendências gráficas dos últimos anos – Dot Dot Dot, Werkplaats, etc. A Pli, apesar de ser um objecto coerente, bonito, talvez a primeira revista de design português com um bom “toque”, arrisca-se a só ser apreciada cerebralmente enquanto um objecto historicamente situado e não como algo que está “na moda”.

Mas enfim, são problemas interessantes e novos. Dei-me conta que já escrevi quase mil palavras, distribuídas por seis parágrafos generosos, sobre uma escola portuguesa, a sua revista e o seu estilo, uma tarefa que seria difícil repetir em relação à grande maioria das revistas sobre design produzidas em Portugal ao longo dos anos: Page, Cadernos de Design, Directarts, PortugalDesign — todas fraquinhas.

Ao nível editorial, nota-se também um estilo, anunciado no próprio título da revista, citando explicitamente um conceito de Gilles Deleuze, uma estratégia talvez inédita dentro das revistas de design cujos títulos tendem a ser mais ou menos directos, mesmo quando pretendem ser poéticos: Eye, Emigre, Dot Dot Dot, Graphic, étapes. A referência a Deleuze marca também claramente a filiação de um dos seus editores, José Bártolo, às correntes mais interessantes do pensamento académico português dos últimos anos, nomeadamente à Universidade Nova. É portanto uma publicação assente mais em ensaios de curta e média duração sobre conceitos relativamente distantes da prática profissional do designer comum (felizmente), com algumas entrevistas, perfis e recensões, que funcionam melhor quando tratam o seu assunto com profundidade e rigor do que quando se limitam ao elogio emotivo em relação a objectos que nitidamente não o suportam, tornando-se excessivas e pessoais  – o lirismo entusiasmado do ensaio sobre o trabalho insípido e repetitivo de Isidro Ferrer, por exemplo. Pelo contrário, o curto texto de Bártolo sobre o Almanaque consegue ser elucidativo e interessante, agarrando num tema que se arrisca a cair no lugar comum e dando-lhe a volta – praticamente todos os primeiros números das poucas revistas de design editadas em Portugal precisam de ter um artigo sobre Sebastião Rodrigues (provavelmente por obrigação legal).

Por todas as suas características, a Pli não é – nem felizmente pretende ser – uma revista generalista sobre design. E, se é verdade que o design ainda não é tão falado em Portugal como o futebol, a política ou a crise,  já vai tendo a sua cobertura em jornais, revistas e blogues. Uma boa revista de design – tal como um bom restaurante ou um bom quiosque – faz escolhas, que lhe limitam o alcance mas que lhe aprofundam o interesse. Agradará a uns, desagradará a outros. Se esses “uns” só forem designers e professores de design, já terá um público alargado e esfomeado quanto baste.

(No lançamento da revista, cumpriu-se aquele hábito bem português de praticamente só falar do fim da revista – e se acabar, e se não durar muito, e se cair na auto-paródia. Não sei, nem me interessa: nessa altura já a deixei de comprar. Se me interessa por apenas um número, já cumpriu mais do que a sua missão.)

Filed under: Design

4 Responses

  1. boa tarde Mário,

    como é que posso obter um exemplar da PLI aqui em lisboa?

  2. Avé Estilo Esadiano, cheio do mesmo, o Guru é convosco.
    Bendito sois vós entre os outros estilos, e bendito é o fruto da vossa influência, Designer Gueisho.
    Santo Estilo, Filho do estilo Nórdico, rogai por nós, designers perdidos, agora e na hora da insegurança.
    Replica.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: