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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Estética e Política

Outro dia, perguntaram-me que revistas de arte havia em Portugal, e não me ocorreu nenhuma. A L+Artes acabou, a Artes & Leilões também. Pedi algum tempo para pensar, perguntei a duas ou três pessoas, artistas plásticos que me disseram que não havia nada – sugeriram o site Arte Capital, algumas revistas de arquitectura que também tratavam de arte, mas nenhuma de arte pura e dura.

Entretanto, ocorreu-me enquanto escrevia sobre a Pli que, pela primeira vez desde que me lembro, temos uma revista de design em Portugal sem haver pelo menos uma de arte – não tenho nenhuma Bíblia à mão, mas este deve ser seguramente um dos sinais do Apocalipse.

Ainda sobram as curtas colunas sobre arte nos jornais, mas estamos numa altura em que a arte parece retirar-se da arena pública sem deixar grandes vestígios que não uns tantos debates sobre a sua economia ou se deve ou não haver um ministério da cultura. Tirando isso, a arte faz-se de boca em boca, o que é mau sinal.

Não porque a arte tenha deixado de ser importante – antes pelo contrário –, apenas porque deixou de ser discutida em público de modo mais alargado. Os seus fóruns reduzem-se agora à conversa de inauguração, às conferências e à investigação produzida no âmbito académico, o que é muito, muito pouco.

É costume dizer-se que estética e política são coisas distintas e, mesmo para quem defende uma continuidade entre as duas, a ideia de terem alguma coisa a ver uma com a outra soa sempre um pouco a provocação, a escândalo. Mas, se há uma parte mais básica do gosto que é realmente privada, o gosto que é aprendido e exercido em público é uma forma especializada de opinião. A estética moderna, tal como foi criada por Baumgarten, já não diz respeito à mera sensação privada, mas a esse exercício público do gosto. A estética – assim como a crítica –, sustentam a ideia da arte como um fórum autónomo dentro da esfera pública mais alargada, com o seu próprio público, reclamando uma fatia dos recursos económicos e políticos, etc. Quando deixa de haver essa discussão, é porque a arte perdeu a sua autonomia, tornando-se dependente de outros interesses – da economia (neoliberal), da ideologia (empresarial), da academia (pós-Bolonha).

Assim, se tem havido bastante discussão sobre a existência ou não de um Ministério da Cultura, parece-me bastante mais problemático que não existam revistas de arte em Portugal. Se a arte não consegue manter um discurso público, porque haveria de ter o seu ministério ou mesmo secretaria?

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Filed under: Design

One Response

  1. Situr Anamur diz:

    O croquete invade a arte e o design.
    Na realidade temos ou revistas de croquete ou revistas para nerds e geeks.
    E o povo pá? Não existe meio termo entre o salão de chá e a sala da acedemia?

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